Na semana passada, depois da vitória do Palmeiras sobre o Cerro Porteño, que nos garantiu a classificação para as quartas de final da Libertadores, Abel Ferreira fez um de seus desabafos. Disse que “o futebol está doente”. Referia-se à obsessão “tóxica” pela vitória, à ideia de que só o primeiro lugar tem valor, à pressão que transforma rapidamente vencedores em fracassados. E chamou atenção para o risco de nos contaminarmos com esse ambiente.
Fiquei pensando na declaração do Abel. Não propriamente sobre o futebol, que certamente daria uma boa conversa fosse eu minimamente versado no assunto. A imagem da doença, da contaminação, de comportamentos e valores que vão se espalhando e acabam parecendo normais suscitou a pergunta: é só o futebol que está doente?
Alerto que esta não é uma conversa de economista, muito menos de sociólogo, psicólogo ou estudioso do comportamento humano, matérias nas quais não tenho formação profissional. É uma conversa de quem tem se incomodado muito com eventos que se passam ao nosso redor e tenta entender o que eles dizem sobre a sociedade em que estamos vivendo.
Sempre pensei que, apesar dos desvios, acidentes e retrocessos, o processo civilizatório avançava no sentido de deixar certas formas de violência e intolerância no passado. Sabemos que a história nunca caminhou em linha reta, mas parecia razoável acreditar que algumas práticas e comportamentos estavam ficando de fato para trás. A expansão dos direitos, da educação, da ciência e das instituições democráticas e o reconhecimento da dignidade das pessoas pareciam formar uma barreira cada vez mais forte contra a violência arbitrária, a intolerância e o desprezo pela vida.
Hoje, tenho muitas dúvidas e vejo com perplexidade ocorrências que me parecem inexplicáveis.
Essas dúvidas não decorrem de uma idealização do passado. Vivemos em um país marcado por um nível de desigualdade injustificável e que se arrasta desde sempre, e nossa história está carregada de violência, escravidão, racismo, discriminação, autoritarismo e desprezo pela vida. Seria, portanto, absurdo olhar para trás com nostalgia. Mas, depois de tantos avanços e de termos construído instituições destinadas a conter a violência e assegurar direitos, parecia natural imaginar que tivéssemos acumulado alguma sabedoria para evitar novas guerras e outras tragédias que tantas vezes marcaram nossa história, e que certos comportamentos que julgávamos cada vez menos aceitáveis fossem ficando para trás. Ingenuamente, acreditei que estávamos mesmo deixando a barbárie no passado.
A brutalidade ao nosso redor
Nas últimas semanas, alguns episódios me fizeram voltar várias vezes a essa pergunta. No Rio de Janeiro, Cláudio Rafael Landeiro, um ciclista de 37 anos, foi espancado até a morte porque algumas pessoas imaginaram que ele havia roubado a bicicleta que conduzia. Só que a bicicleta era de sua irmã. Mas, e se tivesse roubado, isso autorizaria pessoas comuns a prender, julgar, condenar e executar a pena? Voltamos aos tempos de fazer justiça com as próprias mãos?
O episódio me impressionou não apenas pela violência, mas pela naturalidade com que aqueles homens assumiram um poder que não tinham e pela aparente indiferença dos que assistiram à cena. Não houve julgamento, defesa, nem sequer a certeza de que um crime tivesse sido cometido. A suspeita bastou para eliminar, naquele momento, todo o aparato que construímos ao longo de séculos para substituir a vingança privada pela justiça.
Poucos dias depois, imagens mostraram o empresário Ivo Kos agredindo sua esposa, Giullia Falcão, diante de seguranças particulares. Um deles passou pelo local sem prestar auxílio. Outro fez algo ainda mais difícil de compreender: ajudou o agressor a levar a mulher para dentro da residência.
Os episódios são diferentes, mas parecem revelar comportamentos que não se limitam a esses dois casos. No primeiro, pessoas fazem o que não poderiam fazer. No segundo, deixam de fazer aquilo que esperaríamos que fizessem – e uma delas chega a colaborar com o agressor. De um lado, a disposição de punir alguém por conta própria. De outro, a falta de disposição para socorrer quem está sendo vítima de uma agressão.
Certamente não podemos julgar uma sociedade inteira a partir de dois acontecimentos. Crimes bárbaros sempre existiram. Mas esses casos não chegam até nós isoladamente. Somam-se à sucessão assustadora de feminicídios, aos abusos sexuais de crianças e adolescentes e a tantas outras formas de violência que ocupam continuamente as telas da televisão e dos celulares. E, porque aparecem tanto, corremos o risco de incorporá-las à paisagem. Não seriam sintomas de uma sociedade enferma e de comportamentos tóxicos?
As instituições e os nossos comportamentos
Por coincidência, na semana passada dei uma aula sobre Instituições, Mercado e Estratégia de Empresas e expliquei aos alunos uma ideia conhecida dos economistas: as instituições importam porque moldam nosso comportamento, criam incentivos, impõem limites e ajudam a definir o que podemos fazer e o que esperamos dos outros.
Enquanto preparava a aula, voltei a pensar nesses episódios e conectei-os com a teoria: não é apenas o medo da polícia ou de uma punição judicial que impede alguém de agredir outra pessoa, fazer justiça com as próprias mãos ou abandonar uma vítima. Há regras escritas nas leis, as instituições formais, e outras que aprendemos a respeitar na convivência, as instituições informais. Há coisas que não fazemos porque são proibidas e outras porque aprendemos que simplesmente não se fazem.
