Sempre entendi a igualdade afirmada pela Constituição Cidadã como parte de um projeto de país que ainda temos de construir. Em uma sociedade historicamente marcada pela concentração da riqueza, dar consequência a esse princípio exige diminuir o peso que o lugar de nascimento, a renda e a escolaridade dos pais exercem sobre o futuro dos filhos. A educação tem um papel fundamental nessa tarefa!
Sabemos que a escola, sozinha, não resolverá desigualdades acumuladas ao longo de séculos. Mas é razoável esperar que todas as crianças encontrem nela condições para aprender e desenvolver suas capacidades, e que aquelas que chegam com maiores dificuldades recebam o apoio diferencial de que precisam. Sem isso, como poderão ter oportunidades menos desiguais ao longo da vida?
Desde a Constituição, o Brasil avançou muito ao ampliar o acesso à educação. Milhões de crianças e jovens passaram a frequentar escolas e universidades das quais as gerações anteriores haviam sido excluídas. São conquistas que precisam ser reconhecidas. Mas os progressos na aprendizagem continuam profundamente desiguais, e os resultados do Pisa 2025 nos obrigam a examinar o que falta para que a educação cumpra sua parte naquele projeto de país.
Uma década no mesmo lugar
Os resultados do Pisa 2025 indicam uma estagnação prolongada da educação brasileira em patamares muito baixos, com desempenho próximo ao de 2015. Mais do que a posição brasileira na classificação internacional ou o desempenho negativo de muitos países desenvolvidos, o que preocupa é a quantidade de jovens que atravessam tantos anos de escolarização sem desenvolver as capacidades básicas necessárias para continuarem aprendendo e enfrentarem situações comuns da vida na dita “sociedade do conhecimento”. Apenas 28% dos estudantes de 15 anos alcançaram o nível mínimo de proficiência em matemática; em leitura, foram 49%, e em ciências, 48%. Uma década nessas condições compromete as possibilidades de uma geração inteira.
Ilhas de progresso
A estagnação das médias nacionais esconde situações díspares e experiências que merecem ser reconhecidas. Há escolas e redes públicas que alcançam bons resultados, inclusive em regiões pobres, e professores que conseguem ensinar em condições muito adversas. Esses casos mostram que sabemos fazer boa educação. Não precisamos ir à Finlândia buscar modelos quando temos, aqui mesmo, experiências com as quais aprender. Claudio de Moura Castro, um dos principais especialistas em educação do país, destaca o exemplo de Sobral, com resultados de iniciativas bem orientadas e sustentadas ao longo do tempo.
O problema é que esses avanços permanecem localizados. Uma gestão competente melhora uma rede municipal; uma equipe bem-preparada transforma uma escola; um governo organiza programas que começam a produzir resultados. Depois, muda o governo, mudam as pessoas, as prioridades e, por vezes, as próprias políticas. O conhecimento acumulado não se converte em capacidade permanente, e aquilo que funcionou em determinado lugar raramente se espalha com a velocidade e a continuidade necessárias.
Nas conversas sobre avaliação de políticas públicas, publicadas nesta coluna, discutimos que identificar bons resultados e compreender suas condições deveria ajudar o Estado a aperfeiçoar suas ações. Mas transformar esse aprendizado em decisões, recursos e continuidade depende da política. Se conseguimos produzir escolas e redes de qualidade, por que não conseguimos fazer com que deixem de ser exceções?
A desigualdade chega antes
Como dissemos acima, em um país historicamente marcado pela concentração da riqueza, a escola e a educação deveriam contribuir para reduzir as desigualdades de berço e oferecer às crianças condições de formação que tornassem seu futuro menos dependente da renda e da escolaridade dos pais.
Os resultados do Pisa são especialmente graves sob esse olhar. Entre 2015 e 2025, o desempenho em ciências melhorou entre os estudantes brasileiros de condição socioeconômica mais favorecida e permaneceu estagnado entre os mais desfavorecidos. A distância entre eles aumentou. A educação avançou justamente entre aqueles que já dispunham de melhores condições, enquanto os que mais dependiam dela continuaram no mesmo lugar.
As diferenças começam muito antes da primeira aula. Alimentação, moradia, acesso à saúde, escolaridade dos pais e contato com livros e outros estímulos influenciam o desenvolvimento das crianças. Algumas chegam à escola com um repertório amplo e encontram em casa ajuda para enfrentar as dificuldades. Outras dependem quase inteiramente do que a escola oferece. Essas diferenças se acumulam, e uma dificuldade que poderia ser superada com apoio no momento certo pode comprometer anos de aprendizagem.
