Aflorou na dualidade da lama. Antes que o sol endurecesse o solo, algo brotou do barro: Adam. Sim, Adão, cuja gênese (e vale o trocadilho) etimológica encontra-se no hebraico remetendo à humanidade, homem. Mas o termo Adão também está associado a adamah, que lembra terra, solo.
Assim, a palavra Adão pode sugerir que o ser humano primordial ou a própria humanidade advenha do ventre da Terra, do solo e de suas variantes como da lama, da piçarra, a qual se refere a uma mistura de cascalho, areia, argila. Mas eis que, com a vinda da aurora, há um brilho intenso entre os cascalhos. Brilho que reluz há mais de mil anos antes de Cristo na região do Mar Negro, hoje Geórgia, onde o ser humano empregava certo tipo de caneleta, coberta com lã de carneiro, para separar ouro do cascalho. Rezam as boas línguas que daí nasceu a lenda do velo de ouro, pele mágica do carneiro mais mágico ainda: Crisômalo.
A possível leitura para a lenda reside na possibilidade de a oleosidade da pele contribuir para a captura do metal, tendo em vista a sua hidrofobicidade. Lenda ou realidade, o fato é que aurora e ouro (aurum) tem a mesma raiz etimológica indo-europeia que remete a brilhar que, de igual forma, está no carneiro mitológico associado ao grego chrysós, brilho, enquanto mallós à lã, ovelha. Enfim. A fascinação pelo ouro atravessou Eras, visto que a antiga civilização egípcia o considerava o metal perfeito, enquanto nas Américas, os Astecas e Maias conheciam-no e reconheciam o seu valor.
Na Idade Média, transmutar qualquer metal em ouro era um dos objetivos dos alquimistas que, para separar seja ouro seja ouro de tolo, utilizavam o mercúrio, devido à facilidade da amálgama. E não só na Idade Média, pois o emprego do mercúrio na mineração do ouro transpôs oceanos, aportando na bacia do rio Madeira na década de 1990, para agravar sobremaneira o problema ambiental, além de expor a comunidade ribeirinha a alterações mentais e nefrotoxidade. Mas o ser humano é obcecado pela pele de Crisômalo e a busca no seio da Terra.
No início do século XXI houve, no Brasil, certo clamor a respeito do nióbio, elemento próximo à magia e que a tudo resolveria devido à sua versatilidade, feito aquela vista em superligas metálicas nos setores aeroespaciais. Revolver a terra, escarafunchar o barro para encontrar não Adão ou Eva, mas qualquer coisa que brilhe ou em dólar ou em pix. E se esse barro for constituído por determinada argila capaz de reter e trocar íons, a tal argila iônica, melhor ainda, pois essas argilas podem conter os elementos de terras raras (ETRs).
Recursos centrais nas transformações tecnológicas e da transição energética deste século, impactando a economia global, os ETRs constituem-se em um grupo de elementos químicos, denominados lantanídeos, além do estrôncio e do ítrio, presentes em eletrônicos para o funcionamento de telas de celulares, televisores e satélites, assim como na fabricação de equipamentos médicos e lasers. De igual maneira ao nióbio, a preciosidade das aplicações tecnológicas dos ETRs resulta naquelas monetárias.
Enquanto o quilo de óxido de ferro custa cerca de US$ 1,0, o quilo de óxido de neodímio recai por volta de US$ 100, do óxido de térbio em torno de US$ 1.000, e do óxido de lutécio pode bater na porta dos US$ 15.000, e na sua forma metálica lá pros U$ 300.000 o quilo. O Brasil está de olho nisso tudo e detém a segunda maior reserva mundial de ETRs, que são encontrados, por exemplo, no Cinturão Ribeira, que se estende entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Em Cumuruxatiba, na Bahia, existem depósitos de areias monazíticas, contendo cério, lantânio e neodímio. Tanto no Complexo Alcalino de Poços de Caldas (MG) quanto na região de Minaçu (GO), há a presença importante de neodímio, praseodímio, térbio e disprósio agregados em argilas iônicas. Esses elementos químicos são empregados na fabricação de ímãs permanentes de alta potência, usados em motores de carros elétricos e turbinas eólicas.
Embora carreguem a raridade em sua denominação, os ETRs não são tão escassos na crosta terrestre, todavia se apresentam em baixas concentrações, e o seu processamento é tanto custoso quanto complexo, pois de cada mil quilos de minério, obtém-se um quilo de terras raras. Os desafios para tê-los prontos à utilização são amplos, diversos, por que entremeiam as viabilidades econômica, científica, tecnológica e ambiental.
Os ETRs não se encontram em estado puro, dificultando desde a extração até a sua separação e posterior purificação e metalização. Além das argilas iônicas, tais elementos estão misturados e incrustados no âmago de rochas vulcânicas e, neste caso, emprega-se ataque químico para a dissolução da rocha para, em seguida e repetidas vezes, partir para a separação individual, utilizando-se solventes orgânicos onerosos até a obtenção da pureza desejada.
Apesar de o Brasil apresentar enorme potencial geológico de terras raras, não se pode contentar em ser mero exportador de commodity, ou seja, um exportador de rocha, de lama ou produto de primeiro estágio, mas se apresentar enquanto protagonista tecnológico. No caso da mineração e extração dos ETRs não se deve, jamais, repetir os desastres de Mariana e Brumadinho. Como também ter em mente a gestão de resíduos e a tecnologia para minimizar o emprego de reagentes ou mesmo buscar alternativas tecnológicas de separação e purificação para evitar o impacto ambiental como aquele do mercúrio na Amazônia.
Nisso tudo, ouço que o asteroide 16 Psyche, situado entre Marte e Júpiter, é riquíssimo em ferro, níquel e ouro. Certa turma já o vislumbra com a gana dos Argonautas, preparando-se para a busca da pele do idílico Crisôlamo, ou de alquimistas, enviando sondas espaciais para estudá-lo feito pedra filosofal. Sério? pergunta-me Cério. Por que não procuram na Europa, questiona-me Európio. Outra promessa furada, completa Promécio. A propósito – respondi – quem me disse foi o Disprósio. Érbio sorri ébrio, enquanto Eros e Psiquê, Adão e Eva concretizam sonhos impossíveis.
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