Cleverson olhou-me de soslaio e piscou. Empinou sua Yamaha 125 cc e disparou na tarde imensa. Foi a última vez que o vi.
Mentira.
Alguns meses depois, o encontrei por acaso no Café des Amigues. Ele devia estar fazendo entregas, pois trazia uns pacotes vistosos. Assim que me viu, abriu os botões da camisa na altura do peito e exibiu sua tatuagem grandona. Seu gesto, obviamente, duvidava da minha macheza.
O Café des Amigues era o reduto da boêmia. Lá conheci o meu poeta preferido, Almíscar. Àquela altura, ele parecia com um envelhecido Tadzio, o personagem de Luchino Visconti. Meus bigodes ainda eram escuros como as asas da graúna. Almíscar dizia ouvir vozes másculas em seu apartamento. Eram suas musas que, soprando a fúria dos versos, rasgavam-lhe a alma.
Ah, o Café des Amigues e sua decoração impecável. O toilette masculino ostentava na porta uma foto gigante do poeta Bertolt Brecht; o feminino, a de Simone de Beauvoir. Foi lá que deflorei Samantha Bumbum Guloso, como seria apodada meses depois. Também foi lá que alisei, por engano, a tora do Pastor Epaminondas — um homenzinho atarracado, uma espécie de semianão, engravatado e calvo, também alcunhado pelas más línguas de “soca forte”.
Todas essas lembranças deixaram-me triste nesse declive espiritual. Almíscar é poeta famoso e imoral; perdoem-me: imortal. Cleverson se casou; Samantha vive na Suíça, e o Café des Amigues é hoje uma foto na parede de minha quitinete.
E como dói.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
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