Inovação é uma dessas palavras que muita gente – acadêmicos, empresários, formuladores de políticas públicas, estudantes, trabalhadores … – usa nas conversas, formais e informais; uma ideia que parece fazer parte da nossa cultura. As inovações inegavelmente modificam nossas vidas e a sociedade; os aviões, por exemplo, foram inventados e viraram inovação quando essas invenções revolucionaram o transporte. O mesmo se pode dizer do telefone (aquele fixo de antigamente) ou de sua versão mais moderna, o celular, e, claro, do mais recente smartphone, que começou a engatinhar nos anos 1990, mas que, da primeira década do nosso século até agora, já chegou à quinta geração. Esses aparelhos mudaram e continuam mudando irreversivelmente o contato entre as pessoas e destas com o mundo.
“As inovações, produtos de mudanças tecnológicas, resultam de embates e negociações entre as partes interessadas: inventores, produtores, usuários e governos […]. A adoção pela sociedade de novos dispositivos tecnológicos é um relacionamento de formatação mútua, na qual a tecnologia acomoda, mas também transforma, práticas sociais existentes. O uso dessas inovações é um complexo construído de hábitos, crenças e procedimentos embebidos em códigos culturais” [1].
Uma vez colocada a complexidade das inovações, o que se vê predominantemente é uma explosão da aplicação de uma ideia de inovação, muitas vezes com slogans que divergem bastante da citação acima. Temos aqui o Rio Innovation Week [2], cujo sucesso da edição de 2025, consolidou o evento “como referência mundial em inovação, tecnologia e negócios”. Em 2026 teremos também a São Paulo Innovation Week [3], cujo material de divulgação promete: “O melhor festival global de tecnologia e inovação aterrissa em uma das cidades mais potentes do mundo”. Campinas também tem a sua “innovation week”, e imagino que semanas de inovação devem existir em outros rincões brasileiros também.
A inovação está presente nas universidades, onde temos disciplinas de inovação e empreendedorismo (o “motor da inovação”) nos currículos, além de agências de inovação. Os adventos mais recentes parecem ser a “Universidade 4.0” e a “universidade de quarta geração”. A primeira, resumidamente, de acordo com a IA do Google, “é a evolução do ensino superior alinhada à Quarta Revolução Industrial, focando na personalização da aprendizagem, inteligência artificial (IA), big data e metodologias ativas”. Já a universidade de quarta geração, novamente apelando para o resumo dessa ferramenta da universidade 4.0 (IA), “uma Universidade de Quarta Geração representa a evolução mais recente do ensino superior, onde a instituição deixa de ser apenas um centro de ensino ou pesquisa para se tornar uma catalisadora de ecossistemas de inovação regional”. São bordões que seduzem e, portanto, por que não os adotar?
Sobre o 4.0 há uma vasta literatura propositiva; quanto à quarta geração, ela tem sido adotada como visão de universidades mundo afora. Parece tudo promissor, mas algo deveria ser mais bem discutido. Por um lado, empresta-se à universidade uma identidade dada pelo modelo da indústria 4.0. A universidade de quarta geração transforma a universidade em algo dentro de um ecossistema [4] e ninguém pergunta a respeito do impacto disso sobre a autonomia universitária. Talvez mais espantoso seja a simplificação da complexa história da universidade para justificar a tal quarta geração. A primeira geração era focada apenas no ensino, a segunda teria como pilar central a pesquisa, a terceira é a “universidade empreendedora”, e a quarta, uma “evolução”, na qual a universidade “orquestra um ecossistema”.
A universidade ainda é um espaço de pensamento crítico, mas é difícil encontrar discussões críticas sobre esse conjunto de eventos, iniciativas e modelos. A inovação não tem desvantagens, por exemplo? O que chamamos sem muita reflexão de inovação seria de fato uma inovação real? A inovação não corre o perigo de ser um fim em si mesma ou uma ideologia? É bom lembrar que perguntar não ofende. Não posso dar uma resposta a essas questões, só compartilhar o desconforto de como conceitos e preceitos vão sendo adotados sem levantar questionamentos. Mas eles existem, ainda que minoritários, e neste contexto encontra-se um instigante livro do qual empresto o título acima: Empty innovation – causes and consequences of society’s obsession with entrepeneurship and growth (“Inovação vazia – causas e consequências da obsessão da sociedade com o empreendedorismo e o crescimento”), do sociólogo sueco Olof Hallonsten. O livro descreve um problema importante, usando uma ampla literatura também crítica: o quanto uma série de encadeamentos de iniciativas promovem de fato a inovação real, em vez de uma inovação vazia, que tem cara de inovação, mas não é (inovacionismo).
Quem se interessar pode acessar o livro livremente [5]. Acredito que a discussão vale a pena para não cair na armadilha de fazer mais do mesmo, e que com métricas simples podemos nos convencer de que se faz o que na verdade não é feito. Vida longa à inovação, quando ela é real.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] Texto adaptado de um artigo da socióloga Amparo Lasen em que ela compara o surgimento e
usos dos celulares ao dos telefones fixos.
[2] https://rioinnovationweek.com.br/
[3] https://saopauloinnovationweek.com.br/
[4] https://www.elsevier.com/about/press-releases/understanding-the-4th-generation-university
[5] https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-031-31479-7
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