Tenho pensado nisso ao estudar com minha neta Beatriz, que cursa o 6º ano em uma escola privada. Ela conta com o apoio da família e com alguém que pode sentar-se ao seu lado para esclarecer uma dúvida. Muitas crianças não têm essa possibilidade. Seus pais podem valorizar profundamente a educação, mas não dispor de tempo, escolaridade ou recursos para oferecer a mesma ajuda. Se aprender depende tanto desse complemento, as condições familiares continuam decidindo quem consegue acompanhar o ensino e quem fica para trás.
A escola não criou essas desigualdades, mas precisa estar preparada para lidar com elas. As crianças que chegam com maiores dificuldades necessitam de mais atenção e apoio, de professores preparados e de condições para estudar que muitas vezes não encontram em casa. Esperar que todas respondam da mesma maneira às mesmas exigências é desconsiderar o ponto de partida de cada uma. Aceitar que algumas aprendam menos por serem pobres é renunciar à função que a educação deveria cumprir naquele projeto de país.
É nesse sentido que os resultados revelam um fracasso que as ilhas de excelência não compensam. As desigualdades de berço atravessam a escola e reaparecem nas possibilidades de continuar estudando, de trabalhar e de participar da vida pública. A promessa de igualdade permanece distante quando a educação contribui tão pouco para aproximar as condições em que cada nova geração começa sua trajetória.
O valor que damos à educação
Reconhecer o peso das condições materiais não esgota a discussão. É preciso considerar também o valor atribuído à educação nas escolhas cotidianas, inclusive entre as famílias que dispõem de recursos. A preocupação com a matrícula, as notas e o diploma nem sempre se traduz em atenção ao que os filhos aprendem. Pagar uma escola tampouco dispensa acompanhar a formação das crianças.
Aprender exige tempo, concentração, persistência e disposição para enfrentar dificuldades. Cabe aos adultos ajudar as crianças a desenvolver esses hábitos e reconhecer a importância do trabalho dos professores. Quando as exigências escolares são tratadas como excessivas e qualquer contrariedade dos filhos se transforma em cobrança contra a escola, fica mais difícil construir essa relação. Precisamos discutir esses comportamentos sem confundir acolhimento com ausência de exigência ou autoridade com autoritarismo.
A escola precisa ajudar as famílias a participar, considerando os horários de trabalho, a escolaridade dos responsáveis e as dificuldades de comunicação. Uma família pode não saber explicar uma operação matemática e, ainda assim, incentivar o estudo, acompanhar a frequência e procurar ajuda. A escola precisa tornar essa participação possível.
A valorização da educação envolve ainda uma responsabilidade coletiva. Para quem consegue assegurar uma boa formação aos próprios filhos, o problema pode parecer resolvido. Mas o futuro do país depende também da educação das crianças que frequentam outras escolas e vivem em outros bairros. Enquanto a qualidade do ensino permanecer uma preocupação que cada família procura resolver conforme suas possibilidades, será difícil construir a pressão social necessária para que ela se torne um compromisso duradouro dos governos.
O futuro não espera
Tratar a educação como prioridade de fato exige sustentar escolhas cujos resultados ultrapassam os mandatos. Um governo precisa estar disposto a continuar o trabalho de outro e a investir em avanços pelos quais talvez não receba reconhecimento. Esse compromisso depende da política e da cobrança persistente da sociedade.
Compreender um texto, avaliar informações e formular o próprio julgamento são condições para o exercício da cidadania. A democracia depende de pessoas capazes de compreender seus direitos, participar da vida pública e conviver com quem pensa de maneira diferente. A desigualdade educacional limita a possibilidade de construirmos uma sociedade de cidadãos efetivamente iguais.
Alguns leitores dos meus últimos artigos têm me cobrado, com razão, que eu não me limite aos diagnósticos. Não sei oferecer uma fórmula para resolver problemas construídos ao longo de décadas. Na educação, porém, conhecemos a importância de cuidar da primeira infância, alfabetizar no momento certo, formar e valorizar professores, apoiar escolas e estudantes vulneráveis, aproximar as famílias e preservar políticas que produzem bons resultados. Transformar esse conhecimento em um compromisso político capaz de atravessar governos continua sendo o desafio. Enquanto isso, as crianças crescem, e a infância não espera.
Os resultados do Pisa me remetem à pergunta de Renato Russo, cantada por milhares de pessoas no Rock in Rio e ainda pertinente quase meio século depois. Que país é esse que afirma considerar a educação uma prioridade e continua aceitando que o lugar de nascimento determine tão fortemente as possibilidades de cada criança?
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
Foto de capa:

