Conteúdo principal Menu principal Rodapé

Vamos conversar sobre o poder do Estado em uma sociedade sem limites claros

"A questão, portanto, não é apenas se o Estado sabe o que fazer, mas se ainda consegue, de fato, fazer valer suas decisões"

Nas conversas anteriores neste espaço, discutimos diferentes manifestações de um mesmo problema. Primeiro, o descompasso entre um Estado desenhado para uma realidade que já não existe mais e uma sociedade que mudou de forma acelerada. Depois, a emergência quase permanente governos funcionando sob a pressão de crises sucessivas. Em seguida, as dificuldades da proteção social em um contexto de envelhecimento, transformação do trabalho e reconfiguração das famílias. Em todos esses casos, a conclusão apontava na mesma direção: decisões difíceis precisariam ser tomadas, prioridades precisariam ser estabelecidas, e escolhas precisariam ser sustentadas ao longo do tempo. Mas é justamente isso que, em boa medida, já não estamos conseguindo fazer.

Essa constatação remete a uma pergunta-chave: o Estado ainda dispõe de poder para governar? Governar, aqui, não é apenas administrar rotinas ou responder a pressões imediatas, mas escolher entre demandas concorrentes, estabelecer prioridades, coordenar atores e sustentar decisões ao longo do tempo. A questão, portanto, não é apenas se o Estado sabe o que fazer, mas se ainda consegue, de fato, fazer valer suas decisões.

Talvez este seja um dos problemas centrais do nosso tempo: o Estado continua sendo chamado a fazer cada vez mais, mas dispõe de menos condições políticas e institucionais para ordenar prioridades, impor limites legítimos e arbitrar conflitos de forma estável. O poder de governar não depende apenas do tamanho da máquina e do volume de gastos, nem de instrumentos formais ou autoridade legal. Ele depende também, e fundamentalmente, da capacidade de transformar decisões em efeitos, sustentar prioridades e manter algum grau de aceitação social diante de perdas inevitáveis. E é justamente essa capacidade que parece estar sendo corroída.

Governar é também impor limites

As democracias contemporâneas têm se tornado mais abertas, mais pluralizadas e mais exigentes — o que, em muitos aspectos, é um avanço civilizatório. Há mais grupos organizados, mais vozes públicas e mais demandas legítimas. O problema é que essa ampliação de vozes e demandas não foi acompanhada por um fortalecimento correspondente da capacidade de ordenar prioridades coletivas. Quase tudo se transforma em demanda legítima. Quase toda frustração se converte em reivindicação. Quase todo conflito é apresentado como urgência. E, no entanto, poucos atores aceitam com naturalidade a existência de restrições, custos, perdas ou hierarquias. A ideia de limite — que está no coração da política democrática — tornou-se mais difícil de sustentar. Quando o Estado já não consegue impor limites legítimos e sustentar prioridades coletivas, o problema já não é apenas de eficiência administrativa. É de poder político.

Uma sociedade que exige tudo e confia pouco

Uma das expressões mais visíveis dessa dificuldade é a relação ambígua entre sociedade e Estado. Cobra-se do poder público a solução para praticamente todos os problemas — grandes e pequenos, estruturais e contingentes, individuais e coletivos. Ao mesmo tempo, cresce a desconfiança em relação à sua capacidade de agir de forma eficiente, justa ou competente. Exige-se muito e confia-se pouco. Essa combinação é corrosiva. A hiperexigência amplia a pressão; a desconfiança reduz a margem de manobra. Qualquer decisão tende a ser percebida como insuficiente, tardia, injusta ou politicamente suspeita.

Esse ambiente não decorre apenas de falhas reais ou percebidas do próprio Estado. Ele também reflete uma transformação mais ampla do espaço público, marcado por maior polarização, fragmentação social e crescente dificuldade de construção de referências comuns. Nesses contextos, decisões públicas deixam de ser avaliadas apenas por seus resultados e passam a ser imediatamente filtradas por identidades políticas, desconfianças prévias e disputas de pertencimento.

Nessas condições, governar é, cada vez mais, administrar contestações permanentes — com alto consumo de energia política, desvio de foco e menor capacidade de concentração em prioridades de médio e longo prazo. Decisões são questionadas antes mesmo de produzirem efeitos. Regras são contestadas continuamente. O custo coletivo torna-se cada vez mais difícil de justificar. Explicações institucionais perdem espaço para julgamentos imediatos, frequentemente moralizados e amplificados pelas redes sociais. A política, que deveria ser também o espaço de administração legítima de conflitos, passa a operar sob pressão constante por validação instantânea.

