Conteúdo principal Menu principal Rodapé

Ciência com brinquedos

Os instrumentos fundamentais utilizados na chamada revolução científica do século XVII, o telescópio e o microscópio, aparecem em versões de plástico em algumas lojas

Crianças e adolescentes passaram a brincar com ciência desde o século XIX e, durante décadas, kits de experimentos científicos ou de construção de máquinas e equipamentos em miniatura foram objetos de desejo de crianças nos aniversários e natais[i]. Esses brinquedos ressurgem às vezes no emaranhado das memórias afetivas de pessoas que não pararam de brincar e acabaram como profissionais nas searas científicas[ii].

Os instrumentos fundamentais utilizados na chamada revolução científica do século XVII, o telescópio e o microscópio[iii], aparecem em versões de plástico em algumas lojas de brinquedo, enquanto na fronteira da ciência são utilizadas versões cada vez mais sofisticadas, que pouco lembram aqueles de séculos atrás. Mas seria possível o caminho inverso: brinquedos que se transformam em instrumentos da ciência? E não naquela era já remota, mas em tempos mais recentes ou mesmo hoje em dia?

Imagem da tese de Thomas Ritchie com peças do jogo Meccano
Imagem da tese de Thomas Ritchie com peças do jogo Meccano

Dois exemplos sugerem essa possibilidade, curiosa, mas longe de uma proposta de caminho metodológico. O primeiro remonta aos primórdios da mecânica quântica e dos computadores, há um século, com um brinquedo tecnicamente sofisticado. O segundo retoma um brinquedo popular e barato.

A famosa equação de Schrödinger, do início de 1926, descreve o comportamento do mundo quântico. O primeiro teste, apresentado por Erwin Schrödinger, foi resolvê-la para o átomo de hidrogênio, reproduzindo os níveis de energia do único elétron desse átomo, obtidos por Niels Bohr treze anos antes. Mas a nova equação ia além: mostrava como esse elétron, que não é mais uma bolinha, se distribuía pelo átomo de acordo com sua energia. Essa famosa equação diferencial parcial em princípio se aplica a todo o mundo microscópico. No entanto, o átomo de hidrogênio tem só um elétron, e a equação nesse caso tem uma solução exata, obtida apenas com lápis e papel. E os outros átomos com vários elétrons, sem falar nas moléculas? São os “problemas de muitos corpos”, sem solução exata, apenas aproximada e, pior: resolver um único problema desses só com papel e lápis levaria anos.

Imagem da tese de Thomas Ritchie com o analisador diferencial de um grande fã do jogo Meccano, Tim Robinson
Imagem da tese de Thomas Ritchie com o analisador diferencial de um grande fã do jogo Meccano, Tim Robinson

Faltava então uma máquina para resolver essas equações mais rapidamente: o analisador diferencial, um equivalente mecânico dos computadores que vieram depois. O funcionamento baseava-se em conjuntos de discos e rodas acopladas por eixos, engrenagens e amplificadores de torque, que realizavam o que em matemática se chama de integrações. É o mesmo princípio dos diferenciais dos automóveis. O primeiro analisador diferencial de uso prático foi construído no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o famoso MIT) por Harold Locke Hazen e Vannevar Bush no final dos anos 1920 e 1931. Enfim uma máquina para resolver equações diferenciais!

Mas e a equação de Schrödinger? Um jovem físico inglês na época, Douglas Hartree, propôs já em 1927 um procedimento para resolver a tal equação, levando em conta a interação entre os elétrons em um átomo com vários deles. Era chamado de método do campo autoconsistente. Mas era tedioso para calcular, pois começa-se com um, digamos, “chute” inicial, e o resultado obtido virava o “chute” de um novo cálculo, cujo resultado era um novo “chute”. Até que, depois de muitos passos, o resultado era igual ao último “chute”, e pronto, esse era o resultado final. Belíssima ideia, mas como implementá-la? Hartree trouxe a ideia do analisador do MIT para o Reino Unido e construiu, junto com o estudante Edward Porter, o “primeiro analisador diferencial fora dos Estados Unidos” para fazer os cálculos do seu método. E aí é que entrou o brinquedo: o equipamento de Hartree foi construído com peças do Meccano, um jogo com componentes metálicos para montar carros, trens, guindastes, máquinas em miniatura. Foi tão bem-sucedido que outros computadores foram construídos usando o mesmo brinquedo.

A história toda foi esmiuçada por Thomas Ritchie em sua tese de doutorado de 2019: “Identidade do objeto: desconstruindo o analisador diferencial de Hartree e reconstruindo um computador analógico Meccano”[iv]. Antes dessa tese, Tim Robinson havia reconstruído o computador de Hartree do mesmo jeito como havia sido feito originalmente[v]. Pode ser uma ideia interessante como projeto interdisciplinar de ensino ciências e, na falta das peças de Meccano, poderia ser usada uma impressora 3D.

Menina brincando com um corrupio e Manu Prakash mostrando o seu, que virou instrumento científico
Menina brincando com um corrupio e Manu Prakash mostrando o seu, que virou instrumento científico

Esse foi um problema complexo resolvido com um brinquedo sofisticado. Mas o que fazer com um simples corrupio? O brinquedo popular, presente em várias culturas, é o que a menina na ilustração tem nas mãos: um disco atravessado por barbante em dois orifícios gira alegremente, quando o barbante torcido é puxado, esticando e voltando a se torcer de modo contínuo.

