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A Prostituta XL

“... e beijava seus pés, e os ungia com o unguento”

Foi assim meu encontro com a prostituta XL na primeira visita ao Buraco Quente. Era uma época em que jurava ter vocação à santidade e meditava Lucas 7, 37-38: “E eis que uma mulher na cidade, que era uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar seus pés com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça; e beijava seus pés, e os ungia com o unguento.” 

Por recomendação de Frei S., fui conhecer a mulher pecadora e fundar o primeiro núcleo de evangelização “Maria de Magdala”. Com meus 18 anos e jejuns intermitentes, julgava gozar de força suficiente para transitar entre gemidos em falsetes, vindos dos quartos, e brindes ostensivos, celebrados nos balcões que separavam a entrada da casa da intimidade dos casais. Ao meu redor, velhos e jovens observavam os trejeitos das putas. XL cochichava em meu ouvido para que não me intimidasse com esses corpos se desejasse conquistar suas almas. Era preciso conhecer o que havia de mais bruto nas mulheres se quisesse penetrar em seus corações.

Fui apresentado à xs, a mulher de cabelos pretos como as asas da graúna, que me convidou, sem cerimônia, para seu quarto. Como poderia lhe confessar meu propósito?  Roubaria seu tempo sem lhe pagar por sua atenção? XL percebeu em meus olhos o desejo e o embaraço das desnecessárias justificativas e, pegando em meu braço, ordenou: “Frei, seja homem, convide-a antes para uma bebida.”

Nessa época, permitia-me apenas uma vez ou outra um cálice de vinho de sacristia. Mas disse à xs: “Aceita uma cerveja?” Ela se surpreendeu com a minha paciência, pois julgava que estivesse ansioso por conhecê-la. “Com preliminares… é mais gostoso”, disse esticando a voz.  Por estar ali em missão, reprimi um comichão subindo das partes baixas, mas não resisti a um arrepio muito esquisito na nuca.  Então comecei o interrogatório…

O meu copo de cerveja continuava intacto, enquanto ela já avançava no segundo.

Depois de algumas perguntas, xs, já olhando para os clientes, disparou: “Moço, você já trepou?”  “Sim, no seminário temos várias árvores frutíferas, e quando queremos nos exercitar, subimos nelas”. Como se estivesse diante de um bobo, soltou uma gargalhada e empurrou meu peito com suas duas mãos, num gesto infantil. Desequilibrei-me e caí de costas, despertando sua compaixão. Levantei-me em um golpe de vista, pedindo-lhe desculpas e já me preparando para deixá-la, quando XL veio em meu socorro.

O relógio marcava 23h, e o próximo circular passava em breve. Despedi-me de XL, não sem antes abrir meu coração. Após a queda, percebi que se quisesse conhecer xs e trazê-la para o rebanho, libertando-a dos lobos esfaimados, deveria me envolver emocionalmente com ela, contrariando uma das regras básicas da vida apostólica e do meretrício.  Por que negar que queria xs de corpo e alma? Como esquecer suas palavras, quando lhe perguntei:

“Os homens querem mesmo só sexo?”

“Não, moço, muitos vêm aqui apenas por uma companhia.”

Após as despedidas, avistei o ônibus que se aproximava com o luminoso destino “Centro”. Não havia nenhum passageiro nele. Sentei-me no último banco e fui contemplando o rosário de luzes que passava por mim, enquanto a casa de XL era apenas uma lembrança.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.

Foto de capa:

Ilustração de Fernando Morato
Ilustração de Fernando Morato
30 set 26

Fala, Cadáver!

"O que seria dos faraós sem as pirâmides ou dos papas sem as criptas?”
Gravura medieval em preto e branco representando quatro figuras esqueléticas e três figuras vivas em trajes medievais dispostas em um espaço com vegetação, onde as figuras seguram bastões e tecidos, enquanto esqueletos portam foices e tochas, todos sob arcos decorativos em composição simétrica típica da arte da Dança da Morte.

28 ago 26

Meu motoboy garanhão

“Seu gesto, obviamente, duvidava da minha macheza”
Ilustração em preto e branco de uma pessoa vista de costas, usando vestuário escuro ajustado, posicionada na entrada de um estabelecimento com porta aberta, acima da qual está inscrito "CAFÉ DES AMIQUES" em letras maiúsculas, flanqueada por duas luminárias de parede e paredes laterais com padrão geométrico, em estilo de gravura ou desenho técnico.

28 jul 26

As Toalhas Felpudas de DARLAINE

“era minha sereia na travessia por esse vale de lágrimas”
Desenho em tinta preta sobre papel branco de uma criança com cabelo comprido e liso, rosto com olhos fechados e boca aberta com um objeto cilíndrico saindo dela, corpo coberto por padrão de linhas e texturas, membros inferiores finos, com data "VII.26" no canto inferior esquerdo, e um objeto com olhos desenhado no canto superior direito da folha.

24 jun 26

Deus não aposta com perdedores

Este mundo, irmãos, se divide entre a jogatina do bem e a do mal. Glória a Deus!
Deus não aposta com perdedores; artigo Marcos Lopes

26 maio 26

O Viado Sincerão

“Aceitei tristemente sua recusa, mas louvei a lealdade aos seus princípios.”
Ilustração de Fernando Moratto

22 abr 26

A Estudante de Meias Encardidas

 “Só se é trágico na juventude; na velhice, restam-nos risos e burlas”
A Estudante de Meias Encardidas; artigo Marcos Lopes

31 mar 26

O Mau Hálito do Professor Roberval

São Bernardo dizia que a fé começa pelo ouvido e o amor pela visão
O Mau Hálito do Professor Roberval, artigo Marcos Lopes

22 jan 26

Mamãe não gosta dessas brincadeiras

Capivara me amou por alguns poemas precoces e outras jaculatórias ao pé do ouvido
Mamãe não gosta dessas brincadeiras

22 dez 25

Memórias de um Mulato sem Vergonha

“A ocasião não faz apenas o ladrão, mas também grandes homens.”
mulato cinco

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