DARLAINE adorava chupar um pirulito e tomar banho na sequência. Sempre fui um homem limpinho e prezava por toalhas brancas no armário.
Da primeira vez que DARLAINE fez sua toillete em meu apartamento, dei-lhe uma toalha grande e felpuda que cobria todo seu corpo. Achei aquilo o máximo: uma gaúcha de um 1,50 embrulhada todinha após um oral. Isso me dava a confiança de que DARLAINE não era apenas minha anã, pequena em pé, mas gigante na posição canina. Ela me curava da cegueira da virtude, fazendo-me crer que meu equipamento não sofreria de obsolescência.
Sempre obedeci à mamãe, que proibia palavrões em casa. E era incapaz de competir com papai. Um homem bonito, tenor selvagem e goleiro memorável do Pardinho FC.
De modo que DARLAINE era minha sereia na travessia por esse vale de lágrimas. Por isso, da primeira vez que fui correndo recolher a toalha felpuda, assim que ela deixou o apartamento, notei algo estranho: aquela peça branquinha, cheirando ainda a lavanda, apresentava manchas escuras.
Quando criança, mamãe me colocava com minhas irmãs no banheiro e ordenava: “Lavem direito as dobrinhas. Depois, deixem a água escorrer do corpo para que a toalha sirva para enxugar vocês três.”
Nas outras vezes que DARLAINE me visitou, cumpri meu ritual das toalhas felpudas. Até que um dia me dei conta de que as nódoas escuras eram a tintura dos cabelos de minha sereia.
Papai comprava todo sábado para nós uma bandeja de doces da Panificadora Mário. Trazia sempre um mimo para mamãe (um jogo de xícaras… uma batedeira em suaves prestações), mas uma vez ele chegou muito tarde portando um pacote de linguiças e uns sacos alvejados, que serviriam de novas toalhas. Mamãe não gostou das linguiças por algum motivo. Lembro-me de cadeiras voando pela cozinha e de ver meu pai recolhendo aquele membro flácido que havia sido arremessado na porta.
Papai sempre dizia durante as brigas: “Sou o único que não tem razão nessa casa.” Enganava-se: eu também não tinha. Impressionava-me com que tenacidade repetia sempre os mesmos périplos: os doces sabáticos e os mimos esponsais.
DARLAINE continuou me visitando por mais um verão. Talvez, por seu complexo de nanismo, elogiava: “Nossa, meu bem, como ELE é grande.” Eu acreditava. Estranhou das últimas vezes o fato de lhe dar toalhas pequenas e coloridas. Sem que me perguntasse o motivo, adiantei-me: “DARLAINE, divido as mulheres entre aquelas que pintam e não pintam os cabelos.”
DARLAINE montou uma franquia de sucesso, a “Darlaine Dwarf’s”. Um salão de beleza masculino com uma proposta incrível: todas as pessoas com acondroplasia tinham prioridade na contratação. E cada funcionária ganhava no primeiro dia de trabalho uma toalha branca e felpuda.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
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