Não faz muito tempo, nesta mesma coluna, conversamos sobre a falência das instituições. Meu foco estava na perda de eficácia e credibilidade das instituições públicas e no enfraquecimento das regras. Volto ao tema agora pensando nas normas, valores e limites que organizam nossa convivência cotidiana. Nenhuma sociedade pode depender de um policial, juiz ou câmera em cada esquina para impedir que as pessoas façam aquilo que sabem que não deveriam fazer. A convivência depende também de freios que carregamos conosco, formados na família, na escola, no trabalho, nos grupos sociais, nos meios de comunicação e, cada vez mais, nas redes.
Na aula, ensinei que as instituições moldam comportamentos, mas que a relação também funciona na direção contrária. Elas dependem dos comportamentos que aceitamos e dos limites que estamos dispostos a defender. Quando esses limites se enfraquecem, quando comportamentos antes condenados passam a ser tolerados e quando deixamos de reagir diante da violência, as próprias instituições informais se enfraquecem. A perda desses freios, dessas normas e desses limites que organizam a convivência oferece uma pista para explicar também a falta de compostura de que tratamos na conversa anterior. E talvez esse enfraquecimento, menos visível do que a crise das instituições formais, seja uma das causas da enfermidade de que estamos tratando.
Outros sinais da enfermidade
A violência não é o único sinal que me leva a pensar em uma sociedade enferma. Há outros, menos espetaculares. Um deles é o crescimento dos problemas de saúde mental. Não estou sugerindo que depressão e ansiedade sejam apenas doenças sociais. Sabemos que fatores biológicos, individuais e familiares são importantes. Mas, quando o sofrimento psíquico se dissemina e alcança tantas pessoas, parece difícil atribuí-lo apenas a fragilidades individuais. Alguma coisa nas condições em que vivemos, trabalhamos, competimos, nos relacionamos e educamos nossos filhos também deve estar contribuindo.
Isso vale para a obesidade. É fácil tratá-la como resultado de escolhas pessoais: comer demais, exercitar-se de menos, não cuidar da própria saúde. Mas milhões de pessoas não fazem simultaneamente as mesmas escolhas por acaso. Há alimentos baratos e pouco saudáveis disponíveis em toda parte, cidades que dificultam a atividade física, jornadas de trabalho que reduzem o tempo para cuidar de si e uma indústria que estimula o consumo permanente. A responsabilidade individual existe, mas não explica tudo.
Também é difícil ignorar o avanço do consumo de drogas, legais e ilegais. Álcool, medicamentos usados de forma inadequada, substâncias ilícitas e outras formas de dependência aparecem em contextos diferentes, mas frequentemente cumprem funções semelhantes: aliviar sofrimento, reduzir ansiedade, escapar de pressões ou tornar mais suportável uma rotina que parece pesada demais. Quando o consumo problemático se espalha, também aqui parece insuficiente olhar apenas para o indivíduo. É preciso perguntar o que há no ambiente social que favorece essa busca por algum tipo de anestesia.
E a persistência das discriminações? Nunca se falou tanto em diversidade, inclusão, respeito e direitos. Ainda assim, racismo, misoginia, preconceitos e agressões contra quem é percebido como diferente continuam presentes. Talvez tenhamos avançado mais no discurso do que nos comportamentos.
Que sociedade é essa?
Depois de olhar para além dos estádios, penso que a enfermidade é mesmo mais geral. O que me impressiona é que tantos sinais apareçam ao mesmo tempo e, sobretudo, a facilidade com que vamos nos acostumando a eles.
Aí está o risco de contaminação a que Abel se referia, ainda que falando de outra coisa. Comportamentos se espalham, limites se deslocam, aquilo que ontem provocava vergonha ou indignação passa a ser tolerado e, aos poucos, incorporado à normalidade.
Não tenho dúvidas de que o processo civilizatório avança e de que os progressos foram reais e enormes. Mas talvez tenhamos sido ingênuos ao imaginar que esses avanços fossem permanentes e alcançassem todas as dimensões da vida em sociedade. Direitos podem ser conquistados e perdidos. Instituições podem ser construídas e deterioradas. Normas de convivência podem se fortalecer e se enfraquecer. E comportamentos que associamos à barbárie podem permanecer e até se expandir.
Acho, portanto, que há uma enfermidade. O que não tenho é competência para fazer o diagnóstico. Mas já não me parece suficiente explicar muitos desses comportamentos apenas pela desigualdade, pela pobreza, pelas falhas do Estado ou por outras causas às quais recorremos habitualmente. Tudo isso importa, e muito, mas talvez explique apenas parte do que estamos vendo. Há violência, intolerância, indiferença e sofrimento também onde essas explicações parecem menos convincentes.
Fico, portanto, mais com perguntas do que com respostas. O que está mudando nas relações entre as pessoas? Por que alguns limites parecem estar se deslocando? Por que comportamentos que julgávamos cada vez menos aceitáveis continuam presentes e, em alguns casos, parecem ganhar espaço? Quem sabe essas perguntas não mereçam uma próxima conversa.
Por enquanto, fico com a que deu origem a esta: que sociedade é essa que estamos construindo — e na qual estamos aprendendo a viver?
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
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