Nietzsche dizia que temos a arte para não morrer da verdade. O alemão sabia das coisas, pois só se é trágico na juventude; na velhice, restam-nos risos e burlas. Lembrei-me de B., àquela altura uma flor. Parecia-se com Rita Payés, a trombonista catalã, e possuía a afinação precisa da contestação. Uma vez, B. discordou após eu dizer em tom solene que Morte em Veneza, de L. Visconti, arrancou-me lágrimas. “Professor, no teatro aprendemos algumas técnicas para chorar e fazer a plateia se emocionar.” Pedi mais água com gás e limão. A garrafa transpirava, o copo separava-nos, e não havia muito o que conversar.
Por algum motivo desimportante, B. insistiu em nossa amizade. Apareceu de surpresa em meu apartamento. Conversamos até altas horas e confessou que, apesar de bem mais velho do que ela, eu era um cara perfeito, exceto pela aliança reluzente. Prosseguiu narrando suas aventuras sexuais, que me afundaram em uma melancolia de fazer inveja àquela gravura do anjo de Albrecht Dürer, outro alemão batuta.
O dia amanhecia com a sensação de que alguma esperança havia entre o fogo juvenil e as cinzas senis. Foi quando, olhando para os pés de B., notei que calçava umas meias encardidas. Isso me libertou de toda a culpa e chorei, copiosamente, enquanto ela, apesar de confusa, despedia-se com um beijo.
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