Manu Prakash, bioengenheiro da Universidade Stanford, usou o corrupio para resolver um problema crucial: construção de centrífugas superbaratas acionadas a mão (sem uso de eletricidade) para análise de amostras de sangue em comunidades isoladas. O bioengenheiro e estudantes de seu grupo passaram a estudar a física desse brinquedo e conseguiram que alcançasse mais de 100 mil rotações por minuto, suficiente para separar o plasma do resto do sangue em um minuto e meio e isolar parasitas da malária em 15 minutos. A amostra de sangue colhida da ponta de um dedo é colocada em um tubo capilar que é preso ao longo do raio do disco e pronto: diagnóstico a partir de fazer o corrupio corrupiar.

Coleta de sangue e ajuste da amostra no corrupio
Coleta de sangue e ajuste da amostra no corrupio

O artigo que apresenta o instrumento, seu princípio de funcionamento e os testes com amostras de sangue foi publicado em 2016, com um título que resume a que veio: “Centrifuga de papel de ultrabaixo custo acionada a mão”[vi]. Vídeos e matérias disponíveis demonstram as ideias e conceitos sem a aridez do texto acadêmico[vii].

Manu Prakash, antes de sua centrífuga de papel, desenvolveu o foldscope (“dobrascópio”): um microscópio de baixíssimo custo feito de papel dobrado como em um origami e uma lente simples. Ele espalhou milhares deles pelo mundo e incentivou que as diferentes observações de fungos, parasitas e células fossem compartilhadas em um portal[viii] com galeria de imagens e ilustrações da montagem do origami científico.

Imagem de jovens olhando o mundo com foldscopes
Imagem de jovens olhando o mundo com foldscopes

Manu Prakash dedica-se ao movimento de “ciência frugal” ou, ainda “biologia recreacional”. Um de seus projetos ressignifica um brinquedo popular, o outro retoma no século XXI a ciência do século XVII. Afinal o “dobrascópio” é basicamente o microscópio de Antony van Leeuwenhoek[ix], cujas observações ele compartilhava através de cartas, pois não existia a internet.

Ciência, além de interdisciplinar, pode ser intersemiótica.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


[i] O artigo hoje é meio anacrônico, mas resgata o encanto dos brinquedos científicos

[ii]  https://jornal.unicamp.br/video/2026/02/02/mente-aberta-ao-novo-e-combustivel-para-o-avanco-da-ciencia/

[iii] SCHULZ, Peter. “Parte 4 – Os instrumentos da ciência”, em Ciência em cena – quem faz, como se faz, onde ser faz, Faccioli Editorial, 2025

[iv] Object Identity: Deconstructing the ‘Hartree Differential Analyser’ and Reconstructing a Meccano Analogue Computer

[v] Um relato resumido pode ser lido nos artigos de Tim Robinson, fã do Meccano e citado na tese de Ritchie

Existem vários vídeos no Youtube mostrando esse computador mecânico em funcionamento, o link é para o de Tim Robinson

[vi] Hand-powered ultralow-cost paper centrifuge.

[vii] https://www.ted.com/talks/manu_prakash_lifesaving_scientific_tools_made_of_paper

[viii] https://foldscope.com/

[ix] Um pouco sobre Leeuwenhoek

16 abr 26

O que um cientista do século XIX tem a dizer para o século XXI

"É um mal-estar que compartilho e que me fez lembrar de tempos passados. Sem medo de anacronismos, apresento alguns aspectos da vida de Michael Faraday (1791-1867)"
O que um cientista do século XIX tem a dizer para o século XXI; artigo Peter Schulz

18 mar 26

Sobre a inovação vazia

A inovação está presente nas universidades, onde temos disciplinas de inovação e empreendedorismo nos currículos, além de agências de inovação
Sobre a inovação vazia; artigo Peter Schulz

12 dez 24

Uma retrospectiva para o futuro

“É preciso talvez que reinventemos as nossas missões, pois ensino, pesquisa e extensão possivelmente não bastem mais.”
Imagem colorida: ao centro, uma escultura de livro; ao fundo, o céu e as folhas de uma árvore.

14 nov 24

“Eu não sou líder de torcida da ciência”

Peter Schulz: Como pano de fundo temos a questão desconfortável de como uma cientista pode criticar a ciência e a academia
Peter Schulz: Como pano de fundo temos a questão desconfortável de como uma cientista pode criticar a ciência e a academia

12 ago 24

O ocaso do acadêmico público?

"Como avaliar o impacto da comunicação com o público? Sem respostas fáceis, as recompensas para os acadêmicos são direcionadas aos que comunicam entre si, e não com os outros"
A responsabilidade dos intelectuais

11 jul 24

Ciência fora de suas fronteiras?

"A rigidez da ciência não se resume à questão de gênero, mas comecemos por ela para perceber outras conexões normalmente esquecidas."
Walter Pitts ao lado de Nêgo Bispo

22 maio 24

Relembrando a anarquia organizada

"Hoje eu percebo a universidade como um lugar onde se pode fazer muitas coisas, desde que estejam dentro das regras no site, para serem devidamente registradas, contabilizadas e avaliadas."
Ilustração no artigo “Como a anarquia pode salvar a universidade”

19 abr 24

Como a ciência foi do papel à nuvem?

"O primeiro artigo a gente não esquece, mas já não me lembro daquele que foi o meu primeiro em que todo esse processo manual, analógico e impresso foi sendo substituído por etapas eletrônicas e digitais sem papel e correio físico"
A minha primeira publicação de artigo em um periódico científico internacional, desses indexados, com revisão por pares, foi em 1987. Tudo em papel

13 mar 24

O fetiche da novidade na ciência, o andor e o santo

Peter Schulz: "Ciência é assim, mas as notícias não lembram que o andor dela precisa ir devagar, pois os santos a serem apreciados e, por que não, venerados, são de barro. Esse tipo de divulgação da ciência esquece o mais importante: a procissão da ciência é mineira"
A procissão dos flagelantes – Francisco de Goya, 1812

Ir para o topo