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Vamos conversar sobre um debate ainda necessário?

Mesmo reconhecendo que o Brasil não ficou parado, o incômodo maior é constatar que, apesar dos avanços, em vários aspectos nos atrasamos em relação às transformações do mundo.

Há alguns dias voltei a folhear o Livro Verde de Ciência, Tecnologia e Inovação, publicado em 2001 como documento de referência para a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Coordenado por Cylon Gonçalves da Silva e Lúcia Carvalho Pinto de Melo, o documento resultou de um amplo esforço de reflexão sobre o papel da ciência, da tecnologia e da inovação no futuro do país. Participei daquele processo de perto, coordenando a equipe técnica responsável pela concepção e redação do texto.

O subtítulo do Livro Verde era direto: Ciência, Tecnologia e Inovação: desafio para a sociedade brasileira. Logo na introdução, aparecia uma expressão que talvez sintetize melhor o espírito daquele esforço: “o debate necessário”. A ideia era simples e ambiciosa ao mesmo tempo. O Brasil precisava discutir, com alguma profundidade, qual deveria ser o lugar do conhecimento, da ciência, da tecnologia e da inovação em seu projeto de desenvolvimento.

Lembranças pessoais exigem cuidado. Não posso negar que a releitura tenha provocado alguma nostalgia e até uma ponta de vaidade diante de uma obra que marcou um momento importante de reflexão sobre o país. Mas, superada essa primeira impressão — bem humana —, o sentimento que se impôs não foi a satisfação de reencontrar um texto do passado, que também foi um marco na minha trajetória pessoal e profissional. Foi principalmente o desconforto de perceber que muitas das perguntas ali formuladas continuam abertas. Mesmo reconhecendo que o Brasil não ficou parado, o incômodo maior é constatar que, apesar dos avanços, em vários aspectos nos atrasamos em relação às transformações do mundo.

Um país que avançou

A ciência brasileira se expandiu. A pós-graduação cresceu. A produção científica ganhou densidade em muitas áreas. Instituições importantes se consolidaram. As fundações estaduais de amparo à pesquisa ampliaram seu papel em vários estados. A agricultura tropical avançou apoiada em pesquisa, tecnologia e capacidade organizacional. A saúde pública, apesar de suas dificuldades, mostrou força científica e institucional em momentos críticos. A agenda ambiental, antes tratada muitas vezes como tema lateral, tornou-se central. Novas empresas, redes, laboratórios e competências surgiram. O vocabulário da inovação deixou de ser estranho à política pública, à universidade e ao setor produtivo.

Mas foi, como tantas vezes ocorre entre nós, um progresso à brasileira: real e relevante, mas incompleto, assimétrico e marcado por descontinuidades. Avançamos em algumas áreas e ficamos para trás em outras. Construímos ilhas de excelência, mas nem sempre conseguimos conectá-las ao conjunto da economia e da sociedade. Criamos capacidades importantes, mas frequentemente as submetemos à instabilidade orçamentária, à fragmentação administrativa e à oscilação das prioridades políticas.

Por isso, reconhecer avanços não elimina o desconforto. Ao contrário, torna-o mais sério. O problema já não pode ser formulado como simples ausência de capacidades. O Brasil tem universidades, institutos de pesquisa, empresas inovadoras, pesquisadores respeitados, experiências bem-sucedidas e ativos naturais, produtivos e institucionais relevantes. A questão é outra: como transformar essas capacidades em direção estratégica? Como converter conhecimento em desenvolvimento? Como fazer da ciência, da tecnologia e da inovação não apenas uma política setorial, mas parte constitutiva de um projeto nacional?

Mais que um documento de ciência e tecnologia

A releitura mostrou que o Livro Verde não foi apenas um inventário do sistema brasileiro de ciência e tecnologia. Tampouco uma lista de demandas da comunidade científica, embora reconhecesse a importância de fortalecer universidades, institutos de pesquisa, laboratórios, agências de fomento e recursos humanos qualificados. Sua ambição era maior: pensar a ciência, a tecnologia e a inovação como dimensões constitutivas de um projeto para o Brasil.

Isso aparecia na própria arquitetura do documento. Ao lado dos temas mais diretamente associados à política científica e tecnológica, estavam questões como qualidade de vida, desenvolvimento econômico, educação, inclusão social, meio ambiente, desenvolvimento regional, capacidade produtiva, inserção internacional e desafios institucionais. O que estava em jogo não era apenas como produzir mais conhecimento, mas como transformá-lo em bem-estar, soberania, democracia e desenvolvimento.

Nesse sentido, o Livro Verde expressava uma ideia que continua atual: ciência, tecnologia e inovação não podem ser tratadas como um setor à parte, nem como ornamento de discursos modernizantes. Elas atravessam a saúde, a agricultura, a indústria, a energia, a educação, a defesa, o meio ambiente, a vida urbana, o trabalho e a comunicação pública. A pergunta de fundo era que país queríamos construir e que capacidades precisaríamos desenvolver para não sermos apenas consumidores tardios de tecnologias, modelos produtivos e agendas definidas fora do Brasil.

