Recentemente participei de um debate na São Paulo Innovation Week cujo título ensejava uma escolha aparentemente simples: o agro brasileiro é herói ou vilão? Confesso que o enunciado me deixou desconfortável. Não porque faltasse relevância à provocação — debates públicos vivem de perguntas fortes —, mas porque ela sugeria algo que talvez seja o primeiro grande equívoco quando discutimos agricultura no Brasil: a ideia de que exista um único “agro brasileiro”, homogêneo, coerente e passível de ser enquadrado em categorias morais tão definitivas.
Nas últimas décadas o Brasil construiu uma das agriculturas tropicais mais competitivas do mundo. Isso não aconteceu por acaso nem decorreu apenas da abundância de terras ou condições naturais favoráveis. Houve pesquisa pública, ciência, crédito e construção institucional impulsionadas pelo Estado; houve empreendedorismo privado, adaptação tecnológica e investimento acumulado ao longo do tempo sob liderança do setor privado. O resultado foi extraordinário: aumento expressivo da produtividade, expansão da oferta de alimentos e bioenergia, consolidação do país entre os principais exportadores agrícolas do mundo e desenvolvimento de capacidades científicas raras em agricultura tropical.
Mas essa mesma trajetória conviveu — e ainda convive — com expansão sobre novas fronteiras, frequentemente acompanhada por desmatamento “legal” e “ilegal”, conflitos pelo uso da terra, pressões ambientais, desigualdades persistentes entre produtores e territórios, além de dificuldades de coordenação institucional e governança. Em outras palavras, parte dos problemas frequentemente associados ao agro brasileiro surgiu simultaneamente — e, em muitos casos, de forma indissociável — a alguns de seus maiores sucessos.
Talvez seja justamente aí que a narrativa do agro herói e do agro vilão encontre sustentação.
Quem observa o crescimento da produtividade, a adaptação tecnológica aos trópicos, a produção de alimentos e bioenergia, a geração de divisas, o papel da agricultura na balança comercial ou o desenvolvimento científico acumulado ao longo de décadas tende a enxergar um dos mais impressionantes processos de transformação produtiva do século XX. A partir daí constrói — ou reproduz — a narrativa do agro herói, frequentemente negligenciando outras dimensões do mesmo processo.
Quem olha para desmatamento, conflitos fundiários, uso intensivo de recursos naturais, pressões ambientais, desigualdades regionais ou ilegalidades persistentes encontra razões igualmente concretas para sustentar a narrativa do agro vilão — e frequentemente também deixa de perceber as capacidades produtivas, científicas e econômicas construídas ao longo das últimas décadas.
O problema é que ambas as leituras contêm elementos verdadeiros, mas frequentemente se equivocam ao tratar heróis e vilões como se fossem resultado de trajetórias distintas e capazes de explicar o todo. Em muitos casos, heróis e vilões nasceram do mesmo processo histórico de transformação.
Quando heróis e vilões nascem da mesma história
Uma resposta simples para a pergunta inicial exigiria, antes de tudo, saber de qual agro estamos falando. E aí surge uma primeira dificuldade: sob o mesmo rótulo convivem agricultores familiares altamente produtivos e agricultores em situação de vulnerabilidade econômica; cadeias intensivas em tecnologia e sistemas pouco capitalizados; cooperativas sofisticadas, grandes grupos empresariais, pecuária extensiva, agroindústrias e múltiplas formas de organização produtiva.
Mas reduzir o problema à heterogeneidade seria insuficiente. Estamos acostumados a organizar o debate público por categorias relativamente confortáveis: agricultura familiar associada à produção de alimentos, sustentabilidade e inclusão social; agronegócio associado à exportação, concentração econômica e pressão ambiental. Como ocorre em quase toda simplificação, existem elementos de verdade nessas imagens. O problema é transformá-las, como vem sendo feito, em retratos completos da realidade.
A agricultura familiar brasileira é profundamente heterogênea. Inclui produtores familiares altamente eficientes e integrados a mercados, mas também milhões em situação de baixa renda, reduzido acesso à tecnologia e grande vulnerabilidade produtiva. Em determinados contextos utilizam práticas sustentáveis; em outros, enfrentam dificuldades semelhantes às observadas em segmentos empresariais, inclusive no uso pouco sustentável — senão predatório — de recursos naturais.
