Robi era meu amigo na universidade. Homem discreto, exceto pelos odores bucais, logo denunciados publicamente por suas alunas, que o acusavam de misoginia e assédio moral. Soube que o conflito teve início quando Robi, em um seminário sobre História e Ensino, aconselhou um grupo de alunas que tivesse mais decoro em sala de aula. Ele não exigia que elas viessem à universidade de tailleur, mas que evitassem o chinelo de dedo e o short entalado na bunda. Também comentava que, em sala de aula, um professor não devia se esparramar em cima da mesa ou fazer gestos ostensivos.
Confesso que nunca notei o mau hálito de Robi, mas dos cinco sentidos, o olfato é o que menos me faz falta. Talvez porque seja o mais grosseiro deles e sempre me impressionaram as sutilezas da audição ou o brilho da visão. São Bernardo dizia que a fé começa pelo ouvido e o amor pela visão. Desconheço algum místico que tenha louvado o olfato.
Roberval mal sabia que seus comentários pedagógicos despertariam a cavalgada das Valquírias em nosso campus. Acossado por essas guerreiras, Roberval decidiu tratar sua halitose. Diante de uma reunião da Congregação da Faculdade, elevou os braços gritando: “Sou vítima do machismo, me perdoem, todes”.
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