Quem tem filhos sabe o quão difícil e desgastante é educar. Infelizmente, a experiência educacional com nossos próprios filhos desmente a teoria da Natureza Humana de Jean-Jacques Rousseau. Se Voltaire foi a mente (razão) por trás da Revolução Francesa, Rousseau foi o coração (emoção). Ideias têm consequências, e aquilo que nos textos de Rousseau era apenas sugerido não tardou a se revelar por completo nos escritos de seus seguidores. Mas foi um crítico, Frédéric Le Play, quem melhor expressou o que estou tentando dizer:
“O mais grave e o mais perigoso desses erros, a verdadeira mãe de nossas revoluções, é o falso princípio que pretendem pôr em prática os inovadores de 1789, o qual afirma a perfeição original. Segundo os adeptos dessa novidade, a criança é naturalmente conduzida ao bem e só precisa seguir suas inclinações para ser boa e virtuosa.” (La Réforme en Europe et le Salut de la France, Pierre-Guillaume-Frédéric Le Play)
Quem dera os rousseaunistas estivessem certos! Os pais seríamos como guardiões de anjinhos, em marcha rumo ao Paraíso terrestre. É instrutivo, entretanto, notar que nem mesmo o próprio Rousseau parecia acreditar em si mesmo, basta averiguar o que ele fez com os próprios filhos e como racionalizou seu ato.
Aliás, aproveito o ensejo para enunciar, como diria Nelson Rodrigues, uma Verdade Cristalina: nunca, jamais, homem algum fez o mal senão pelo “bem” [1]. Eis a razão pela qual se devem avaliar os feitos, transformações e mudanças, pelos resultados (frutos), nunca pelas intenções.
Essa contradição entre o que se fala e o que se faz é recorrente em algumas pessoas. E isso, para as almas infantis, é um verdadeiro enigma. Aos meus filhos, ensinei: “Quando há contradição entre a fala e a ação de alguém, acredite sempre na ação [2], pois até papagaio fala”. Lembro-me deles pequeninos, divertindo-se e rindo do papagaio falante, sem suspeitar da profundidade daquilo que estavam aprendendo.
O que causa espanto, entretanto, é o número crescente de adultos que, mesmo diante de atos contraditórios, escolhem acreditar no discurso. Talvez estejam subjugados por uma avassaladora dissonância cognitiva ou, quem sabe, entorpecidos por aquela irracional, mas profundamente humana, esperança de que, no final, tudo dê certo magicamente.
Mas, afinal de contas, por que confiar nas ações em vez das palavras? Porque, se o livro do Gênesis estiver correto, apenas a Palavra de Deus cria tudo do nada. Nossas palavras não possuem tal poder [3]. Nós, meros mortais, precisamos nos esforçar muito para que nossas ações deem vida às nossas palavras [4], sob pena de nada realizarmos, mesmo tendo tudo à nossa disposição.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] Como o nosso poeta Chico César imortalizou no verso de abertura de sua música Deus me proteja: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.”
[2] Ou inação.
[3] Isso não significa que nossas palavras sejam desprovidas de poder.
[4] Quando as ações vão contra o prometido, elas não realizam o que foi dito e, ao contrário, geram o resultado oposto. Surge, então, uma pergunta que não quer calar: o que leva uma pessoa a agir contra aquilo que diz? Infelizmente, a resposta reside na inescrutável alma do indivíduo, um espectro que se estende da mais pura e cristalina burrice à mais cruel maldade disfarçada de bondade. Quem poderá julgar?
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