A desconstrução das identidades heteronormativas está na moda. A discussão hospedou-se até mesmo nos Estudos Ancestrais. Com o propósito de enfrentar a violência de gênero e o sofrimento psíquico causado pela emergência de identidades neoconservadoras, pesquisadores são convidados a pontificar sobre problemas éticos e o “cuidado de si”. Tal fenômeno reforça a crença de que as contradições e ambiguidades do mundo masculino serão abolidas. Nosso destino final, como espécie, não seria o mármore frio do sepulcro, mas o retorno ao útero glorioso.
A primeira experiência masculinista jamais é esquecida. Certa vez, uma colega disse-me não ter mais paciência com os homens. “Jesus também a perdeu com os vendilhões do templo”, acrescentei. Notei em seu desabafo, e no riso de escárnio diante de meu comentário, que o silêncio imposto às mulheres estava com os dias contados.
Ser impaciente é não ser dominado pelo outro. Nós homens tivemos nossa chance na história, agora resta-nos torcer para os ciborgues femininos se tornarem realidade. A época da escravidão feminina está em seus estertores, e a máquina, invenção demoníaca segundo alguns utopistas, promete uma nova aurora.
Tampouco tenho paciência com as mulheres. Outrora, já cultivei muita, mas envelheci. Estranhamente isso não me impediu de admirar a arte de Camille Claudel ou o pensamento de Simone Weil, julgando-as superiores a Romero Brito e Leandro Karnal.
Caetano disse que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. É lindo não esconder a verdade, e também é gratificante desistir de consertar o mundo. O ruído dos corpos excede a harmonia das almas; a contingência de ser esquecido é superior ao dogma da memória redentorista. É o que aprendi com meu primeiro amor feminista.
Dalila era seu nome. Sete anos mais velha do que eu, quando a conheci, lia compulsivamente O Segundo Sexo, de Simone Beauvoir. Em nossas primeiras carícias, chamou-me de “meu menino”. Achei que fosse um código secreto entre nós, e entusiasmado disse-lhe que isso era deliciosamente incestuoso. Ela me deu um tapa na cara e cuspiu as seguintes palavras: “Mamãe não gosta dessas brincadeiras”.
“Mas, Dalila…”, tentei retomar o prumo enquanto ajeitava a calça. Ela cortou minha palavra com a proposta de que era bom para os amantes terem apelidos. “Eu sou Capivara; você, Tatuzinho”. Mais uma vez achei isso muito estimulante, embora não entendesse como uma mulher culta gostasse desses jogos pueris. Capivara me amou por alguns poemas precoces e outras jaculatórias ao pé do ouvido. Chegou o dia em que ela confessou ter reatado o seu noivado.
“Mas, Capivara…”
“Capivara não; Dalila!”
“Mas, Dalila, você não disse que era feminista, e agora vai se casar? E a família patriarcal, o contrato burguês dos corpos?” Ela não devia explicações e me deixou ali prostrado, humildemente pensando nos poemas que lhe escrevi. Ser abandonado produziu um momento epifânico. Precisava reagir e a única forma era ser… (continua em fevereiro)
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