O chamado agronegócio tampouco constitui bloco homogêneo. Reúne desde experiências intensivas em ciência, inovação e ganhos expressivos de produtividade até atividades associadas à expansão predatória, conflitos fundiários e pressões ambientais persistentes.
A questão central, porém, é ainda mais desconfortável. Frequentemente as contradições aparecem dentro dos próprios grupos e, em muitos casos, derivam do mesmo processo histórico. A modernização agrícola brasileira elevou produtividade, ampliou a produção de alimentos, fortaleceu exportações, estimulou o desenvolvimento científico e consolidou capacidades tecnológicas raras em agricultura tropical. Esses resultados sustentam boa parte da narrativa do agro herói.
Mas o mesmo movimento ocorreu simultaneamente à expansão sobre novas fronteiras, à valorização da terra, a mudanças intensas no uso do solo, à concentração de oportunidades produtivas e ao agravamento de pressões ambientais em determinados territórios. Em alguns contextos, também esteve associado à redução da demanda por trabalho direto e ao aprofundamento de desigualdades entre produtores capazes — ou não — de incorporar tecnologia. Esses processos alimentam a narrativa do agro vilão.
Isso não significa que ganhos produtivos e problemas sociais ou ambientais sejam equivalentes, tampouco que inovação produza automaticamente degradação. Significa algo mais desconfortável: frequentemente aquilo que admiramos e aquilo que criticamos no agro brasileiro deriva da mesma trajetória histórica de transformação.
É por isso que a pergunta “herói ou vilão?” produz respostas tão polarizadas: porque ela pressupõe uma escolha entre histórias separadas e é desconfortável admitir que, muitas vezes, estamos falando da mesma história.
Quando termina a torcida, começa o problema
Depois de tantas controvérsias, talvez a pergunta inicial — o agro brasileiro é herói ou vilão? — ainda mereça uma resposta. A resposta curta seria desconfortável para ambos os lados do debate porque há razões concretas para reconhecer no agro brasileiro um dos mais importantes processos de transformação produtiva do século XX — com inegáveis benefícios econômicos e sociais — e para criticar trajetórias associadas à expansão predatória sobre determinados territórios, conflitos persistentes pelo uso da terra, pressões ambientais, desigualdades e dificuldades históricas de coordenação institucional.
Ignorar qualquer um desses lados significa trocar análise por torcida. E torcidas raramente conversam ou produzem reflexão crítica; tendem apenas a reforçar convicções entre os próprios iniciados.
Para iniciar uma conversa séria sobre o agro seria preciso que aqueles que o enxergam predominantemente como vilão reconheçam que a agricultura brasileira acumulou capacidades científicas, produtivas e tecnológicas raras, construiu parte importante da competitividade do país e produziu transformações econômicas que dificilmente podem ser descartadas como irrelevantes ou meramente destrutivas.
Para aqueles que defendem o agro herói entrarem na conversa, o desafio é diferente. É preciso reconhecer que a defesa da agricultura brasileira não pode depender apenas de slogans, campanhas institucionais ou marketing setorial. Tampouco da expectativa de que ganhos de produtividade ou inovação tecnológica, por si sós, resolvam tensões ambientais, fundiárias ou distributivas acumuladas ao longo do tempo.
Se parte da sociedade passou a enxergar o agro predominantemente pelo prisma do vilão, isso não decorre apenas de desconhecimento ou preconceito urbano. Em alguma medida decorre também de problemas reais, persistentes e visíveis, que continuam produzindo desgaste reputacional e alimentando narrativas simplificadoras.
Isso exige algo mais difícil do que comunicação. Exige reconhecer contradições, isolar práticas predatórias, enfrentar ilegalidades, reduzir ambiguidades no discurso sobre sustentabilidade e admitir que competitividade futura dependerá cada vez mais da capacidade de compatibilizar produção, reputação e governança. O problema é que torcidas raramente fazem autocrítica!
Países que conseguiram sustentar processos duradouros de desenvolvimento fizeram algo diferente: transformaram tensões em agenda de correção, e não em disputa permanente entre narrativas rivais. Talvez aí esteja uma conversa mais útil para o Brasil. Não decidir se o agro é herói ou vilão. Mas perguntar quais condições permitem ampliar aquilo que admiramos e reduzir aquilo que continuamos criticando — frequentemente dentro da mesma história. Porque, no caso do agro brasileiro, heróis e vilões muitas vezes compartilham a mesma origem.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
