O que é Inteligência?
A pergunta parece simples, mas talvez o seja apenas na aparência. Hoje usamos a palavra com enorme desenvoltura, como se seu significado fosse óbvio. Falamos em pessoas inteligentes, aparelhos inteligentes, sistemas inteligentes, cidades inteligentes, armas inteligentes. O adjetivo se espalhou tanto que já quase não exige explicação. E esse é o problema: quanto mais facilmente uma palavra circula, maior a chance de que tenha começado a perder seu contorno.
Quando se fala em inteligência artificial, por exemplo, quase sempre se salta diretamente à questão de saber se a máquina é ou não inteligente. Mas essa pergunta já pressupõe outra, muito mais fundamental: o que é Inteligência? Antes de decidir se uma máquina a possui, seria prudente definir de que coisa estamos falando.
Alan Turing (1912-1954), cuja autoridade costuma ser invocada nesses debates, foi mais cauteloso do que muitos dos seus herdeiros intelectuais. Em seu famoso artigo de 1950, ele não ousou definir “pensar”. Fez outra coisa. Substituiu a pergunta original por uma versão mais operacional. Em vez de perguntar se máquinas pensam, perguntou se um computador digital seria capaz de se passar por humano em um jogo de perguntas e respostas por escrito. A manobra foi engenhosa. Mas foi, ainda assim, uma manobra. O problema não foi resolvido; foi contornado.
Esse desvio é revelador. Ele mostra como nossa época tende a proceder quando perde segurança sobre a essência das coisas. Em vez de perguntar o que algo é, pergunta-se o que faz. Em vez de buscar a natureza de uma faculdade, examinam-se seus efeitos aparentes. O que importa já não é o Ser, mas o desempenho. E assim a Inteligência vai deixando de ser aquilo que a mente é para tornar-se aquilo que ela consegue exibir.
Mas nem sempre se pensou assim!
Houve uma época em que Inteligência não significava, primariamente, rapidez de raciocínio, eficiência na resolução de problemas ou habilidade em manipular símbolos. Na tradição clássica, e de modo muito particular na tomista, a Inteligência dizia respeito antes de tudo à Verdade. O intelecto humano era entendido como a potência pela qual o homem apreende o verdadeiro. A razão, por sua vez, era o movimento discursivo pelo qual a mente passa de uma coisa conhecida a outra. A distinção é importante. A razão caminha; o intelecto vê. A razão discorre; o intelecto apreende. A razão busca; o intelecto alcança.
Se isso for esquecido, tudo o mais se embaralha. Pois, nesse quadro, a Inteligência não é simplesmente a capacidade de raciocinar bem. O raciocínio tem sua dignidade, sem dúvida. Mas ele não é o termo último da Inteligência. É seu instrumento discursivo. O ponto decisivo é outro: a Inteligência é, em seu sentido mais alto, a capacidade de enxergar a Verdade.
Essa formulação soa quase estranha aos ouvidos modernos. E não é difícil entender por quê. A própria palavra “verdade” perdeu centralidade entre nós. Não desapareceu, evidentemente, mas foi se tornando desconfortável. Hoje parece mais elegante dizer que “cada um tem a sua verdade”. A frase se tornou lugar-comum. E, no entanto, ela é intelectualmente devastadora. Pois, se cada um tem a sua, então a Verdade deixa de ser aquilo ao qual a Inteligência deve se conformar, e passa a ser apenas uma experiência subjetiva, uma perspectiva privada, uma construção psicológica. A Verdade deixa de medir o intelecto. O intelecto passa a produzir “verdades”.
Uma vez feita essa inversão, a própria ideia de Inteligência se altera. Ela já não é vista como ordenação ao verdadeiro, mas como capacidade operacional. Inteligente passa a ser quem responde rápido, quem calcula bem, quem argumenta com agilidade, quem encontra soluções eficazes, quem processa muitas informações, quem exibe performance elevada. A palavra vai sendo arrastada do plano da Verdade para o plano da eficiência. E esse deslocamento semântico acaba produzindo efeitos filosóficos muito concretos.
Considere-se, por exemplo, o caso extremo dos chamados idiot savants, uma condição hoje apropriadamente designada pela expressão mais neutra savant syndrome. O fenômeno é conhecido: pessoas, muitas vezes dentro do espectro autista, revelam capacidades extraordinárias em domínios muito delimitados: memória prodigiosa, cálculo de datas, reprodução musical após uma única audição, rapidez numérica, desenho minucioso. Tais habilidades são reais, às vezes espantosas, e merecem admiração. Mas merecem, sem mais, o nome de Inteligência? A resposta depende, outra vez, do que se entende pela palavra. Se Inteligência for simplesmente desempenho excepcional em alguma operação mental, então a resposta será afirmativa. Mas, se Inteligência for a capacidade de enxergar a Verdade, a questão se torna muito menos trivial.
