Navegando pelas redes, encontrei uma postagem (via Ildeu Moreira) sobre o mal-estar da vida acadêmica. Não havia uma referência exata, e a busca com algumas palavras-chave levou a um resumo dado pela IA do buscador, bastante parecido com o texto da postagem. Vale a pena reproduzir aqui trecho de autoria aparentemente artificial:
“Há um mal-estar persistente na vida acadêmica contemporânea que nem sempre é nomeado com precisão. Não se trata simplesmente de excesso de trabalho ou emprego precário, mas de uma transformação mais profunda: a substituição progressiva do significado intelectual por uma lógica de gestão, registro e avaliação constante. Nessa mudança, a universidade deixa de ser organizada em torno do conhecimento e passa a ser organizada em torno de sua demonstração burocrática.” [Scielo Mexico]
É um mal-estar que compartilho e que me fez lembrar de tempos passados. Sem medo de anacronismos, apresento alguns aspectos da vida de Michael Faraday (1791-1867), que talvez possam ser uteis no nosso século para repensar algumas coisas.
Quem estudou física conhece a lei de Faraday, mas esse Cientista (com C maiúsculo) deu outras contribuições para a Física e para a Química, desenvolveu aplicações práticas para a ciência, divulgou a ciência, respondeu a ataques à ciência, desmascarou pseudociências e chamou a atenção do público para questões ambientais.
O jovem Michael Faraday teve pouca educação formal. De origem humilde, foi trabalhar como aprendiz de George Ribeau, um encadernador e livreiro em Londres[1]. Foi assim durante sete anos, a partir de seus 14 os livros que encadernava – fosse um manual de Química, um volume da Enciclopédia Britânica ou “As 1001 noites”. Lia e fazia anotações, até que um dia, um cliente presenteou-lhe com um ingresso para assistir a uma palestra na Royal Institution. Faraday não parou mais de frequentá-las, até que conseguiu ser contratado como auxiliar de laboratório por lá. Depois, tornou-se o mais eminente cientista e professor da instituição.

Já aos 30 anos, atuando na Royal Institution, Faraday tomou conhecimento – por meio de seu mentor, o químico Humprhy Davy (que, depois, provavelmente por ciúmes, virou desafeto) – da recente descoberta do cientista dinamarquês Hans Christian Ørsted: uma corrente elétrica desviava a agulha de uma bússola. Vistos desde tempos ancestrais como entidades separadas, eletricidade e magnetismo passaram a estar associadas aos olhos da ciência. Faraday pensou logo que o contrário também deveria acontecer: um campo magnético deveria provocar uma corrente elétrica! No início, um sucesso parcial: Faraday inventou o primeiro motor elétrico da história, que não era útil, mas funcionava e antecipava a longa jornada até os carros elétricos atuais.
Foram dez longos anos de tentativas, até que em 1831 ele demonstrou sua lei da indução magnética, inventando de quebra o transformador elétrico: sim, a variação de um campo magnético provoca um campo elétrico (embora ainda não se falasse em campos, mas em linhas de força). Faraday ainda trabalhou exaustivamente por mais de duas décadas, estudando as propriedades magnéticas e elétricas de diversos materiais, o campo magnético da Terra e as propriedades eletromagnéticas da luz. Mas o que significa o “exaustivamente” nesse contexto? A pedido de colegas e amigos, Faraday compilou seus trabalhos não em uma sucessão de artigos – que hoje orientam as carreiras acadêmicas –, mas nos três volumes de “Experimental Researches in Electricity”,[2] que totalizam mais de 1500 páginas. Ao final do segundo e terceiro volumes, adicionou artigos esparsos seus e de outros autores, “essenciais para entender desdobramentos posteriores”. A compilação das “Experimental Researches”, que vai de 1831 a 1855, não é dividida em capítulos, mas, curiosamente, em 3430 parágrafos numerados.[3]
Nos cursos de Física, deveriam ser estudados trechos dessas pesquisas experimentais em eletricidade, pois o texto de Faraday é uma narrativa que, em partes, recupera como as descobertas são feitas, e não apenas sua justificativa. Há um desenho maravilhoso no parágrafo 2807: as linhas de campo magnético para dois tipos de materiais, um chamado paramagnético, e o outro, diamagnético (sem entrar em detalhes técnicos, a diferença entre os dois fica evidente no desenho). Embora Faraday as designasse como linhas de força, a ideia, a aplicação e a representação do que posteriormente foi chamado de campos já estavam lá. James Clerk Maxwell comentaria mais tarde que Faraday intuiu uma matemática muito mais avançada do que a contemporânea, que ele não sabia.
