Chamo-me Maria. Tenho noventa e um, corpinho de oitenta e sete. Serelepe, sou dada a firulas, pois maldadezinhas do bem não fazem mal a ninguém. Sempre cozinhei, a ponto de a cozinha ser o centro do universo. Não estou me referindo às pessoas, longe disso. Um centro tanto geográfico quanto de pensamento.
Nesta mesa, além de preparar a massa para uma infinidade de quitutes, li e muito, pois ser cozinheira transcendeu a minha profissão, que não vem ao caso revelá-la. Tome-me, por favor, como uma simples cozinheira. Porém, revelo sobre algo em que me debrucei por décadas: a vida.
Tê-la na visão de Tomás de Aquino enquanto criação, ou de Nietzsche, como vontade de potência a partir da competição entre autoperpetuação e autointensificação, e mesmo como seleção de replicadores como quer o neodarwinismo. Que a vida esteja associada aos prazeres, feito um arroz bem feito, ou as mazelas da existência, respondidas no excesso de sal, vindo de uma lágrima a cair desavisada em uma salada à provençal.
A vida: insuflada na matéria ou abordada em experimentos de biologia.
A sua discussão vai além da teoria de sistemas complexos, para tê-la neste e naquele tempero para, simplesmente, saboreá-la. Há quem recuse considerar filosóficas as questões cujas respostas possam ser dadas por divagações de cozinheira, mas quem poderá mais bem cozê-las, enquanto o aroma de alecrim nos sublima?
Hoje é o primeiro dia do ano. São quatro da manhã e propus a preparar quatro receitas, que me conduzem à manutenção intrínseca do corpo e à fluidez da alma.
Bolo de fubá para o café da manhã: 500 gramas de fubá moído na pedra e peneirado; 02 colheres de sopa (bem) cheia de manteiga. Umedeço o fubá. Levo a manteiga ao fogo e, assim que ferver, junto-a ao fubá úmido em uma panela. Misturo e tampo por 30 minutos. Mexo de vez em quando para soltar os grumos.
Depois, acrescento 01 colher de café de canela em pó; 03 colheres de sopa de rapadura picada. Ponho queijo meia cura ralado a gosto. Mexo até derreter, e sirvo com café docinho, para adoçar o resto do dia.
Preparo o bolo de fubá para a infância de meus bisnetos, que coincide com a primavera de suas vidas.
Que as portas lhe sejam abertas desde o nascimento, e que a tristeza não encontre refúgio em seus olhinhos. Feijoada Pernambucana para o almoço: 500 gramas de feijão-de-corda; 500 gramas de charque; óleo de girassol; 02 folhas de louro; 500 gramas de lombo de porco; 500 gramas de linguiça calabresa; 02 paios; 500 gramas de abóbora; 06 tomates sem pele e sem semente. Lavo e fervo o charque umas duas vezes antes de adicioná-lo ao feijão.
Ah, o molho: 01 concha de caldo de feijão; ½ cebola picada; 02 colheres de sopa de cheiro verde picado; 01 colher de sopa de coentro; 03 pimentas de cheiro; 01 cálice de cachaça, claro. Sirvo com arroz branco e farinha de mandioca crua.
Preparo a feijoada para a adolescência de meus netos, coincidente ao verão de suas vidas. Que brilhem, sonhem com jardins que terão pelo caminho, aprendendo com as flores e espinhos. Revoltem-se, apaixonem-se, entendendo, todavia, que a resiliência se adquire às duras penas.
Para o desjejum da tarde, um chá especial: cascas de laranja e de maracujá; cravo e canela. Espero a água aquecer e adiciono os ingredientes. Não deixo a água ferver, não. Tem, hum, a rosca da Páscoa: 50 gramas de fermento; 100 gramas de farinha de trigo; um pouco de água. Faço a esponja e deixo descansar por 15 minutos. Junto 100 gramas de manteiga; 100 gramas de açúcar; 04 gemas de ovos; pitada de sal; raspas de 01 laranja; suco de 01 laranja ou essência de laranja, o que tiver por perto. Vou misturando bem, e acrescentando, aos poucos, 500 gramas de farinha de trigo; 01 copo de água ou de suco de laranja; 150 gramas de chocolate amargo.
Sovo bem a massa e a deixo crescer. Corto a massa ao meio, e abro uma das partes e a polvilho com canela em pó. Espalho 150 gramas de chocolate; 50 gramas de nozes; 50 gramas de frutas cristalizadas. Enrolo como um rocambole.
Faço, ao lado, uns bastõezinhos, quais cobrinhas, para enfeite. Pincelo tudo com a gema. Levo ao fogo a 200 oC por volta de 20 minutos. Depois de assada, polvilho a rosca com açúcar de confeiteiro. Provoco os convidados com o Doce Espera Marido: 01 litro de leite; 03 copos de açúcar; 02 claras em neve e junto com 04 gemas. Levo ao fogo brando e nem preciso mexer.
Preparo o café da tarde para a maturidade de meus filhos, vinda com o outono de suas vidas. Que as suas desventuras e conquistas não sejam apenas daquelas das folhas caídas, e que a esperança, pendurada na árvore da vida, lhes traga conforto para continuarem firmes diante das vicissitudes inerentes ao puro fato de existir. Sopa de cebola para o jantar. Simples: 01 colher de sopa de manteiga; 03 cebolas picadas. Tempero, refogo e douro.
Enquanto isso apronto 1½ litro de caldo de carne, escolhendo músculo bem firme para tanto. Adiciono o refogado ao caldo e deixo cozinhar por três minutos. Antes de servir, provo o sal e enfeito as bordas do prato com salsinha. Sirvo a sopa com torradas.
Não me esqueço do coquetel de abacaxi para encerrar o dia: 01 xícara de chá de Martini branco; 01 lata de leite condensado; 02 xícaras de chá de rum; 02 xícaras de chá de abacaxi picado em caldas; ½ xícara de chá de gin; 03 colheres de sopa de caldo de limão; gelo picado. Preparo a sopa de cebola para a velhice de meu companheiro, mas ele não está mais aqui. Estou só e a sopa é para mim, feita no inverno de nossas experiências.
Então, brindo o que vivemos com uma taça de coquetel. Que as lágrimas derramadas quando das cebolas descascadas sejam devido à irritação dos olhos, e que o frio que sinto é por conta da idade, nada mais, pois, após o inverno, estou certa da primavera que se renova em bolos de fubá.
Sou a Maria, mãe do cronista que escreveu este texto sem me consultar. Nunca fui boa cozinheira, mas uma leitora contumaz. Tenho, sim, noventa e um e, confesso, corpinho de oitenta e três.
O Marco é meio doidinho e puxou a mim.
FOTO DE CAPA

