Estou morta há mais de setenta anos. Preta. Pobre. Doente. Mãe de quatro. O primeiro nasceu aos meus 14 anos. Tive a menina, que é diferente, todavia consigo me comunicar com ela com gestos e sorrisos. O último nasceu há pouco, em novembro, e estou internada desde o início deste ano. Vim pra cá após sentir um caroço no ventre. No início pensei que fosse devido ao Joseph, porém depois de seu nascimento, continuei sangrando. David, meu marido, levou-me para ver o que era. De pronto, disseram-me sífilis. – Sífilis, oh Senhor! O que você aprontou, David? Dad ficou sem rumo, e só foi confortado quando me transferiram para este hospital, porque é o único que atende a minha gente. “Minha gente”, assim somos tratados e apartados. Dr. Jones interrompe o meu devaneio e diz que tenho câncer.
Sou Henrietta Lacks, e estou morta há mais de setenta anos. Antes de minha morte, li um poema de Langston Hughes, que é mais ou menos assim: Que a Justiça é uma deusa cega / é algo, que nós negros, sabíamos. / Sua bandagem esconde duas feridas inflamadas / que antes, talvez, fossem olhos. Não carrego bandagens nem feridas, mas por um par de anos ninguém soube ao certo onde o meu corpo havia sido enterrado, contudo as minhas células salvaram incontáveis vidas ao longo dessas décadas e continuam salvando neste exato instante. Pois bem, as células da norte-americana Henrietta Lacks, conhecidas como células HeLa, nomeadas assim devido à identificação de amostras a partir das primeiras letras de seu nome e sobrenome, são conhecidas como células imortais, em consequência da característica única de se dividirem rapidamente e se manterem ativas. Foram retiradas de seu corpo sem o seu consentimento e possibilitaram avanços inimagináveis na medicina, como o desenvolvimento da vacina da poliomielite, assim como utilizadas em pesquisa sobre o câncer.
Nesta direção, segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2020, 2,3 milhões de mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama em todo o mundo, acarretando 685.000 óbitos decorrentes dessa neoplasia. No Brasil, de um total de 704.080 neoplasias estimadas em 2023, 51,5% atingiram a população feminina. Sob a tutela da Organização das Nações Unidas, elaborou-se em 1979 o documento sobre os Direitos da Mulher, na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, estipulando que, além do direito à vida, a mulher tem direito à saúde. Ressalte-se que, em 1984, o Ministério da Saúde do Brasil propôs o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, configurando a ruptura conceitual com os princípios norteadores da política de saúde das mulheres, incluindo a problemática do câncer. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, serão gastos cerca de R$ 2,5 bilhões em 2030 e R$ 3,4 bilhões em 2040 com três tipos de câncer: mama, cólon e reto, e endométrio.
Gastos ou direito à vida? A população brasileira, conforme o censo de 2022, situou-se em 203.062.512 habitantes, sendo as mulheres a sua maioria com 51,5%, e as principais usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS). Sim, pois são as mulheres que recorrem ao SUS não só para o cuidado de sua saúde, como também da família. Quantas mulheres não foram abandonadas no puerpério por terem trazido à luz a um filho com microcefalia e outras anomalias? Quantas não foram deixadas à cama por estarem enfermas, ou a um chão, privadas de liberdade? Quantas não foram silenciadas ou tiveram a face encoberta? Quantas estão capinando a roça, tendo o vento como confidente, que faz disseminar sementes de dentes-de-leão para nos ensinar que a história de um ser considerado desprezível é o que nos torna divinos? Quantos não buscaram sentido em existir, todavia não experimentaram a própria luminosidade em vida?
Augusto dos Anjos morreu jovem e teve publicado “Eu”, seu único livro de poemas, ignorado na época do lançamento e hoje reverenciado como um dos nossos grandes poetas. Fernando Pessoa não viu a sua grandiosidade poética multifacetada atravessar o mar salgado de Portugal. Van Gogh! O amado que dispensa comentários. Bach, Kafka, Emily Dickinson, Modigliani, Ada Lovelace. Henrietta? Mulher, mãe, preta, pobre, doente, discriminada, injustiçada, enterrada como indigente, identificada por uma sigla em um tubo de ensaio. Não foi poeta, não foi escritora, não foi compositora, não foi pintora, não foi matemática. Não foi isso nem aquilo. Foi tudo, visto que na invisibilidade de sua existência resplandece a esperança de sermos o que sonharmos. Ao se deparar com Henrietta, não se encontra somente a história de uma mulher, cujo corpo fora destinado à reprodução e à maternidade, contudo nos permite a profunda reflexão sobre a razão de existir. Se, porventura, a universalização da categoria Mulher privilegia a branca e rica, a simbologia de Henrietta reverbera a ministra Rosa Weber, que presidiu o Supremo Tribunal Federal entre 2023 e 2024. De suas palavras, extraem-se bússolas que norteiam o desenvolvimento humano, pois segundo ela a igualdade de gênero é expressão da cidadania e da dignidade humana e pressuposto fundamental da democracia.
E nós? Como podemos pautar a Saúde da Mulher nas diversas esferas do conhecimento, incluindo a minha, que é a de engenharia química? Ok. Em uma das aulas formulei a seguinte questão: Dentre os solutos empregados para avaliar a difusão de proteínas em células, está a proteína fluorescente verde (GFP). A GFP apresenta a capacidade de irradiar, de modo eficiente, fluoróforo, útil para decifrar e controlar a associação entre a estrutura e a função espectroscópica das proteínas. Visto a necessidade de se conhecer aspectos básicos sobre o mecanismo de difusão mássica em células animais, considerando-se as informações sobre os valores dos coeficientes de difusão da proteína GFP no citoplasma das células do tipo HeLa, obtenha o valor da viscosidade dinâmica aparente do citoplasma dessa célula a 22°C, sabendo que o raio molecular de Stokes-Einstein da GFP é igual a 2,82 nm. A propósito, sou preta, pobre, doente e estou morta há mais de setenta anos. E o resultado é 3,07 centipoise.
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