Grandes autores produzem obras imortais porque falam do universal. A frase é tão repetida que corre o risco de parecer senso comum. Mas nem por isso deixa de ser verdadeira! Não importa se falamos de Homero, Shakespeare, Machado ou Dostoiévski. Todos sobreviveram ao seu tempo porque conseguiram desvelar algo imutável da natureza humana.
Entretanto, foi lendo Nelson Rodrigues que percebi um aparente paradoxo: não existe nada mais universal do que o particular. Quem lê suas crônicas logo percebe que o anjo pornográfico fala, quase obsessivamente, dele mesmo. Mas não do Nelson que gostaria de exibir numa fotografia oficial. Não do Nelson virtuoso, inteligente, genial ou admirável. Ele fala do Nelson ridículo, vaidoso, mesquinho, inseguro, ressentido. Revela justamente aquilo que teria razões para esconder. E é exatamente por isso que funciona. Ao expor sem piedade suas próprias imperfeições, ele acaba expondo todos nós.
Reli o parágrafo acima e já estou insatisfeito. Não sei se consegui explicar a ideia com clareza. Talvez algumas percepções sejam mais fáceis de reconhecer do que de expressar. Paciência. Vou recorrer a um exemplo.
Na juventude, eu era de esquerda. Hoje essa afirmação exige explicações que não exigia nos anos 90. Naquela época, sobretudo dentro da universidade, ser “de esquerda” não era exatamente uma escolha original. Era quase o estado natural das coisas. Eu havia sido catequizado em ambientes profundamente influenciados pela Teologia da Libertação. Cresci ouvindo falar de justiça social, consciência política, compromisso com os pobres e transformação das estruturas. Não estou dizendo isso com ironia. Acreditei e continuo acreditando sinceramente nessas ideias. Em grande medida, elas moldaram minha cosmovisão.
Quando entrei na universidade, encontrei um ambiente que parecia confirmar tudo aquilo em que eu já acreditava. Participei do movimento estudantil durante anos. Fui representante discente, frequentei conselhos, reuniões e assembleias. Não estava ali por oportunismo. Não buscava cargos. Não imaginava exercer poder. Eu acreditava. E talvez esse seja o ponto mais importante da história.
Eu acreditava que o movimento estudantil existia para defender os estudantes. Acreditava que as disputas políticas tinham como objetivo melhorar a universidade. Acreditava que as divergências aconteciam porque pessoas honestas possuíam diferentes opiniões sobre os meios mais adequados para alcançar um bem comum. Em resumo, eu acreditava na mitologia do movimento.
Certamente havia algo de confortável naquela crença. Ela me permitia enxergar coerência onde talvez existisse apenas alinhamento ideológico. Permitia também que eu me sentisse participante de uma missão moralmente elevada. Não era apenas um estudante. Fazia parte de um projeto histórico. A juventude costuma ser generosa com esse tipo de ilusão.
Os anos 90 eram um período peculiar. O impeachment de Collor ainda estava fresco na memória nacional. A esquerda universitária vivia embalada por uma sensação de protagonismo político. Muitos acreditavam estar participando da construção de um país mais justo e mais democrático. Eu certamente acreditava. Por isso o episódio que vou narrar me marcou tanto.
Era uma reunião local de articulação estudantil. As principais lideranças estavam presentes. Discutíamos uma série de propostas que deveriam orientar a atuação do movimento nos meses seguintes. As sugestões surgiam uma após outra. Mais verbas. Mais benefícios. Mais estruturas. Mais exigências administrativas. Mais reivindicações de toda natureza.
A princípio ouvi tudo com atenção. Mas, à medida que a discussão avançava, minha mente matemática, treinada em encontrar contradições, começou a comparar as propostas. Algumas eram incompatíveis. Outras simplesmente anulavam umas às outras. Havia demandas que exigiam recursos inexistentes. Outras aumentariam significativamente os custos de funcionamento da universidade. Algumas dificultariam justamente os processos administrativos necessários para manter a instituição de ensino operando.
Lembro-me de pensar que aquilo não fazia sentido. Quanto mais eu refletia, mais me parecia que a implementação simultânea daquelas propostas produziria um efeito colateral: a universidade deixaria de funcionar adequadamente.
Continuei ouvindo. Esperei minha vez de falar. Quando finalmente recebi a palavra, formulei uma objeção que me pareceu perfeitamente razoável. Disse algo próximo disto: “Pessoal, se colocarmos tudo isso em prática, vamos inviabilizar a universidade. Nada vai funcionar.”
Eu realmente acreditava ter apontado um problema decisivo. Hoje percebo que minha observação continha uma premissa oculta: eu estava supondo que todos na sala desejavam que a universidade funcionasse. A resposta veio quase num sussurro. Não foi uma intervenção formal. Não foi um discurso inflamado. Foi apenas um comentário lateral de alguém sentado próximo às principais lideranças.
“E quem disse que era para funcionar?“
A reunião continuou. Mas eu não. Permaneci sentado ali, tentando entender o que acabara de ouvir.
Durante muitos anos contei essa história como o momento em que descobri o cinismo dos outros. Hoje, porém, acho que a verdade é um pouco mais desconfortável. A frase não revelou apenas algo sobre eles. Revelou algo sobre mim. Porque a realidade é que eu já conhecia as pautas. Já conhecia os discursos. Já conhecia os alinhamentos partidários. Sabia que grande parte do movimento estudantil atuava em sintonia com projetos políticos nacionais. Sabia que muitas reivindicações possuíam menos relação com a universidade do que com disputas ideológicas mais amplas.
Sabia de tudo isso. Mas preferia ignorar os desdobramentos práticos. Aquela frase tornou impossível continuar fingindo. Pela primeira vez compreendi que, para muitas pessoas naquela sala, a universidade não era exatamente o fim do movimento estudantil. Era o instrumento.
As propostas não precisavam necessariamente melhorar a instituição. Bastava que produzissem desgaste político. Bastava que ampliassem conflitos. Bastava que fortalecessem determinadas narrativas. O objetivo não era a universidade. A universidade era o campo de batalha.
O aspecto mais constrangedor dessa lembrança é que eu não estava observando aquela realidade de fora. Eu fazia parte dela. Também havia participado dos protestos. Também havia repetido as palavras de ordem. Também havia acreditado que determinadas bandeiras eram moralmente superiores por definição. Também havia confundido convicção ideológica com análise da realidade.
A diferença é que, naquele dia, ouvi alguém dizer em voz alta aquilo que todos pareciam compreender e que eu ainda tentava negar. Hoje percebo que a cena continua viva na memória porque ela não trata apenas de política estudantil. Nem dos anos 90. Nem tampouco da esquerda universitária. Ela fala de algo profundamente humano. Todos nós carregamos crenças que organizam nossa visão de mundo. Todos nós ignoramos certos fatos para preservar a coerência dessas crenças.
Contudo, a realidade, frequentemente, insinua-se por uma fresta inesperada. Uma conversa informal. Um evento casual. Uma frase pronunciada sem solenidade. Talvez seja exatamente isso que Nelson Rodrigues compreendeu tão bem. O universal raramente aparece vestido de si mesmo. Quase sempre surge disfarçado numa situação particular banal. Eis aí o segredo de suas crônicas.
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