Esse projeto estava longe de ser fechado ou acabado. Era, antes, uma convocação ao debate. Mas tinha uma qualidade que hoje faz falta: procurava articular futuro, conhecimento e desenvolvimento nacional. Falava de competitividade, mas também de inclusão. De inovação, mas também de desigualdade. De inserção internacional, mas também de autonomia. De crescimento econômico, mas também de qualidade de vida. De instituições científicas, mas também de sociedade.

Muitos desses temas continuam no centro da agenda brasileira. A formação de recursos humanos de alto nível, a inovação nas empresas, a redução das desigualdades regionais, a educação científica, a transição energética, a sustentabilidade ambiental, a agregação de valor à biodiversidade, a soberania em áreas tecnológicas críticas, a articulação entre universidade e setor produtivo e a construção de instituições capazes de coordenar estratégias de longo prazo seguem como desafios abertos. Sem um projeto capaz de integrar essas dimensões, o país continuará acumulando competências importantes sem transformá-las plenamente em desenvolvimento.

Perguntas que permanecem abertas

O incômodo é que essas questões permaneceram abertas enquanto o mundo mudava de escala. Não se trata de cobrar do passado respostas para problemas que ainda não existiam, nem de supor que o Livro Verde pudesse antecipar tudo. Trata-se de perceber que antigas fragilidades brasileiras foram sendo atravessadas por novas urgências.

Em 2001, a internet ainda era promessa em expansão, a biotecnologia mobilizava esperanças e controvérsias, a nanotecnologia aparecia como fronteira emergente, e a mudança climática ainda não estruturava a política e a economia como hoje. Agora falamos de inteligência artificial, plataformas digitais, transição energética, emergência climática, bioeconomia, novas disputas geopolíticas, cadeias produtivas fragmentadas, semicondutores, segurança alimentar, soberania sanitária e tecnologias críticas. O vocabulário mudou. A urgência aumentou. Mas a pergunta de fundo permanece: o Brasil será apenas usuário tardio de tecnologias produzidas fora ou será capaz de disputar trajetórias próprias, combinando conhecimento, produção, inclusão e sustentabilidade?

Essa pergunta é ainda mais decisiva porque ciência e tecnologia já não ocupam apenas laboratórios, universidades ou departamentos especializados. Elas organizam a vida cotidiana, a economia, a comunicação pública, o trabalho e a própria democracia. A desinformação, a dependência de plataformas, a precarização mediada por tecnologia, a vigilância digital, a crise climática e a competição por recursos estratégicos mostram que inovação não é neutra nem automaticamente virtuosa. Ela precisa ser orientada por valores, instituições e escolhas públicas.

A continuidade que faltou

O Livro Verde talvez tenha envelhecido em várias respostas. Seria estranho se isso não tivesse ocorrido, porque documentos estratégicos não são escritos para permanecer intocados. O próprio texto reconhecia que as diretrizes para uma década precisariam ser revistas antes que a década terminasse. O que mais importava era perenizar o debate e preservar o enfoque estratégico das políticas de ciência, tecnologia e inovação.

É precisamente aí que está sua permanência. O debate continua necessário porque o Brasil ainda oscila entre grandes ambições e baixa capacidade de execução continuada. Somos capazes de produzir diagnósticos sofisticados, mas temos dificuldade de convertê-los em direção. Criamos instituições relevantes, mas frequentemente as submetemos à instabilidade orçamentária e à fragmentação administrativa. Celebramos casos de sucesso, mas nem sempre aprendemos com as condições que os tornaram possíveis. Reconhecemos a importância da inovação, mas ainda hesitamos em enfrentar os obstáculos que limitam sua difusão no tecido produtivo e na vida social.

Reabrir essa conversa não significa voltar a 2001. Significa partir do que se construiu desde então e perguntar, com menos ingenuidade e mais urgência, o que ainda falta construir. O Brasil de hoje é mais complexo, mais urbano, mais conectado, mais exposto às transformações globais e mais pressionado por crises ambientais, tecnológicas e sociais. Também dispõe de capacidades que não tinha, ou que tinha em menor escala. Justamente por isso, não pode se contentar com respostas pequenas.

Ao reler o Livro Verde, não me pareceu que sua principal contribuição tenha sido prever o futuro. Ninguém prevê o futuro com tanta antecedência. Sua contribuição foi afirmar que o futuro precisava ser discutido como tarefa coletiva. Vinte e cinco anos depois, essa talvez seja a lição mais atual: ciência, tecnologia e inovação só se tornam força transformadora quando fazem parte de um projeto de sociedade.

A conversa era necessária. Continua sendo — talvez agora mais do que outrora.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


Foto de capa:

Placa de múltiplos poços com tampas azuis, posicionada dentro de um equipamento de laboratório com painel preto e indicadores luminosos, ao lado de uma placa branca com poços vazios, sob iluminação de trabalho.
A questão é outra: como transformar essas capacidades em direção estratégica?
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