Falei de Robi no penúltimo episódio, mas esqueci de dizer que ele era um sincerão. Eu o conhecia desde a graduação em filosofia. Nosso primeiro encontro foi em uma aula sobre a Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant. Ele tinha por hábito começar assim suas intervenções: “Desde a minha mais tenra infância…” E somente após esse introito, fazia seu comentário inteligente ou uma pergunta embaraçosa ao professor.
Certa vez, ainda estudantes, ele me viu na universidade com um short rosa pink e propôs que fizéssemos uma troca: sua camisa de viscose, feita por sua mãe, com bordados na gola em V, pelo meu short. Eu lhe disse que a peça ficaria pequena nele, mas respondeu-me a queima roupa: “Marcos, eu quero mostrar minha bunda”. Aceitei a proposta, pois se o short valorizava suas nádegas; sua blusa, os meus cabelos cacheados. Assim começou minha amizade com Robi, selada, anos mais tarde, com um convite para ser meu padrinho de casamento, que ele recusou gentilmente, ao me dizer que como gay assumido não poderia compactuar da visão católica a respeito dos homossexuais. Aceitei tristemente sua recusa, mas louvei a lealdade aos seus princípios.
Roberval sempre me dizia que a Igreja Católica não era um clube, uma ong ou um partido político ao qual nos associamos. “Marcos, não sou obrigado a ser católico, mas se o desejasse porque não deveria cumprir suas regras, caso acreditasse na promessa que a igreja diz ser portadora?” Nunca vi uma defesa tão simples e enfática do compromisso com uma crença, nem entre meus amigos padres.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
Foto de capa:
Ilustração: Fernando Morato