Esse ambiente favorece atalhos, puxadinhos e “soluções” de viés populista. Diante da dificuldade de sustentar escolhas impopulares ou hierarquizar prioridades, governos tendem a recorrer a respostas simbólicas, promessas amplas, medidas excepcionais e concessões fragmentadas. Muitas vezes, o Estado assume responsabilidades que não lhe caberiam, não por convicção, mas por cálculo político. Em vez de ordenar o conflito, passa a absorvê-lo de forma reativa.

O problema é que isso produz um círculo vicioso. Quanto mais o Estado responde de forma excepcional e improvisada, mais reforça a expectativa de que poderá responder a tudo. Quanto mais evita explicitar limites, mais enfraquece sua capacidade futura de fazê-lo. E quanto mais governa por acomodação sucessiva, mais perde densidade como instância legítima de arbitragem coletiva.

Seria um erro, contudo, localizar esse problema apenas no Executivo — e menos ainda apenas no governo federal. A dificuldade de sustentar escolhas de longo prazo, impor limites e resistir ao imediatismo atravessa o Estado em sentido mais amplo. Ela se manifesta também no Legislativo, frequentemente submetido a pressões fragmentadas e horizontes eleitorais curtos, e no Judiciário, cuja crescente intervenção em políticas públicas nem sempre vem acompanhada de maior capacidade de ordenar prioridades coletivas. Embora o Executivo concentre a cobrança social mais visível, a erosão da capacidade estatal é mais sistêmica e mais distribuída do que costuma parecer.

Um Estado analógico em uma sociedade digital

Há, nesse processo, um componente temporal que merece atenção especial. A sociedade contemporânea já opera, em grande medida, em lógica digital: imediata, contínua, interativa, reativa. O Estado, por sua vez, permanece organizado segundo tempos procedimentais, sequenciais, deliberativos e frequentemente lentos. Essa diferença não é apenas tecnológica; é institucional. Procedimentos essenciais para garantir legalidade e previsibilidade passam a ser percebidos como lentidão ou ineficiência. O descompasso entre o ritmo das expectativas e o ritmo da ação pública se soma a outro problema: os desafios contemporâneos são mais interdependentes e exigem coordenação entre áreas, níveis de governo e capacidades que o Estado frequentemente tem dificuldade de articular.

Mesmo com conhecimento técnico e instrumentos formais, a capacidade operacional do Estado enfrenta obstáculos reais. A lógica da urgência permanente encurta o tempo de aprendizado, reduz o espaço para avaliação e dificulta correções de rota. O resultado é uma combinação perversa entre alta exigência social, baixa tolerância ao erro e pressão por respostas rápidas a problemas que exigiriam coordenação mais paciente.

Plataformas digitais globais e grandes empresas de tecnologia operam com velocidade, escala e flexibilidade muito superiores às do Estado nacional, muitas vezes escapando às capacidades regulatórias disponíveis. Isso produz novas assimetrias de poder e desloca parte da capacidade de coordenação social para fora das estruturas tradicionais da autoridade pública.

Esse problema não se resolve com tecnologia, nem mesmo com inteligência artificial. Ferramentas podem ampliar eficiência, melhorar diagnósticos e apoiar decisões. Mas não substituem autoridade, legitimidade, coordenação política nem capacidade de sustentar escolhas difíceis. Sem essas bases, o Estado pode até funcionar melhor, mas continuará tendo dificuldade para governar.

Antes da última conversa

A erosão do poder do Estado, portanto, não decorre apenas de escassez de recursos, de falhas administrativas ou de ineficiência burocrática. Ela decorre também de algo mais profundo: da dificuldade crescente de ordenar uma sociedade mais fragmentada, mais acelerada, mais exigente e menos disposta a aceitar limites claros. O Estado continua sendo chamado a agir, mas perdeu parte da densidade política e simbólica necessária para arbitrar de forma estável os conflitos que atravessam essa nova realidade.

Esse desgaste raramente se manifesta de forma espetacular, mas se expressa de maneira mais silenciosa e cumulativa na incapacidade de sustentar prioridades, na multiplicação de urgências concorrentes, na dificuldade de planejar, na tendência à reação permanente, na perda de previsibilidade e na sensação de que quase tudo é provisório, contestável ou insuficiente.

Se as conversas anteriores mostraram por que o Estado está sob pressão e onde ele encontra dificuldades crescentes, esta deixa mais claro um obstáculo anterior a qualquer solução específica: sem poder efetivo para ordenar, limitar e sustentar decisões ao longo do tempo, o Estado não consegue sequer escolher entre alternativas possíveis de forma consistente.

Pensar o futuro do Estado exige, portanto, enfrentar essa erosão de base. Não se trata de defender um Estado maior ou menor, mais forte ou mais fraco, mas de reconhecer que a questão central passou a ser a qualidade do seu poder em uma sociedade profundamente transformada. Ou, dito de forma mais direta: não basta discutir o que o Estado deveria fazer; é preciso voltar a perguntar em que condições ele ainda consegue governar.

