Na cultura ocidental, a personagem do Bobo da Corte desempenhou a função de entretenimento e crítica social. No Rei Lear, de Shakespeare, encontra-se sua realização literária mais exitosa. O tratamento afetuoso que o rei dispensa a essa personagem é retribuído com máximas, trechos de canções e frases atrevidas, capazes de revelar as maquinações do poder e a vulnerabilidade da condição humana (“Tiveste pouco juízo em tua coroa careca, quando cedeste a outra, dourada”, Ato I, cena 4).
Ao dividir de forma inábil o reino com suas herdeiras, Lear precipita o desprezo por sua condição senil. Diante da volubilidade do rei, as filhas mais velhas pactuam alijá-lo das decisões, negando-lhe todos os privilégios. Cordélia, a mais nova, deserdada na partilha por não expressar enfaticamente seu apreço ao pai, tem características semelhantes à do Bobo: ela não dissimula a verdade para alcançar os benefícios, como suas irmãs.
No primeiro ato, Lear pergunta se Cordélia está falando de coração. A jovem responde que sim, mas o rei chama-a de indelicada e “muito jovem”. “Tão jovem, meu senhor, e verdadeira”, responde ela. Expressar a verdade do coração trai as expectativas do grupo e solicita certo atrevimento irônico. Cordélia, a filha deserdada, e o Bobo, o único que permanece fiel ao rei, representam, respectivamente, essas duas exigências da verdade: o coração e a razão.
Essas personagens são alijadas do jogo político, mas isso, na lógica da ação dramática, as investe de um duplo poder, de outro tipo: a força do sentimento e da razão. Esses investimentos revelam, respectivamente, um lado trágico e um cômico. O lado trágico reside no assassinato de Cordélia, no final da peça. O cômico aparece nas provocações do Bobo, indicando o caráter contingente das relações humanas. O poder político é desnudado, deixando uma dúvida crucial: como conciliar, nos espaços institucionais, a verdade trágica do sentimento com a cômica da razão? Em outras palavras, como sobreviver nos espaços de poder?
Em um exercício de imaginação, poderíamos propor esses papéis em nosso contexto. Por que não criar, por exemplo, a posição de “Bobo da Corte” no espaço acadêmico? Semelhante à personagem shakespeariana, ele privaria da estima do mandatário, permanecendo-lhe fiel em seus momentos críticos. Equilibrando-se entre o sentimento trágico e a razão cômica, ele teria licença para dizer, por meio de chistes e ironias, as verdades impronunciáveis nas esferas de decisão. Fiel à sua irreverência, marcaria presença nas liturgias oficiais (das colações de grau às defesas de tese) e reuniões institucionais (das assembleias estudantis ao Conselho Universitário). Seria um case único e inovador na administração pública do século XXI.
Quais seriam os critérios de seu estágio probatório? Como seria classificado quando solicitasse às agências de fomento algum auxílio para as atividades cômicas? Deveria ser um líder internacional competitivo na área do escracho? Estaria dispensado do martírio da plataforma Sucupira? Sua produção seria mensurada pelo número de likes e cancelamentos?
Nessa fábula acadêmica, o Bobo zombaria dos vídeos promocionais dos órgãos institucionais, com sua aposta no caráter redentor do vestibular e das políticas de ações afirmativas. Ele solicitaria uma “bolsa permanente moradia”, com acesso vitalício ao restaurante universitário e ao transporte público. Sua única contrapartida seria exibir, no início e no fim dos semestres letivos, um semblante convicto e proferir as seguintes palavras de ordem: “Ninguém solta a mão de ninguém”.
Dada a insalubridade dessa posição, talvez fosse sensato oferecer-lhe promoções automáticas, com acréscimos em seus vencimentos. Ao ser convidado a prestar juramento nas cerimônias dos cursos de medicina, ele prometeria, hipocritamente, “a verdade, sem o manto diáfano da fantasia”. Com a verve de um Nelson Rodrigues, se autoproclamaria reacionário e libertário. Um Bobo da Corte, sem filtro, quem se candidataria a essa posição? Quem seria capaz de proferir suas palavras no terceiro ato do Rei Lear: “Maluco é quem confia na mansidão do lobo, na saúde do cavalo, no amor de um rapaz e em jura de puta.”
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.
Foto de capa:

