Aponto estrelas no céu de Guaraci. — Abaixa o dedo, menino, senão vai crescer verruga. Sorrio, pois batizei as estrelas destacadas como Dito do Bar, Dito da Quitanda e Dito do Açougue. Os três Ditos, estrelas de minha infância, que vocês podem as identificar às três Marias – Alnitak, Alnilam e Mintaka –, supergigantes azuis que compõem o cinturão da constelação de Órion. Mas o que escrever sobre Órion? Os olhos de criança se deslumbravam com as noites norte-paranaenses, embeveciam-se com mitologia grega, inclusive com o mito de Órion: guerreiro fabuloso, a ponto de Ártemis, deusa da caça, apaixonar-se perdidamente por ele, como proibidamente seria por qualquer outro humano, semideus ou deus. Órion correspondeu à paixão, todavia não consumada devido à picada mortal de um escorpião, enviado pelo enciumado Apolo, irmão gêmeo de Ártemis. A picada privou o bravo guerreiro do plano terreno, contudo o elevou ao celeste, transformando-o em constelação, a pedido de Ártemis ao seu pai, o todo poderoso e tonitruante Zeus.
Acorde, Marco, acorde. — Controle terrestre ao Major Tom. Cheque os instrumentos e parta. Consegue me ouvir, Major Tom? Essa chacoalhada é um trecho de Space Oddity, música de David Bowie lançada em julho de 1969, pouco antes de a missão Apollo 11 pousar na Lua. Cinquenta e tantos anos depois, a missão de sua irmã, Ártemis, cumpriu objetivo semelhante. Contudo, em vez de tocar a Lua, sobrevoou-a platônica, já que a nave da missão, nomeada Órion, foi fadada a não desafiar os deuses para tocar a face de Selene, personificação grega da Lua.
Próxima para acessar o outro lado da Lua e interromper a comunicação com a Terra, Órion levou o ser humano audaciosamente onde nunca esteve, numa jornada às estrelas, batendo o recorde de afastamento do nosso planeta a 406,6 mil quilômetros. Naquele momento, um dos astronautas reforçou Major Tom, sinalizando que a Terra é um oásis precioso para a coexistência. Oras, reflito, se os seres humanos estavam representados naquela nave, por que os astronautas não pediram ajuda aos chineses para manter a comunicação? É sabido que, no lado oculto da Lua, estão os satélites Queqiao-1 e Queqiao-2, que orbitam o ponto L2 de Lagrange, posição de equilíbrio gravitacional, em que acompanham a Terra na órbita solar com economia de combustível. Dessa maneira, possibilitariam a retransmissão de sinais de rádio à Terra, superando o bloqueio físico da Lua. Ou os astronautas da Órion não queriam dar o braço a torcer aos taikonautas da CNSA, ou puseram-se à prática pesquisas às quais o restante de bilhões de seres humanos terá acesso quando Zeus quiser, ou simplesmente degustaram por completo o álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, silenciando-se ao ouvir a voz que finaliza o disco, que diz: “Não há um lado escuro da Lua, na verdade, ela é toda escura, ela só é iluminada pelo Sol.” Nesse disco, permito-me o voo, afloram vários temas como a ganância, presente na música Money, que se abre em sons de caixa registradora e de moedas; de igual modo sobre a inexorabilidade do tempo, introduzida na música Time, com relógios e alarmes em som quadrifônico de Alan Parsons, seguido com cordas surdas do baixo de Roger Waters, progredindo com o teclado de Richard Wright e a guitarra de David Gilmour.
Time me faz pensar sobre o quanto somos efêmeros e frágeis. O outro David, o Bowie, em sua Odisseia, nos (en)canta, na persona de Major Tom, antes de mergulhar no espaço-tempo para nunca mais voltar. — Diga a minha mulher que eu a amo demais. Um dos astronautas da Órion, na iminência de conhecer o lado oculto da Lua, proferiu um discurso sensível sobre a nossa condição humana, em particular sobre o amor fraternal. Sem dúvida é uma mensagem importante, assim como é inquestionável o avanço científico de missões espaciais. A missão Apollo 11 contribuiu para o desenvolvimento de computadores compactos e potentes, possibilitou a criação de programas de Segurança Alimentar, hoje padrão para indústria de alimentos, desenvolveu sensores para monitorar batimentos cardíacos, dando origem a sistemas modernos de monitoramento hospitalar.
A missão Ártemis 2, em linhas gerais, buscou estudar os efeitos da radiação espacial e da microgravidade no corpo humano, assim como avaliar sistemas de navegação, de comunicação e do aprimoramento do escudo térmico da Órion. E, aqui, serão inevitáveis as perguntas de nossos alunos sobre transferência de calor, reação da matéria à energia em conceitos associados a calor específico, em particular sobre o plasma formado na estrutura externa da cápsula quando de sua reentrada na atmosfera. Isso sem contar com a contribuição para modelos matemáticos, a partir do histórico de sinais e imagens, que possibilitam estratégias estocásticas coligadas ao aprendizado de máquina para auxiliar na tomada de decisões imediatas e seguras.
A missão Ártemis 2 vislumbra o ser humano repetir a alunissagem da Apollo 11 e mesmo pousar em Marte. — Alô, alô Marciano. Aqui quem fala é da Terra. Pra variar, estamos em guerra. Você não imagina a loucura. Rebobino a música de Roberto de Carvalho e Rita Lee na voz de Elis Regina, pois no mesmo dia em que aplaudimos e referendamos o apelo à fraternidade de um astronauta – 6 de abril de 2026 – testemunhamos atônitos e incrédulos a declaração de alguém que almeja o prêmio Nobel da Paz: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.” Destruir uma civilização forjada em um dos maiores impérios da Antiguidade, que remonta ao século IV a.C, tendo Ciro, o Grande, como referência de administração eficiente e tolerância cultural. Varrer do mapa de onde vieram Avicena e Al-Khwarizmi, sendo deste o legado do algarismo. Arvorar-se de ser divino para destroçar milênios. É de se esperar de quem se vê superior ao papa, cujo rugido suplanta o de Ares, deus grego da guerra, ou de seu similar latino, Marte? Não tenho respostas, apenas lanço o olhar aos três Ditos, acreditando que conhecer o lado oculto da Lua também contribui para conhecermos um pouco mais sobre as nossas verdadeiras faces.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
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