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O Viado Sincerão

“Aceitei tristemente sua recusa, mas louvei a lealdade aos seus princípios.”

Falei de Robi no penúltimo episódio, mas esqueci de dizer que ele era um sincerão. Eu o conhecia desde a graduação em filosofia. Nosso primeiro encontro foi em uma aula sobre a Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant. Ele tinha por hábito começar assim suas intervenções: “Desde a minha mais tenra infância…” E somente após esse introito, fazia seu comentário inteligente ou uma pergunta embaraçosa ao professor. 

Certa vez, ainda estudantes, ele me viu na universidade com um short rosa pink e propôs que fizéssemos uma troca: sua camisa de viscose, feita por sua mãe, com bordados na gola em V, pelo meu short. Eu lhe disse que a peça ficaria pequena nele, mas respondeu-me a queima roupa: “Marcos, eu quero mostrar minha bunda”. Aceitei a proposta, pois se o short valorizava suas nádegas; sua blusa, os meus cabelos cacheados. Assim começou minha amizade com Robi, selada, anos mais tarde, com um convite para ser meu padrinho de casamento, que ele recusou gentilmente, ao me dizer que como gay assumido não poderia compactuar da visão católica a respeito dos homossexuais. Aceitei tristemente sua recusa, mas louvei a lealdade aos seus princípios.

Roberval sempre me dizia que a Igreja Católica não era um clube, uma ong ou um partido político ao qual nos associamos. “Marcos, não sou obrigado a ser católico, mas se o desejasse porque não deveria cumprir suas regras, caso acreditasse na promessa que a igreja diz ser portadora?” Nunca vi uma defesa tão simples e enfática do compromisso com uma crença, nem entre meus amigos padres.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.

Foto de capa:

Ilustração: Fernando Morato

Cartum mostrando uma pessoa observando um livro pendurado intitulado "KANT METAFÍSICA DA MORAL" com uma expressão de dúvida, enquanto à direita aparecem símbolos em katakana japonês, assinado por F. L. Morato.
22 abr 26

A Estudante de Meias Encardidas

 “Só se é trágico na juventude; na velhice, restam-nos risos e burlas”
A Estudante de Meias Encardidas; artigo Marcos Lopes

31 mar 26

O Mau Hálito do Professor Roberval

São Bernardo dizia que a fé começa pelo ouvido e o amor pela visão
O Mau Hálito do Professor Roberval, artigo Marcos Lopes

23 fev 26

A Prostituta XL

“... e beijava seus pés, e os ungia com o unguento”
A Prostituta XL (artigo Marcos Lopes)

22 jan 26

Mamãe não gosta dessas brincadeiras

Capivara me amou por alguns poemas precoces e outras jaculatórias ao pé do ouvido
Mamãe não gosta dessas brincadeiras

22 dez 25

Memórias de um Mulato sem Vergonha

“A ocasião não faz apenas o ladrão, mas também grandes homens.”
mulato cinco

25 nov 25

Chacrinha nos Estudos Ancestrais

"!Na noite passada, o Velho Guerreiro apareceu-me no espelho. Sua imagem tão vívida, apesar de fantasmagórica, comoveu-me!"
Chacrinha nos Estudos Ancestrais

07 out 25

O amargo e o doce em uma universidade

"O que provocou meu desencanto foi uma parcela de cristãos ser chamada de idiotas por um docente em um evento acadêmico."
O amargo e o doce em uma universidade; artigo Marcos Lopes

18 set 25

O Bobo da Corte, uma Fábula

Em um exercício de imaginação, poderíamos propor esses papéis em nosso contexto. Por que não criar, por exemplo, a posição da personagem no espaço acadêmico?
Rei Lear, de Shakespeare, por George Frederick Bensell (wikipédia)

05 jan 24

Muito barulho por nada

Marcos Lopes: "Qual a razão desse hiato entre o que a escola diz ensinar e o que a universidade cobra em seus exames? Por que os alunos demonstram em suas respostas a ausência de uma experiência efetiva da literatura?"
"No espaço escolar, a literatura estava definitivamente refém do controle pedagógico e linguístico"
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