Pois memória não é o mesmo que juízo. Cálculo não é o mesmo que compreensão. Reprodução fiel não é o mesmo que apreensão do sentido. Uma capacidade particular pode atingir grau extraordinário sem que disso se siga uma Inteligência plena. Pode haver excelência localizada sem visão do todo. Pode haver brilho sem luz suficiente. Pode haver, por assim dizer, um esplendor da faculdade e ao mesmo tempo uma limitação profunda quanto à apreensão do Real.
É justamente aqui que o uso moderno da palavra “inteligência” começa a mostrar suas insuficiências. Se chamamos de inteligente tudo aquilo que impressiona cognitivamente, cedo ou tarde perderemos a capacidade de distinguir entre habilidade e sabedoria, entre raciocínio e juízo, entre agilidade mental e Inteligência propriamente dita. E, uma vez perdida essa distinção, o resultado se torna visível no cotidiano. Pessoas universalmente tidas por inteligentes passam a fazer coisas evidentemente burras. Não se trata de um paradoxo insolúvel. Trata-se apenas do choque entre dois sentidos diferentes da palavra.
No uso corrente, alguém é chamado inteligente porque raciocina rapidamente, domina abstrações, tem boa memória, passa em provas difíceis, fala bem, argumenta melhor que a média. Tudo isso pode ser verdadeiro. Mas nenhuma dessas coisas, tomada isoladamente, basta para definir a Inteligência no seu sentido mais alto. Uma pessoa pode ser muito capaz nas operações discursivas da razão e, ainda assim, muito deficiente no juízo do Real. Pode ser veloz para inferir e lenta para ver. Pode ser brilhante em estruturas formais e cega para a Verdade mais próxima.
A sabedoria popular percebe isso melhor do que certos discursos eruditos. “Como alguém tão inteligente pode fazer uma coisa tão burra?” A pergunta é excelente. E a resposta talvez seja esta: porque aquilo que hoje chamamos de Inteligência frequentemente não passa de uma parte dela. Chamamos de Inteligência o que, no máximo, seria agilidade racional. Chamamos de Inteligência o que talvez fosse melhor chamar de habilidade discursiva. Chamamos de Inteligência aquilo que, na tradição tomista, seria apenas um aspecto da operação racional, e não seu fim mais alto.
O mesmo vale para as máquinas. A expressão “inteligência artificial” parece natural apenas porque o conceito de Inteligência já foi previamente reduzido. Se Inteligência significar a capacidade de manipular símbolos com eficiência, reconhecer padrões, gerar respostas plausíveis e resolver tarefas delimitadas, então realmente não há grande dificuldade em aplicar o termo às máquinas. Mas convém perceber o preço dessa naturalidade. Ela não foi conquistada porque elevamos as máquinas até o conceito clássico de Inteligência. Foi conquistada porque rebaixamos a Inteligência até um nível funcional compatível com o desempenho das máquinas.
Nesse sentido, a máquina é menos uma novidade metafísica do que um espelho semântico. Ela nos mostra o que fizemos com a palavra “inteligência”. Se já não exigimos dela nenhuma relação intrínseca com a Verdade, se já não a entendemos como capacidade de apreensão do Real, se nos basta a competência operacional, então realmente se torna fácil falar em inteligência artificial. Mas isso diz menos sobre a máquina do que sobre a nossa decadência conceitual. Porque uma máquina pode calcular sem compreender, responder sem julgar, correlacionar sem conhecer, imitar sem enxergar. E, no entanto, será chamada de inteligente numa época em que muitos homens também o são apenas por razões igualmente empobrecidas.
Talvez, portanto, a solução do problema esteja em recuperar uma distinção antiga e muito sensata. A razão tem seu lugar. O cálculo tem seu lugar. A memória tem seu lugar. A habilidade técnica tem seu lugar. Mas a Inteligência, em seu sentido mais alto, não se esgota em nenhuma dessas coisas. Seu critério mais próprio continua sendo a relação com a Verdade.
Isso não significa exigir infalibilidade dos homens. Seria absurdo. A Inteligência humana é finita, falível, sujeita a erro, ilusão, paixão, ignorância e fraqueza. Mas uma coisa é reconhecer suas limitações; outra é redefini-la de maneira tão pobre que qualquer simulação funcional passe a merecer o mesmo nome.
Talvez fosse melhor, então, conservar os conceitos de Inteligência e de Verdade tal como os tomistas os entendiam. Não por espírito arqueológico, nem por apego escolar a fórmulas antigas, mas por simples precisão. Se Inteligência é a capacidade de enxergar a Verdade, muita coisa hoje chamada de inteligente terá de ser renomeada. Certas pessoas continuarão admiráveis, mas por razões mais específicas. Certas máquinas continuarão úteis, mas sem usurpar predicados humanos em sentido forte. E certos paradoxos desaparecerão por si mesmos.
Pois o problema nunca esteve no fato de existirem pessoas supostamente inteligentes fazendo burrices. O problema está em que já não sabemos, com suficiente clareza, o que quer dizer Inteligência. Talvez, no fim das contas, tenhamos trocado a capacidade de enxergar a Verdade pela capacidade de impressionar. E depois passamos a chamar isso de Inteligência.
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