Abro a porta do Departamento de Engenharia de Processos (DEPro), e dou de cara com um ipê amarelo. Ipês me fascinam, pois, além de sua exuberância, conduzem-me a uma época em que, criança, costumava misturar os perfumes da penteadeira de minha irmã e, disso, um rastro de lembrança pede passagem à escrita: acende um incenso da resina de sândalo ou da flor de magnólia. Respiro fundo, profundo, resgatando, já de outra fase da vida, o que é precioso à memória para escrever: a sua face é um jardim de ervas perfumadas. Paráfrase do Cântico dos cânticos, creditado a Salomão, que o dedicou à Sulamita, esse poema desfila aromas e fragrâncias, tais como os das flores de nardo, açafrão, mirra e aloés. Não se sabe ao certo quando foi concebido, mas é uma herança milenar em louvor à paixão, que se espalhou através dos séculos, cujo perfume não encontra amparo apenas no Velho Testamento.
No romance A carne, publicado em 1888, Júlio Ribeiro descreve a ida de Lenita a um banho de rio, por entre os perfumes da mata. Não se pode esquecer que o aroma se faz presente no título de uma das obras mais conhecidas de Jorge Amado, publicada em 1958, Gabriela, cravo e canela. No clássico O perfume, história de um assassino, de 1985, Patrick Süskind oferece-nos uma história sobre a busca da fragrância universal por Jean-Baptiste Grenouille, nem que fosse necessário extraí-la de suas vítimas. Tais obras literárias serviram de base a roteiros cinematográficos: A carne, dirigido por José Marreco, lançado em 1975; Gabriela, de Bruno Barreto, em 1983; Perfume, história de um assassino, de 2006, dirigido por Tom Tykwer. Um elemento em comum em tais manifestações artísticas é o olfato enquanto receptáculo da sedução, e o amor como nota de fundo, que também estão presentes no longa de 2025 dirigido por Luc Besson, Drácula: uma história de amor eterno. Neste filme, há uma cena em que o conde entra em um salão com um pequeno frasco de perfume, que difunde uma fragrância pelo ambiente, entorpecendo jugulares, em muito remetendo ao final da película de Tykwer, no qual Grenouille inebria e enlouquece toda uma vila por meio do olfato, eternizando instantes então esquecidos, descortinando a fumaça que embaça antigas emoções.
Não por acaso a palavra perfume vem do latim per fumum, significando através da fumaça, termo que se originou na longínqua tradição de queima de plantas aromáticas, cuja fumaça providenciava o contato com o divino. Seriam, por isso, plantas abençoadas, bem como o seu óleo essencial? Paracelsus, no século XVI, percebeu a quinta essentia oriunda da fragrância de líquido resultante de destilação a partir de plantas aromáticas. Essa quintessência ou alma da planta nos remete a óleos essenciais, compostos complexos de substâncias voláteis, originários do metabolismo secundário das plantas, sendo extraído de flores, folhas e ramos. Dentre as técnicas para obtenção desses óleos, está a destilação por arraste de vapor de água, na qual a biomassa é acondicionada em um compartimento sobre o nível da água, esta evapora e percola a matriz vegetal, carreando a mistura de vapor e voláteis a um condensador para, em seguida, separar o óleo da água por decantação desta última. Além dos óleos essenciais, constituintes de perfumes também estão presentes em extratos vegetais, sendo obtidos por, entre outros métodos, enfleurage, extração por solventes e por fluidos supercríticos. E o Brasil é uma fonte inesgotável de extratos e óleos essenciais, contidos em espécies vegetais distribuídas no seu vasto território. Em 2023, o país exportou US$ 476,6 milhões em óleos essenciais, configurando-se 3º maior exportador mundial. Nesse contexto, os extratos e óleos essenciais, além de consistirem em matérias-primas para cosméticos e perfumes, são um grupo relevante para as indústrias química, farmacêutica e de alimentos. Contudo, os custos de produção são elevados, e a busca quase insana pela riqueza econômica, em que se dizimam florestas em troca de monoculturas e pastagens, ameaça espécies nativas, expondo-as à extinção. Como exemplo, pode-se citar o caso do safrol, precursor de diversos compostos químicos, incluindo a heliotropina, importante fixador de fragrâncias.
O Brasil, no final da década de 1980, era o principal produtor mundial de safrol, presente majoritariamente no extrato da canela de sassafrás, encontrada no bioma Atlântico, em particular no vale do rio Itajaí-Açú, Santa Catarina. O risco de extinção da canela de sassafrás fez com que, no clarear dos anos 1990, o país, em um piscar de olhos, passasse de exportador para importador de seu extrato. No final do século XX, técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) identificaram que o óleo essencial das folhas de pimenta-longa, nativa do bioma Amazônico, era (e é) rico em safrol, indicando que a sua produção poderia ser explorada, todavia a iniciativa não tomou a dimensão que se esperava. Pode-se citar, em complemento, a madeira do pau-rosa, laurácea amazônica, cujas árvores estavam em risco de extinção nas primeiras décadas do século XXI, tendo em vista a exploração desmedida. O pau-rosa, registre-se, fornece um substrato central para o icônico Chanel nº 5. É fundamental, portanto, que se encontrem alternativas científicas e tecnológicas quanto à exploração de extratos vegetais e óleos essenciais, a começar por um cultivo sustentável de suas matérias-primas por agricultores de baixa renda, com adição de tecnologia simples e de baixo custo, que lhes permita obter produtos de qualidade, agregando renda às suas famílias. Cabe ao profissional de tecnologia contextualizar a sua ação técnica com elementos culturais e sociais, a ponto de retomar a sua memória olfativa. Quanto à minha? Fecho a porta do DEPro e abro a de minha sala, que abriga uma estante com vários frascos de óleos essenciais. Recebo visitas. Uns sentem a sutileza de uma fragrância herbal, outros contradizem, dizendo-a almiscarada. Abaixo a cabeça e recolho o sorriso. A sedução está completa.
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