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Tulipas

"Anatomia, fisiologia, alquimia e botânica aguçam-me os sentidos para conhecer um pouco mais sobre a natureza, e Rembrandt, por meio de sua arte, consegue se aproximar de tal revelação."

Rembrandt. Pobre Rembrandt. Em visita a Amsterdã, conheci Rembrandt van Rijn, de quem me tornei confidente. Chamo-me Franciscus de le Boë e cuido do Hortus Botanicus da Universidade de Leiden. Devido ao apreço que nutro por este hortus medicus e por bosques, adotei o nome Franciscus Sylvius, pois quem não sustenta uma alcunha latina pomposa não é ninguém. Dado o meu interesse pelo corpo humano, testemunhei colegas sendo retratados por Rembrandt, no ano de 1632, em “A lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp”.

Anatomia, fisiologia, alquimia e botânica aguçam-me os sentidos para conhecer um pouco mais sobre a natureza, e Rembrandt, por meio de sua arte, consegue se aproximar de tal revelação. Sou pupilo de Adolphus Vorstius, que dirige o Hortus Botanicus. Adolphus sucedeu o pai, Aelius Vorstius, igualmente físico, na condução e na preservação deste jardim, criado em 1590, pelo não menos respeitado botânico francês Charles de l’Écluse (e, óbvio, com o nome latino Carolus Clusius). Ao estabelecer o jardim botânico, Clusius trouxe batata, tomate, tabaco das Américas, cultivou dedaleira, mandrágora, alecrim e tomilho, incluindo narcisos e jacintos. Foi ele quem plantou os primeiros bulbos de tulipas em nosso jardim, a ele presenteados pelo embaixador na corte de Soliman, Ghislain de Brusbecq, após viagem a Constantinopla. Dizem que Clusius morreu de tristeza quando soube que parte de suas tulipas foram furtadas, passando a ser cultivadas sem qualquer esmero.

O fato é que as tulipas estão aí. Clusius interessava-se pelas propriedades medicinais das plantas, criando, por assim dizer, a botânica médica, agora conduzida por nós, da Universidade de Leiden, por onde também passou Claes Pieterszoon, o Dr. Nicolaes Tulp. Sua paixão por tulipas é tão intensa, que, não contente em adornar tanto sua carruagem quanto sua morada com tulipas, adotou-as no brasão e no próprio sobrenome, pois Tulp nada mais é do que Tulipa. Se o Dr. Tulipa pode ostentar a flor em seu encanto, por que não a trazer enquanto símbolo de poder e riqueza? Seja o que for, o Dr. Tulipa, grato por ter sido eternizado a pinceladas por van Rijn, apresentou-nos a Rombertus van Uylenborch, burgomestre de Amsterdã. E os olhos de van Rijn não se coloriram pelas flores de Rombertus, mas por sua filha Saskia. Apaixonaram-se e em 1634 estavam enlaçados em matrimônio, eternizado em “Flora”. Rembrandt retratou Saskia como Flora, deusa romana da primavera, portando um vestido que se aproxima do exótico e, com a mão direita, sustentando um cetro decorado por flores.

O que se destaca na pintura de Saskia é uma grinalda e, nesta, uma tulipa, que sobressai da coroa de flores, paira sobre sua orelha esquerda. Essa tulipa é a rainha dos jardins, pois se apresenta com um padrão de listras, com contrastes acentuados de cores. A beleza, a joia, a raridade, cujo acesso se restringe a deusas e aos apaixonados, não atingiram apenas a vaidade do Dr. Tulipa. Pobre Rembrandt. Mal imaginava que a tulipa retratada, a Semper Augustus, estava nas mãos de um único proprietário, cujo valor, em 1623, residia em mil florins por bulbo, alcançando três mil florins em 1625. E, tempos depois, os preços aumentaram em mais de vinte vezes em menos de um mês. “Flora”, em claro-escuro, viceja as listras flamejantes no vermelho/branco/amarelo da tulipa quebrada de Rembrandt, enfeitiçando a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos. Nessa mesma época, os floristas buscavam cada vez mais tulipas diferenciadas. Ter algo único não tem preço, mesmo que beire à impossibilidade. Surgiram pessoas, com vínculos aos dividendos das Companhias das Índias Ocidentais e Orientais, que passaram a comprar os bulbos, todavia não para os plantar, mas para os vender como promessa de lucros no futuro, a ponto de, no final do ano passado, o contrato de compra de bulbos raros ter o valor equivalente à de residência do burgomestre de Amsterdã. Isso sem contar aquele que vendeu sua terra para comprar bulbos. Como? Haverá de plantá-los no céu ou na insanidade? Jamais presenciei tal fato: comprar o que não existe, endividar-se pela ganância, corromper-se pela riqueza imediata e vender a própria dignidade.

Tulipa, turbante gracioso, floresce anos após o plantio. Quando aflora, sua exuberância permanece por dois meses. O cuidado assentado no bulbo ao longo da espera, feito casulo a enclausurar uma bela mariposa. Assim o comprador deposita sua cupidez numa borboleta, que corre o risco de não voar. Contrai dívidas, contudo acredita em sua tulipa. Semper Augustus, pois assim a tulipa rara, como os seres humanos, precisa de um nome augusto e majestoso. Hoje é 2 de março de 1637. Soube que as negociações de compra futura de tulipas, tanto em Amsterdã quanto em Haarlem, colapsaram, com preços antes a de castelos hoje menos do que a de confinamento de porcos. Não mais se honram palavras e compras. No afã de entender as razões, procurei por Renatus Cartesius, aqui em Leiden. Claro, o nome é latino, pois ele é o francês René Descartes, que buscou me elucidar quanto à superação do erro a partir do penso, logo existo. Ou seja, a especulação das tulipas foi um erro, pois resvala no irracional? Seria isso? Descartes não respondeu, todavia me passou um manuscrito, “Discurso sobre o Método”, a ser publicado este ano. Pediu-me sigilo, visto que a intenção é a do anonimato. Além da obra cartesiana, o que mais 1637 nos reserva? Nisso, Willem Piso e Georg Marcgraf visitam-me no Hortus Botanicus. Pergunto-lhes das novidades, desde que não sejam sobre tulipas. Singrarão o Atlântico, convidados por Johan Maurits van Nassau-Siegen, da West-Indische Compagnie, para chegar a terras conquistadas em 1630. Dizem-me que Maurício de Nassau aportou no Brasil e os aguarda em breve. “Levarão tulipas?”, pergunto. Talvez, mas o interesse – tenho como resposta – é cana-de-açúcar ou um novo brandewijn, o vinho de cana conhecido como cachaça pelos autóctones.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.

Foto de capa:

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