Cresci ouvindo falar da “explosão demográfica”. No horizonte, pairava o temor de que o número de seres humanos no planeta alcançasse um patamar insustentável. Não haveria alimento para todos, diziam, e muitos pereceriam de fome. Era uma forma de malthusianismo; mas, nas décadas de 1980 e 1990, poucos ousavam questionar essas projeções. O êxodo rural criava megacidades ao redor do mundo. Aqui no Brasil, São Paulo era um bom exemplo. Bastava sair à rua para se convencer do problema.
A China, por exemplo, criou a política estatal do “filho único”. Naquele país, por lei, um casal só poderia ter um descendente. A justificativa era a suposta inviabilidade de um crescimento orgânico em uma nação que já possuía 1 bilhão de habitantes. No Ocidente, nenhuma política oficial semelhante foi adotada, mas um fenômeno parecido ocorreu por outros meios: a taxa de natalidade declinou para níveis abaixo da reposição [1].
Como explicar tais fenômenos? Não me atrevo a propor uma explicação definitiva. Mas, seja ela qual for, a mudança cultural certamente está entre as causas. E essa mudança não se limita ao número de filhos. Ela revela uma transformação mais profunda: a maneira como uma geração enxerga sua responsabilidade diante das anteriores e das futuras.
É impossível, aqui, não relembrar Burke (1729 – 1797), que observou: “A sociedade é, de fato, um contrato. […] Ela se torna uma parceria não apenas entre aqueles que estão vivos, mas entre aqueles que estão vivos, aqueles que estão mortos e aqueles que ainda hão de nascer” [2].
G. K. Chesterton (1874 – 1936), sempre provocativo, emendou: “Assim como uma geração poderia impedir a própria existência da geração seguinte, entrando todos para um mosteiro ou lançando-se ao mar, também um grupo de pensadores pode, em certa medida, impedir o pensamento futuro ensinando à geração seguinte que não há validade em nenhum pensamento humano” [3].
O grande polemista britânico exagerou ao sugerir voto de celibato ou suicídio coletivo. A mudança cultural do século XX produziria uma forma mais simples, mais silenciosa e mais eficaz de uma geração impedir o nascimento da próxima: escolher não ter filhos.
A sociedade é mesmo um pacto entre os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram. Quando esse pacto se enfraquece, a crise deixa de ser apenas demográfica. Ela se torna econômica, cultural e civilizacional. E é precisamente nesse ponto que o problema demográfico encontra o problema urbano.
A cidade moderna não apenas concentrou pessoas. Concentrou expectativas, empregos, consumo, serviços e modos de vida. A cidade tornou-se o endereço privilegiado da promessa moderna. Mas toda promessa depende de um substrato. Se esse substrato for abalado, o fluxo migratório pode se inverter.
É aqui que o título deste artigo começa a aparecer.
Hoje, diante de uma provável “implosão demográfica” [4], o exato oposto do que se previa, reflito sobre mais um risco: a Inteligência Artificial.
Mas calma. Não falo de uma guerra entre a Humanidade e as máquinas ditas “inteligentes”, à maneira de O Exterminador do Futuro. Não. Minha preocupação é de outra natureza. E, como sempre procuro paralelos na História, essa ameaça também não é inteiramente nova, confirmando o rei Salomão, que afirmou: “nada há de novo debaixo do sol” [5].
Para entender por que a situação atual é diferente, convém olhar para as revoluções tecnológicas anteriores.
Faz pouco mais de três séculos que surgiu a máquina a vapor e, com ela, o medo de que milhares de seres humanos ficassem sem trabalho. A mudança, entretanto, foi gradual e extremamente lenta, o que viabilizou a adaptação. Muitos empregos foram eliminados; outros tantos foram criados.
Depois veio a revolução embalada pela eletricidade. Outra repetição: medo, adaptação, eliminação e criação de empregos. Mais recentemente, no século XX, o surgimento dos computadores e a consequente automatização de vários processos reviveram o mesmo padrão.
Nesses três exemplos, há semelhanças importantes. A maioria dos empregos eliminados envolvia força bruta, trabalho manual ou tarefas repetitivas. Houve tempo considerável para absorver as transformações. E novos trabalhos surgiram. Esta última característica, entretanto, produziu um efeito colateral decisivo: o chamado “êxodo rural”. Pois a maioria dos “novos” ofícios tinha um endereço: a cidade.
Segundo o Banco Mundial, em 2024, 82% da população dos “países de alta renda” vivia nas cidades. A média mundial era de 58%. Ou seja: as revoluções anteriores não apenas destruíram ocupações antigas; elas deslocaram populações inteiras para o ambiente onde os novos empregos estavam. A cidade foi a grande beneficiária dessas transformações.
