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Vamos conversar sobre divulgação científica?

Ainda que pareça inacreditável, voltamos a discutir a eficácia das vacinas, a existência de vírus e o próprio saneamento básico

O tema parece simples, quase protocolar, mas basta olhar ao redor para perceber que estamos vivendo um momento desconcertante: a ciência — essa construção paciente, coletiva e cumulativa que moldou a vida moderna — passou a ser contestada até mesmo em pontos antes considerados indiscutíveis. E não me refiro às dúvidas legítimas que impulsionam o avanço científico; falo de contestações até mesmo de fundamentos elementares que foram solucionados antes dos microscópios modernos ou dos supercomputadores.

Ainda que pareça inacreditável, voltamos a discutir a eficácia das vacinas, a existência de vírus e o próprio saneamento básico. E não se trata apenas de revisitar fundamentos resolvidos há décadas ou séculos: hoje também se contestam evidências acumuladas sobre temas mais recentes, como o aquecimento global, o papel da atividade humana nas mudanças climáticas ou a relação direta entre desmatamento e eventos extremos. No contexto atual, não raramente a desinformação chega mais rápido — e, pior, adquire mais valor do que a própria informação: o falso ganha mais destaque do que o verdadeiro.

Como chegamos até aqui?

Uma parte da resposta, precisamos admitir, está dentro da própria comunidade científica. Durante muito tempo, construímos e reproduzimos uma linguagem intrincada, quase cifrada, que funciona bem para especialistas – mas funciona pessimamente para a sociedade. Criamos um dialeto acadêmico que, se por um lado garante precisão, por outro levanta muros. Para o público comum, a ciência muitas vezes soa como um território inacessível, habitado por um grupo seleto de iniciados que opera segundo regras invisíveis. A metáfora da “torre de marfim”, apesar de imperfeita, não é totalmente descabida: pressões por produtividade, métricas de publicação, competição internacional e estruturas rígidas de avaliação acabaram afastando muitos cientistas do diálogo público. O sistema recompensa artigos, não explicações; valoriza citações, não conversas. E assim, aos poucos, o vínculo entre ciência, universidade e sociedade foi se desgastando.

A pandemia como divisor de águas

Então veio a pandemia de covid-19, um divisor de águas tão profundo que talvez ainda não tenhamos compreendido plenamente seu impacto. Pela primeira vez em gerações, a ciência precisou operar em tempo real diante de bilhões de pessoas. Cada incerteza, cada revisão, cada novo dado era acompanhado, comentado, amplificado ou distorcido em velocidade inédita. E, ainda assim, a maior parte da comunidade científica respondeu com responsabilidade, dedicação e coragem. Pesquisadores que nunca haviam dado uma entrevista se viram explicando curvas epidemiológicas, protocolos clínicos e limites de evidência em linguagem compreensível para públicos distintos. A pandemia expôs as entranhas do processo científico – seu caráter provisório, seu ritmo, sua honestidade intelectual –, e isso foi, ao mesmo tempo, fascinante e perigoso. Fascinante para quem reconheceu o esforço coletivo; perigoso para quem confundiu o caráter provisório do processo científico com improviso ou erro.

Mas a pandemia também nos ensinou algo essencial: a ciência salva vidas, mas só salva plenamente quando encontra canais eficazes de comunicação. Quando a mensagem não chega – ou pior, chega distorcida –, abre-se espaço para o ruído, a desinformação, o charlatanismo. E nesses terrenos férteis da insegurança humana prosperam as certezas rasas, os milagres instantâneos, as soluções simples para problemas complexos. Compete-se com narrativas sedutoras, com influenciadores que nunca abriram um artigo científico, mas falam com convicção e carisma. Entre nuance e simplificação, o algoritmo sempre favorece a segunda.

Comunicação como antídoto para a desinformação e alavanca para a ciência

Não é fácil enfrentar os algoritmos “simplificadores”, mas, se existe um antídoto eficaz para essa situação, ele certamente inclui a educação, a própria ciência e a comunicação científica. É preciso ter claro que a ciência não vive apenas de métodos e evidências, de artigos publicados em revistas A1 e indicadores bibliométricos; precisa também de presença pública, de linguagem compreensível, de canais permanentes de diálogo. Quando não nos comunicamos, deixamos espaço para o ruído – e o ruído ocupa tudo. Comunicar não é perfumaria acadêmica, nem gentileza intelectual: é parte constitutiva do trabalho científico. Se chegamos até aqui, em parte, foi porque falhamos em construir esse diálogo de forma contínua. E, se quisermos sair desse labirinto, o caminho passa, necessariamente, por comunicar melhor.

