Os dias escoam por entre os dedos enquanto procuro um tema para a crônica do mês. Como começar? Você fecha os olhos. Respira fundo diante da tecla, além da tela do computador. Abre os olhos, e a primeira coisa que vê é um copo de água. Lembra-se do conselho médico para hidratar-se. Lembra-se de que a água é generosa; uma vez líquida, molda-se à forma que lhe é atribuída. Possui várias facetas, de doce a salgada, de sólida a gasosa. Não se concebe a existência do ser humano e de inúmeras espécies sem sua presença e a de seu ciclo, conhecido como hidrológico, o qual compreende várias etapas.
Há o fenômeno da evaporação, principalmente dos oceanos. Tem-se a condensação, à qual se segue a precipitação, continuada pela percolação, pela infiltração no solo e pela drenagem para lagos, rios e mares, fechando o ciclo. Por ser o líquido mais comum em nossas vidas, a água passa quase despercebida, apesar de compor perto de 70% de nossa massa corpórea, de estar na saliva de nossa boca, na lágrima que escorre de nosso olhar, no copo com que suprimos a sede logo que acordamos, no rosto para despertarmos, no café para nos pôr em pé, na chuva ou na umidade de um dia escaldante, no frescor ou no abrasado da brisa, controlando o clima do planeta.
A água sujeita à adição ou à remoção de energia faz parte do nosso dia a dia, e aí é que a coisa complica. A água, no copo, me sorri marota. Em certos aspectos, trata-se de uma substância que se apresenta dentro da normalidade: é sólida a baixas temperaturas e, com o incremento destas, atravessa os estados líquido e de vapor. Em outros aspectos, a água é complexa e atípica. Sua anomalia deve muito à sua estrutura molecular, regida em particular por rede de ligações de hidrogênio, que formam agregados na fase líquida, colapsam-se e restauram-se devido à agitação térmica na medida em que se adiciona energia, influenciando propriedades essenciais, tais como tensão superficial, calor específico e solubilidade, e caracterizando-se enquanto solvente universal. A água apresenta propriedades físico-químicas únicas, estando presente em praticamente todas as atividades produtivas, destacando-se as agrícolas e industriais.
Com o desenvolvimento econômico e industrial, é imperioso o reuso da água, cujo desafio também reside no tratamento de efluentes decorrentes da atividade industrial, de forma que o descarte para o meio ambiente vá além de legislações para fins de disposição e devolução ao corpo hídrico, aflorando a preocupação quanto à preservação de mananciais. Não podemos nos esquecer de 2024, ano em que o rio Piracicaba recebeu resíduos industriais de elevada carga orgânica, alastrando-se por 70 km e causando a morte de mais de 200 mil peixes. A imagem de cardumes boiando ainda povoa a lembrança, mas existe aquela que não é tão visível, pois a poluição também impacta nosso cotidiano sem percebermos, a começar com corpos de água contaminados que abastecem a agricultura, visando a produção de alimentos por meio, entre outros, da irrigação. O rendimento das lavouras é incrementado com irrigação adequada, assegurando-se sua boa qualidade, a qual considera o grau de toxidade inerente à adição de insumos agrícolas para aumentar a produtividade da plantação. É inevitável, neste caso, não se deparar com agrotóxicos ou defensivos agrícolas ou fitossanitários ou pesticidas ou qualquer outra denominação, pois não será uma designação que evitará a contaminação de bacias fluviais. Não se pode ignorar a realidade de um país desigual, em que milhares buscam seu sustento na agricultura, cuja carga poluidora não pode ser creditada à água que brota na face suada de trabalhadores, mas à consciência diante do que é para ser feito.
Abro a janela e me deparo com o desperdício, vejo pessoas lavando calçadas, carros, deixando torneiras abertas, sem que saibam que a distribuição de água doce é desigual no planeta. Em algumas regiões, ela é rara. Por outro lado, abençoadas as nações que possuem aquíferos, pois armazenam água potável. A água desperdiçada que vejo advém do Sistema Aquífero Guarani (SAG), um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce na Terra, com cerca 1,2 milhão de km2 e capacidade para abastecer mais de 20 milhões de pessoas. Mal sabem que o SAG está ameaçado por uso abusivo de agrotóxicos, despejo de vinhaça, que atingem lençóis freáticos. Desconhecem que o SAG nutre quatro países da América do Sul: 71% de sua área está no Brasil, 19% na Argentina, 6% no Paraguai e 4% no Uruguai. O SAG, no Brasil, percorre veias e artérias do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, de Goiás, de Minas Gerais, de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. A limitação de reservas de água doce no planeta, o crescente aumento da demanda para consumo humano e as restrições que devem ser impostas em relação a efluentes impulsionam a adoção de estratégias que visam maximizar a utilização dos recursos hídricos e minimizar os impactos negativos causados por resíduos descartados e por manuseio de aditivos nocivos. A gestão, portanto, da disponibilidade hídrica, englobando a utilização da água para fins potáveis, na agricultura e em processos industriais, é vital.
Prover água e esgoto tratados é um desafio global e sem fronteiras, pois cerca de 4 bilhões de pessoas, metade da população mundial, padecem com a grave escassez de água durante pelo menos parte do ano. Seria possível evitar 1,4 milhão de mortes a cada ano com acesso à água potável, ao saneamento e à higiene. Escrever que água é vida não é cair no lugar comum, pois se trata de condição inequívoca de sobrevivência de tantas formas, a começar pela nossa espécie. Água também é arte. Esse líquido, que vivifica, inspira mentes criativas como a de Belo Serge, que utilizou 66 mil copos biodegradáveis, contendo água de chuva, compondo um mosaico de pouco mais de 300 m2 para denunciar a escassez de água no planeta, bem como foram adicionadas tintas vegetais na água para delatar a sua poluição. Os copos de Belo desenham um corpo acolhido em um útero, que pode ser o de qualquer de um de nós.
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