Numa época em que praticamente não existia o ensino formal de ciências nas escolas, Faraday se dedicava ao ensino e à divulgação da ciência, criando em 1825 as famosas Christmas Lectures, que, como o nome diz, eram realizadas na época do Natal. As palestras acontecem até os dias de hoje e são voltadas para jovens[4]. Faraday buscava, com suas 1001 experiências (lembrando o livro que lera na adolescência), conquistar corações e mentes, não apenas o de um sultão, como o fez Sherazade, mas do maior número de crianças possível.

De todo o conjunto de palestras de Faraday, a série “História química de uma vela” é sua obra-prima, atualíssima na proposta e na forma. Proferidas no final do ano de 1848, foram editadas em livro em 1861 e continuaram sendo reeditadas desde então. A série aborda temas transversais: da complexa estrutura da chama e suas reações químicas, passando pela composição da água até a respiração humana. O livro apresenta as demonstrações feitas nas palestras para serem reproduzidas também em casa. Hoje, a história da vela pode ser vista pelo Youtube[5].
A “História química de uma vela” resultou em outro desdobramento interessante na época. Foi recontada por Percival Leigh, na primeira de uma série de histórias sobre ciência protagonizadas pela família Wilkinson. Na versão de Leigh, durante um jantar, o filho mais velho relata a palestra de Faraday para sua família; o pai o ajuda com os termos técnicos, o irmão mais novo representa o entusiasmo pela história, a mãe traz o saber popular, e um tio, que é meio bufão, alude sempre a outras fontes de conhecimento. Essas histórias foram publicadas na revista “Household words”, cuja epígrafe era tirada de Shakespeare, em Henrique V: “Familiar in their mouths as Household Words” (em tradução livre: “familiar em suas bocas como palavras caseiras”). O periódico – que durou de 1850 a 1859 – era editado por ninguém mais, ninguém menos que Charles Dickens, que conhecia o trabalho de Faraday. Juntos, conspiraram pela ciência.
No longínquo século XIX, a ciência era alvo, quando não de ataques, de ceticismo. Faraday também a defendia nesse contexto, com uma dose de humor e ironia, que parecem ter se perdido em tempos mais recentes. Vale comentar dois de seus aforismos, bem documentados.[6] Em uma palestra de 1816, o cientista discorreu sobre uma série de elementos químicos recém-identificados. :
“Antes de deixar essa substância de lado, o Cloro, falarei sobre sua história, como uma resposta aqueles que tem por hábito dizer a todo fato novo, ‘Qual é a utilidade disso?’ A resposta do Dr. Franklin é ‘Qual é a utilidade de uma criança?’”
Ou seja, originalmente a pergunta foi para Benjamin Franklin (1706-1790), que Faraday (que admirava o cientista norte-americano) aproveitou muito bem. Mas não no contexto de suas contribuições ao eletromagnetismo, como se costuma afirmar. De todo modo, Faraday ainda acrescentou: “A resposta de um experimentalista é esforçar-se para torná-lo útil. Quando Scheele a descobriu, essa substância aparentava não ter nenhuma utilidade, estava em sua infância e em um estado sem utilidade, mas, crescendo até a maturidade, testemunham-se seus poderes e pode-se ver do que os esforços foram capazes.”
É precisa a analogia sobre os chamados esforços “inúteis”, inclusive quanto ao tempo que uma descoberta fundamental leva para ter uma aplicação prática. Outra frase atribuída ao cientista e muito citada é a resposta que ele teria dado ao Primeiro Ministro do Reino Unido da época, quando perguntado sobre a utilidade da descoberta do eletromagnetismo: “Logo você poderá cobrar impostos sobre isso.”
Fica a dica para reeditar a pergunta e a resposta nos debates atuais.
Faraday é, portanto, um exemplo de cientista, que acreditava ter o direito e o dever de se mobilizar em defesa de valores importantes, não só em defesa da ciência, mas também em denúncias contra a pseudociência.
Em meados do século XIX, estavam em voga o mesmerismo (magnetismo vital, uma força natural intangível que todos os seres vivos possuiriam) e as mesas girantes, procedimentos para os espíritos dos mortos se comunicarem com os vivos. Os espíritos girariam a mesa, parando para indicar uma letra e, assim, soletrando suas mensagens. Bem, as mesas de fato giravam, mas seria isso devido aos espíritos? Franck James, editor da correspondência de Faraday, conta o caso.
