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Meu motoboy garanhão

“Seu gesto, obviamente, duvidava da minha macheza”

Cleverson olhou-me de soslaio e piscou. Empinou sua Yamaha 125 cc e disparou na tarde imensa. Foi a última vez que o vi.

Mentira.

Alguns meses depois, o encontrei por acaso no Café des Amigues. Ele devia estar fazendo entregas, pois trazia uns pacotes vistosos. Assim que me viu, abriu os botões da camisa na altura do peito e exibiu sua tatuagem grandona.  Seu gesto, obviamente, duvidava da minha macheza.

O Café des Amigues era o reduto da boêmia. Lá conheci o meu poeta preferido, Almíscar. Àquela altura, ele parecia com um envelhecido Tadzio, o personagem de Luchino Visconti. Meus bigodes ainda eram escuros como as asas da graúna. Almíscar dizia ouvir vozes másculas em seu apartamento. Eram suas musas que, soprando a fúria dos versos, rasgavam-lhe a alma.

Ah, o Café des Amigues e sua decoração impecável. O toilette masculino ostentava na porta uma foto gigante do poeta Bertolt Brecht; o feminino, a de Simone de Beauvoir. Foi lá que deflorei Samantha Bumbum Guloso, como seria apodada meses depois. Também foi lá que alisei, por engano, a tora do Pastor Epaminondas — um homenzinho atarracado, uma espécie de semianão, engravatado e calvo, também alcunhado pelas más línguas de “soca forte”.

Todas essas lembranças deixaram-me triste nesse declive espiritual. Almíscar é poeta famoso e imoral; perdoem-me: imortal.  Cleverson se casou; Samantha vive na Suíça, e o Café des Amigues é hoje uma foto na parede de minha quitinete.

E como dói.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.

Foto de capa:

Ilustração em preto e branco de uma pessoa vista de costas, usando vestuário escuro ajustado, posicionada na entrada de um estabelecimento com porta aberta, acima da qual está inscrito "CAFÉ DES AMIQUES" em letras maiúsculas, flanqueada por duas luminárias de parede e paredes laterais com padrão geométrico, em estilo de gravura ou desenho técnico.
28 jul 26

As Toalhas Felpudas de DARLAINE

“era minha sereia na travessia por esse vale de lágrimas”
Desenho em tinta preta sobre papel branco de uma criança com cabelo comprido e liso, rosto com olhos fechados e boca aberta com um objeto cilíndrico saindo dela, corpo coberto por padrão de linhas e texturas, membros inferiores finos, com data "VII.26" no canto inferior esquerdo, e um objeto com olhos desenhado no canto superior direito da folha.

24 jun 26

Deus não aposta com perdedores

Este mundo, irmãos, se divide entre a jogatina do bem e a do mal. Glória a Deus!
Deus não aposta com perdedores; artigo Marcos Lopes

26 maio 26

O Viado Sincerão

“Aceitei tristemente sua recusa, mas louvei a lealdade aos seus princípios.”
Ilustração de Fernando Moratto

22 abr 26

A Estudante de Meias Encardidas

 “Só se é trágico na juventude; na velhice, restam-nos risos e burlas”
A Estudante de Meias Encardidas; artigo Marcos Lopes

31 mar 26

O Mau Hálito do Professor Roberval

São Bernardo dizia que a fé começa pelo ouvido e o amor pela visão
O Mau Hálito do Professor Roberval, artigo Marcos Lopes

23 fev 26

A Prostituta XL

“... e beijava seus pés, e os ungia com o unguento”
A Prostituta XL (artigo Marcos Lopes)

22 jan 26

Mamãe não gosta dessas brincadeiras

Capivara me amou por alguns poemas precoces e outras jaculatórias ao pé do ouvido
Mamãe não gosta dessas brincadeiras

22 dez 25

Memórias de um Mulato sem Vergonha

“A ocasião não faz apenas o ladrão, mas também grandes homens.”
mulato cinco

25 nov 25

Chacrinha nos Estudos Ancestrais

"!Na noite passada, o Velho Guerreiro apareceu-me no espelho. Sua imagem tão vívida, apesar de fantasmagórica, comoveu-me!"
Chacrinha nos Estudos Ancestrais

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