É dessa pergunta — mais difícil, menos confortável e talvez mais decisiva — que deve partir a nossa última conversa.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


Foto de capa:

Vamos conversar sobre o poder do Estado em uma sociedade sem limites claros; artigo Antonio Buainain
Sessão da Câmara dos Deputados, em Brasília, durante votação de projetos
15 set 26

Vamos conversar sobre educação e desigualdade?

Os resultados do Pisa 2025 indicam uma estagnação prolongada da educação brasileira em patamares muito baixos, com desempenho próximo ao de 2015
Grupo de crianças sentadas em cadeiras azuis em ambiente com parede azul claro, com uma criança em primeiro plano à direita usando camiseta cinza com a mão direita próxima ao rosto, outras crianças ao fundo usando camisetas brancas e azuis, e uma tela branca visível à esquerda do enquadramento.

03 set 26

Vamos conversar sobre uma sociedade doente?

Sempre pensei que, apesar dos desvios, acidentes e retrocessos, o processo civilizatório avançava no sentido de deixar certas formas de violência e intolerância no passado
Pessoa em posição dinâmica contra fundo escuro com efeitos de luz e partículas, vestindo roupa de cor clara, com braços e pernas estendidos, cercada por fragmentos geométricos azuis e brancos iluminados, e uma fonte de luz branca intensa à esquerda.

18 ago 26

Vamos conversar sobre o nó da política nas avaliações?

Mas quem acompanha as políticas públicas sabe que, a despeito de sabermos cada vez mais, continuamos convivendo com muitos dos mesmos problemas
Cordas de fibra natural entrelaçadas em padrão de torção, exibindo tons de bege, marrom e cinza, sobrepostas e agrupadas em close-up, com superfície de metal azul visível ao fundo.

05 ago 26

Vamos conversar sobre os limites da avaliação?

Onde está a verdade sobre a política?
Ilustração com fundo azul-petróleo contendo múltiplos pontos de interrogação brancos, um cursor de mouse cinzento apontando para o centro de um alvo branco com cruz, no qual está escrito a palavra "SOLUTION" em letras pretas maiúsculas.

22 jul 26

Vamos conversar sobre o risco de avaliar?

Quando conhecer os problemas se torna um problema
Pessoa com mão direita segurando marcador marrom, apontando para diagrama de fluxograma com múltiplas caixas retangulares conectadas por setas bidirecionais e unidirecionais em fundo desfocado com elementos azuis e texto parcialmente visível.

08 jul 26

Vamos conversar sobre um debate ainda necessário?

Mesmo reconhecendo que o Brasil não ficou parado, o incômodo maior é constatar que, apesar dos avanços, em vários aspectos nos atrasamos em relação às transformações do mundo.
Placa de múltiplos poços com tampas azuis iluminadas por luz LED azul, posicionada dentro de um equipamento de laboratório com painel preto e indicadores luminosos, ao lado de uma placa branca com poços vazios, sob iluminação de trabalho.

24 jun 26

Vamos conversar sobre a falência das instituições

Quando uma decisão desagrada, quando uma política fracassa, quando uma autoridade abusa do cargo, quando uma corporação se protege [...] é comum concluir que as instituições faliram
Ulisses Guimarães durante a promulgação da Constituição de 1988 que abriu um ciclo importante de reconstrução democrática.

12 jun 26

Vamos conversar sobre biodiversidades e bioeconomias do Brasil?

O Brasil abriga seis grandes biomas, cada um com características ecológicas próprias, histórias de ocupação distintas e diferentes formas de uso dos recursos naturais
Fotografia de grupo numeroso de pessoas posadas em fileiras, em ambiente interno de evento, com banners institucionais ao fundo exibindo as logomarcas da FAPESP, UK Research and Innovation e o tema "Bridging Science and Innovation", com telas de apresentação laterais e palco decorado com referência visual à cidade de Londres.

27 maio 26

Vamos conversar sobre o agro: herói ou vilão

Recentemente participei de um debate na São Paulo Innovation Week cujo título ensejava uma escolha aparentemente simples: o agro brasileiro é herói ou vilão? Confesso que o enunciado me deixou desconfortável. Não porque faltasse relevância à provocação — debates públicos vivem de perguntas fortes —, mas porque ela sugeria algo que talvez seja o primeiro grande equívoco quando discutimos agricultura […]
coluna agro

07 maio 26

Vamos conversar sobre o Estado possível?

Em praticamente todas as sociedades contemporâneas, as pressões sobre o gasto tendem a crescer de maneira persistente
Uma mão segurando uma lupa que amplia duas figuras humanas estilizadas em meio a uma multidão de ícones de pessoas sobre fundo azul degradê, representando o conceito de seleção, busca ou identificação de indivíduos específicos dentro de um grupo maior.

Ir para o topo