Faraday era privadamente cético em relação ao mesmerismo, como suas cartas revelam. Porém, em relação às mesas girantes, veio a público. O cientista recebeu inúmeros convites para participar de sessões de mesas girantes, recusando-os às vezes polidamente, outras ironicamente. Até que resolveu ir, lá por maio de 1853. Então, concebeu e executou experimentos engenhosos, que demonstraram cabalmente que as mesas giravam devido a movimentos involuntários dos que a ela se sentavam e que pousavam as mãos sobre o tampo. Faraday se interessou pela questão porque muitos atribuíam o fenômeno a efeitos elétricos e magnéticos. Seu veredito era inapelável. Anunciou-o inicialmente em um jornal, em julho de 1853, uma nota na “Illustrated London News”. Recebeu apoio imediato de vários colegas, mas também ameaças furibundas. A poetisa Elizabeth Browning chamava-o de “arrogante e insolente”. A descrição detalhada dos experimentos e seus resultados apareceu em novembro daquele ano no “Jornal of the Franklin Institute”: “Experimental Investigation of Table-Turning”. Mas não parou aí. Proferiu ainda uma palestra na Royal Institution (de uma série sobre educação e ciência), na presença do Príncipe Alberto, marido da rainha Vitória, com o título “Observações sobre a educação mental”, em que tomava as crenças sobre as mesas girantes como exemplo-chave para os problemas na educação.[7] Faraday se aproximou de negacionistas, entendeu suas crenças, elaborou experimentos para desmenti-las, foi aos meios de comunicação, publicou um artigo científico e falou com as mais altas autoridades sobre isso. Vale a reprodução de alguns trechos de seus discursos.
Na nota de jornal:
“O efeito produzido pelos giradores de mesa já foi atribuído à eletricidade, ao magnetismo, à atração, a algum poder físico desconhecido ou até agora não reconhecido capaz de afetar corpos inanimados – à revolução da Terra e, inclusive, a agentes diabólicos ou sobrenaturais.”
“O filósofo natural pode investigar todas essas supostas causas, exceto a última.”
“Penso que o sistema educacional, que pode deixar a condição mental do público no estado no qual esse assunto a encontrou, deve ter sido gravemente deficiente em algum princípio muito importante”.
Introdução da palestra em que o príncipe Alberto estava presente:
“Tomo a coragem, Senhor, ante sua presença hoje aqui, para falar assertivamente o que está em minha mente. Temi que isso pudesse ser desagradável para alguns na audiência, mas como sei que Sua Alteza é um promotor e desejoso da verdade, quero crer que todos aqui estamos unidos na mesma causa e, portanto, assevero, sem hesitação, o que tenho a dizer em relação à presente condição da educação.”
“Simplesmente expressarei a minha forte convicção, de que o aspecto da autoeducação que consiste em ensinar a mente a resistir a desejos e inclinações, até que essas sejam demonstradas corretas, é o mais importante de todos, não apenas nas coisas da filosofia natural (ciência), mas em todo os âmbitos da vida diária.”

Por sua vez, o lado ambientalista de Faraday se revelou na denúncia pública da poluição do rio Tâmisa. Para não estender demais o texto, reproduzo a seguir uma charge publicada em um jornal da época, que retrata Faraday inspecionando o rio.
Nestes outros tempos e contextos, Michael Faraday poderia ser uma inspiração para mudanças de atitude para substituir progressivamente, pelo menos em parte (sejamos realistas), a lógica de gestão, registro e avaliação pelo significado real do conhecimento.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] Naquela época, as livrarias tinham à disposição para venda os miolos dos livros impressos, sem as capas. O cliente escolhia a encadernação, de modo que cada exemplar era único (ver Livrarias- uma história de leitura e de leitores, de Jorge Carrion, editora Bazar do Tempo)
[2] O primeiro volume está no Internet Archives
O segundo volume pode ser visto também no sítio
O terceiro volume, com o famoso parágrafo 2807
[3] Ah, livro organizado pela numeração dos parágrafos, como as “Investigações Filosóficas” de Ludwig Wittgenstein. Será que o grande filósofo teria se inspirado em Faraday? Bem, certamente Wittgenstein estudou física, pois se dedicou longamente à engenharia, notadamente a aerodinâmica, antes de provocar uma turbulência na Filosofia. E o parágrafo 108 de suas investigações cita explicitamente uma frase de Faraday!
[4] https://www.rigb.org/christmas-lectures
[5] https://www.youtube.com/watch?v=RrHnLXMTOWM
[6] “’O recém-nascido’ de Faraday e Franklin” (Proceedings of the American Philosophical Society, Jun., 1987, Vol. 131, No. 2 (Jun., 1987), pp. 177-182).
[7] Essa palestra está transcrita e acessível no Internet Archives (Science and education; lectures delivered at the Royal institution of Great Britain).
