Por que gosto tanto de Nelson Rodrigues? Eis uma pergunta que me fiz durante muito tempo. Como toda questão que diz respeito a preferências, é difícil de responder. Mas, passadas algumas décadas desde meu primeiro contato com suas crônicas, creio ter uma resposta verossímil.
Sempre fui um ávido leitor. Talvez minha infância sem irmãos e sem muitos brinquedos, a não ser uma bola, explique, parcialmente, meu interesse pela leitura. Lembro-me de minha mãe comentando que Deus havia escrito uma carta à humanidade. Lá fui eu, aos 10 anos, ler a Bíblia. Como poderia deixar de ler um texto escrito pelo próprio Deus? Não foi fácil. As passagens eruditas e, por vezes, obscuras da Sagrada Escritura forçaram-me a trazer o Aurélio a tiracolo [1]. Obviamente, não compreendi quase nada, mas o meu universo interior se expandiu proporcionalmente ao aumento do meu vocabulário [2]. Daí em diante, não me intimidei com os filósofos gregos, os padres da Igreja, os escritores russos, os franceses e, não menos importantes, os ingleses, cuja influência sobre mim é descomunal.
Involuntariamente, ou melhor, inadvertidamente, acabei formando um repertório literário razoável. Aos 17 ou 18 anos, devido à preparação para o vestibular, interrompi uma prática diária de leitura [3] e passei a me dedicar mais à matemática, à química, à física, enfim, às disciplinas exigidas pelas provas. Como sou de Manaus, prestei vestibular para a universidade federal de lá, que então se chamava UA, Universidade do Amazonas [4]. Não passei. Tirei zero na prova de redação, que era eliminatória. Um dia, contarei essa história em detalhes.
Mas já estou divagando. Volto ao tema. Já morando em Campinas, aluno de Matemática Aplicada e Computacional na Unicamp, retomei meu antigo hábito de leitura. Lia colunistas em jornais impressos e revistas. Mas alguma coisa havia mudado. Eu terminava certos textos e não sabia o que havia lido. Durante muito tempo, acreditei que fosse cansaço mental, pois fazer matemática exige um esforço que não se confessa em público sem parecer pretensioso.
O tempo passou. A internet surgiu, facilitando o acesso aos escritos, inclusive estrangeiros. Colei grau, fiz mestrado, casei-me, tive filhos, concluí o doutorado. Enfim, lá se foi mais uma década. E a mesma sensação incômoda continuava quando lia determinados artigos com os quais deparava: sobre o que mesmo falavam? Porém, com dois agravantes: o número deles havia aumentado consideravelmente, e não se limitavam ao português. Eu não estava cansado mentalmente. Tinha de haver alguma outra explicação.
Foi então que o livro de memórias de Nelson Rodrigues, A menina sem estrela, me caiu nas mãos. Logo nas primeiras páginas, levei um soco no estômago:
“Esse sinal não abre? Abriu. Lá vou eu, de roldão. Mas a Avenida, da Praça Mauá ao obelisco, está ressoante do berro imortal:
— A nova Prostituição do Brasil! A nova Prostituição do Brasil!
Um turista que por ali passasse havia de anotar no seu caderninho: ‘O Brasil acaba de promulgar a sua nova Prostituição.’ Para mim, era uma experiência inédita: pela primeira vez, via uma prostituição promovida como sabonete, Coca-Cola ou Grapete.” (A menina sem estrela, Nelson Rodrigues)
Promulgar a nova prostituição? Pois é. No decorrer da crônica, Nelson revela o equívoco auditivo: “Nova Constituição”.
Mais adiante, conclui:
“Tomando meu leite, faço as minhas reflexões de leiteria. Sem querer, e por causa de um engano acústico, eu descobrira o seguinte, dois-pontos: o que nos falta é o que chamaria de ‘espanto político’. Aqui, as coisas espantosas deixaram de espantar. Se um camelô brotasse de uma alucinação, invadisse a vida real e berrasse a ‘nova Prostituição do Brasil’ — ninguém cairia ferido de assombro.
Vejamos outra hipótese. Se baixassem um decreto mandando a gente andar de quatro — qual seria a nossa reação? Nenhuma. Exatamente: nenhuma. E ninguém se lembraria de perguntar, simplesmente perguntar: — ‘Por que andar de quatro?’ Muito pelo contrário. Cada um de nós trataria de espichar as orelhas, de alongar a cauda e ferrar o sapato.”
(A menina sem estrela, Nelson Rodrigues)
Ele escreve do passado, mas quem, em sã consciência, ousaria dizer que essa segunda passagem perdeu a atualidade? Ele fala de si. Fala de todos nós. O texto choca. Você pode concordar ou discordar dele, mas não pode sair ileso.
E foi aí que, de súbito, identifiquei o problema dos outros textos. Há um padrão. Vivemos, já há algum tempo, sob o jugo de crescente dissociação [5] e medo, a tal ponto que muitos autores se autocensuram: diluem o conteúdo de seus artigos até que não sobre (quase) nada. A frase já não afirma; insinua. A opinião já não se apresenta; comparece, como diria Nelson Rodrigues, anestesiada, com luvas e pedido antecipado de desculpas. A esses textos denomino “homeopáticos”.
Ninguém está imune ao Zeitgeist. Enquanto escrevo, sinto o seu espectro pairando sobre mim.
Que falta faz Nelson Rodrigues!
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
Referências
[1] Naquela época, graças a Deus, não havia a edição “Pastoral”.
[2] Ainda voltarei a escrever sobre a íntima relação entre o vocabulário e o universo interior.
[3] Digo: leitura de Literatura.
[4] Hoje, UFAM, Universidade Federal do Amazonas.
[5] Hesitei muito ao escolher essa palavra. Originalmente, pensei em “esvaziamento”, já que as palavras estão sendo privadas de seus sentidos. Mas a causa me parece mais profunda: o divórcio entre o Verbo e a Realidade. Um tipo de dissociação, rompimento ontológico. A corrupção da linguagem sempre precede a decadência de uma civilização.
Foto de capa:

