Michelangelo Buonarroti estampou a passagem entre o divino e o humano num afresco no teto da Capela Sistina, no Vaticano. Ligação traduzida num rasgo de espaço entre os dedos do ser humano, representado por Adão, e os de seu Criador. Há versões de que a imagem a envolver Deus remete à forma de um cérebro. Adão, por sua vez, está entregue ao torpor, estendendo male má o braço esquerdo, e, de indicador indolente, espera um toque sublime para despertá-lo à própria consciência.
Outros enxergam nela um útero, no qual o quase toque traduz a iminência do nascimento da humanidade. Seja o que for, sempre guardei essa imagem, encomendada pelo papa Júlio II, análoga ao estreito de Bering. Isso mesmo. Observem o mapa-múndi: um canal com cerca de 90 km que liga os oceanos Ártico, por parte do mar de Chukchi, e Pacífico, através do mar de Bering. Esses quilômetros nada são em escala planetária, fazendo com que Ásia e Américas quase se toquem. Há hipótese que advoga esse estreito enquanto ponte de migração humana para o que é agora o Alasca e daí continente abaixo.
Diferentemente dos querubins ao redor de Deus na Capela Sistina, um personagem que habita os mares de Chucki e Bering é o Odobenus rosmarus divergens, conhecido como morsa do Pacífico. Um bicho grandão e bigodudo com bem mais de uma tonelada, que sobrevive naquele ambiente gelado à base de moluscos e patinhos. Eita. Não existem patinhos no estreito de Bering, nem enquanto sinapse sistina. Pois bem, a imaginação que nos permite o devaneio logo nos traz um patinho de borracha, amarelinho, encravado em uma das longas presas de uma morsa, cujos urros não delatam a presença de um urso polar, mas clamam por um dentista-veterinário. Ok, pode não ser patinho, mas uma tartaruga, castor ou um sapo de borracha feito cárie naquele dente colossal.
Se o delírio tem seu limite, isso não se pode afirmar quanto ao destino de bichinhos produzidos em fábricas chinesas e destinados a boiarem em banheiras estadunidenses. Tais brinquedos sensoriais foram parar no estreito de Bering, entre 1995 e 1996, devido ao acidente com um navio cargueiro em rota de Hong Kong para os Estados Unidos, ocorrido em janeiro de 1992. Em decorrência de uma tormenta, foi lançado no Pacífico Norte um contêiner contendo 7.200 caixas. O efeito das ondas pode ter rompido os lacres daquele cofre de transporte e separado os mimos das caixas de papelão, lançando, à mercê das águas salgadas, 7.200 tartarugas azuis, 7.200 sapos verdes, 7.200 castores vermelhos e 7.200 patinhos amarelos. 28.800 peças de borracha à deriva no oceano. Foram atraídas por corrente oceânica nas proximidades do giro subtropical do Pacífico Norte. No ano seguinte, foram encontrados patinhos no Japão, e vários deles tomaram a corrente de Alasca/Aleutas, aportando tanto no Alasca quanto na costa canadense. Outros ficaram à sorte entre a Califórnia e o Havaí, na Grande Mancha de Lixo do Pacífico, caracterizado por uma espécie de concentração dispersa de detritos, sendo grande parte de microplásticos, redes de pesca e patinhos amarelos. Um tanto desses aportaram no estreito de Bering, apresados em suas geleiras, como uma pincelada discreta de Michelangelo, apontando a imperfeição do ser humano. Singraram o Ártico, testemunhando seu degelo. Cruzaram o canal que separa Rússia e Estados Unidos e chegaram, entre 2000 e 2003, na costa leste norte-americana e na costa norte da Islândia.
Em 2022, foi registrado um sapo na Escócia. Em 2024, no Pacífico Sul, uma tartaruga azul na Austrália. A trajetória bêbada, sim, um passeio bêbado ou aleatório, cuja probabilidade condicional aponta apenas o deslocamento passado sem previsão do que acontece no próximo passo, ou nado, no caso dos patinhos. A travessia do Ártico até a Groenlândia, a rota do Atlântico à Europa. Correntes marítimas do Pacífico Norte, da Califórnia, Equatorial Norte, e outras que dispersaram e, provavelmente, ainda dispersam patinhos de borracha contribuíram para experimentos em larga escala sem qualquer intenção ou planejamento, contribuindo para o conhecimento mais apurado a respeito de correntes marítimas, do derretimento da calota polar e da poluição marítima. Isso sem contar o estímulo econômico de se lucrar com os patinhos, uma vez que passaram a fazer parte de leilões, como itens valiosos de coleção.
O caso dos patinhos não foi um fato isolado de contêineres lançados ao mar em consequência de tempestade no Pacífico Norte. Em 1990, o cargueiro Hansa Carrier perdeu por volta de 80.000 pares de tênis, que pegaram carona nas correntes marítimas e chegaram às praias do Alasca, da Colúmbia Britânica e de Washington. Sapos, tartarugas, castores, patinhos e tênis, atuando como traçadores, ajudaram cientistas a mapearem correntes oceânicas e aprimorarem modelos matemáticos de dispersão marítima, inclusive para teorizar a fluidodinâmica das ilhas de lixo, nas quais as correntes convergem e espiralam para o seu interior, acumulando o que flutua na superfície da água criando uma poça esquisita de lixo em pleno oceano. A tempo de entender a formação de tais ilhas poluentes e de constatar o degelo polar, não se pode esquecer que o Pacífico Norte, o estreito de Bering e a Groelândia despertam interesses de nações poderosas, seja por motivos econômicos ou bélicos.
Há de se mencionar que os patinhos de borracha resultam de uma indústria de transformação de terceira geração, no âmbito petroquímico, a qual tem o petróleo enquanto matriz básica para a indústria de primeira geração. Antes, porém, a história dos patinhos evoca sua massa amorfa, resto fossilizado da vida, que atravessa estreitos, enclausurada nas entranhas de petroleiros, sinalizando o quanto a humanidade deve estar atenta à distinção entre progresso e retrocesso da civilização, e assim ter o tônus necessário para erguer o dedo indicador e tocar a face divina.
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