Mas os novos ofícios tinham um atributo sui generis: em sua maioria, eram intelectuais. Eram trabalhos que nem mesmo os computadores podiam executar, ou que seriam caros demais para automatizar. A cidade moderna, entretanto, não se sustentou apenas pela indústria ou pelo comércio. Ela se tornou o grande centro das funções especializadas: administração, finanças, educação, tecnologia, saúde, comunicação, cultura e serviços. Em outras palavras, concentrou não só pessoas, mas competências. E muitas dessas competências eram intelectuais, ou ao menos dependiam de uma forma de trabalho que os computadores ainda não podiam substituir.
Agora, imagine um cenário em que uma nova tecnologia pudesse atingir justamente esse domínio. Não o braço, mas o juízo [6]. Não apenas a tarefa repetitiva, mas a análise, a redação, o planejamento, o diagnóstico, a programação, a decisão assistida. Pois é. A Inteligência Artificial é a materialização desse cenário.
O CEO da Anthropic, Dario Amodei, escreveu um longo artigo alertando para esse risco iminente [7]. A diferença, desta vez, é que a transição poderá ser abrupta. E os empregos ameaçados são aqueles que, até aqui, pareciam exclusivos de seres humanos.
A questão decisiva, portanto, não é apenas se a Inteligência Artificial eliminará empregos. A questão é mais grave: e se ela eliminar justamente os empregos que justificam economicamente a permanência de milhões, talvez bilhões, de pessoas nas cidades?
E aqui faço uma pausa.
Para boa parte da ficção científica moderna, sobretudo aquela que moldou nosso imaginário visual, o futuro foi urbano. Cidades modernas com veículos voadores, luzes por todos os lados, telas em toda parte e uma vida aparentemente inesgotável. Máquinas inteligentes, robôs indistinguíveis de seres humanos e cyborgs compondo a paisagem, como diria Nelson Rodrigues.
Tudo, obviamente, acompanhado das mazelas causadas pela hiperpopulação e pelos transtornos, também fictícios, da tecnologia do futuro. Nossos melhores ficcionistas imaginaram esse futuro. Assim como, nas décadas passadas, imaginávamos o colapso da Humanidade devido à explosão demográfica.
Algumas ficções, é verdade, imaginaram futuros menos urbanos e mais próximos da terra, de Duna a Always Coming Home. Mas elas foram exceção. O imaginário dominante da modernidade projetou o futuro como cidade: vertical, luminosa, artificial e superpovoada.
E se justamente esse imaginário estiver errado?
Se milhões ou bilhões de empregos forem eliminados, comprimidos ou radicalmente desvalorizados em pouco tempo, a vida nas cidades poderá se tornar inviável para uma parcela imensa da população. Sem renda, muitos não terão nem abrigo nem alimento. E esse contingente incalculável de pessoas poderá ser empurrado de volta para o campo, não em busca de melhores condições de vida, como no passado recente, mas simplesmente para cultivar a terra e criar animais para a própria sobrevivência.
Paradoxalmente, a revolução da Inteligência Artificial poderá inaugurar uma nova fase rural para parte significativa da Humanidade.
O homem urbano afastou-se demasiadamente da Natureza, ou melhor, de sua Natureza. A vida nas megacidades reduziu-o a uma engrenagem na complexa “máquina” social. O suposto conforto proporcionado pelas metrópoles entorpeceu sua alma mais que o ópio. Talvez o retorno ao campo [8] não seja apenas uma derrota econômica, mas a recuperação involuntária de dimensões humanas há muito esquecidas.
Não se trata de romantizar a enxada. Tampouco de fantasiar uma Arcádia tecnológica. Trata-se apenas de reconhecer uma ironia histórica: a mesma modernidade que arrancou o homem da terra pode, por meio de sua mais sofisticada invenção, empurrá-lo de volta para ela.
Será o futuro mais surpreendente do que aquele que nossas melhores ficções imaginaram?
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] Segundo os demógrafos, essa taxa seria de 2,1.
[2] Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, 1790.
[3] G. K. Chesterton, Orthodoxy, chapter III, “The Suicide of Thought”. Ainda voltarei a essa analogia, mas pelo lado do suicídio intelectual.
[4] Segundo, mais uma vez, os demógrafos, as taxas observadas na maioria dos países ocidentais são irreversíveis. E mesmo a China está preocupada com o “sucesso” de sua política do “filho único”.
[5] Ecl 1,9.
[6] Perdoem-me o antropomorfismo retórico.
[7] https://www.darioamodei.com/essay/the-adolescence-of-technology
[8] Não se trata de Arcadismo.
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