Em momentos de crise, a sociedade redescobre a ciência – quase sempre tarde demais. Valorizar a comunicação científica é reconhecer a ciência como um bem público. E, como qualquer bem-público, ela só cumpre sua função quando é acessível, compreensível e debatida. Divulgar ciência é o que nos permite construir confiança – esse bem tão escasso e tão necessário à vida democrática – e sustentar decisões coletivas com base em evidências. Se quisermos que a ciência tenha presença no cotidiano, no jornal, na escola, na política e nos afetos, precisamos comunicar melhor. Essa talvez seja a conversa mais urgente de todas.

A divulgação científica também contribui para a ciência aberta: aproxima pesquisadores, fortalece redes, amplia o impacto de descobertas, inspira jovens, corrige desinformação, incentiva políticas públicas baseadas em evidências. Projetos de lei, livros didáticos, reportagens de qualidade, iniciativas de extensão, materiais pedagógicos e debates públicos se alimentam desse trabalho. Em países que valorizam a ciência, comunicar é parte do processo de produzir conhecimento, não um adendo opcional. Faz parte da ética profissional do pesquisador devolver à sociedade, em linguagem acessível, aquilo que ela tornou possível.

A fragilidade da divulgação científica no Brasil

A despeito de sua importância, no Brasil a divulgação científica ainda é tratada como atividade periférica. Algo simpático, mas secundário. Um “extra”. Uma gentileza acadêmica. Raramente reconhecida em avaliações de carreira, quase nunca valorizada como trabalho intelectual legítimo. Muitos pesquisadores que se dedicam à comunicação científica o fazem apesar do sistema, não graças a ele. Para piorar, enfrentam a suspeita – dentro da própria academia – de que divulgar ciência é simplificar demais, ou “popularizar”, como se se tratasse de um rebaixamento epistemológico, e não da expressão mais autêntica do compromisso público da universidade.

Há também um traço cultural que não pode ser ignorado: nossa tendência de valorizar sobretudo aquilo que chega de fora. Celebramos descobertas anunciadas em periódicos estrangeiros, citamos com reverência instituições internacionais – e, ao mesmo tempo, prestamos pouca atenção à ciência que produzimos e financiamos aqui. Essa assimetria é antiga, mas tem efeitos profundos: discutimos pouco nossas pesquisas, celebramos pouco nossos cientistas, e raramente reconhecemos, com a ênfase que merecem, os veículos capazes de narrar essa produção com rigor e clareza.

Ainda assim, não faltam casos que revelam a força e a importância da divulgação científica feita no país. Entre eles, sem dúvida alguma, o mais destacado é a Revista Pesquisa Fapesp, que há décadas pratica jornalismo científico de excelência e, mais do que prestar contas do trabalho da Fundação, cumpre a função de aproximar a sociedade de pesquisas complexas, contextualiza debates, revela a vitalidade da ciência feita no país e traduz a complexidade do trabalho científico sem empobrecê-lo. A revista é uma vitrine qualificada da ciência brasileira e um patrimônio intelectual que merece ser conhecido e valorizado.

Seu alcance é maior do que às vezes imaginamos. Não é raro encontrá-la em consultórios médicos, sendo folheada com visível interesse por pessoas comuns; outro dia a encontrei no livro de geografia da minha neta, do 5º ano do ensino fundamental; uma reportagem de capa já foi tema de redação do Enem; e, em mais de uma ocasião, vi debates em audiências públicas na Câmara e no Senado serem iluminados por dados e argumentos apresentados em suas páginas. Poucas publicações conseguem transitar com tanta naturalidade entre esses mundos tão distintos.

E ela não está sozinha. A Unicamp, a USP, a SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – e outras instituições também mantêm iniciativas qualificadas de divulgação científica. Da Unicamp, destaco a ComCiência / Labjor, criada sob a liderança do professor e poeta Carlos Vogt, ex-reitor, cuja atuação foi decisiva para consolidar a divulgação científica como campo acadêmico no Brasil.

O fato é que, quando a comunicação científica é feita com qualidade – como se vê na Revista Pesquisa Fapesp e na ComCiência –, a ciência brasileira adquire forma, voz e presença no espaço público. Sai da esfera restrita dos especialistas e passa a participar do debate social com profundidade, clareza e densidade.

Divulgar ciência é, no fim das contas, um gesto de generosidade e de humildade. É a disposição de abrir a porta do laboratório, da sala de aula, do campo experimental e dizer: “Entre. Isto é seu. Fizemos juntos. Queremos conversar.” É reconhecer que conhecimento não é apenas método e evidência; é também linguagem, relação, afeto.  

Se quisermos reconstruir essa confiança, não basta produzir ciência de excelência. Precisamos falar sobre ela. E falar bem. Com rigor, clareza e compromisso. Porque ciência que não conversa não transforma. E país que não valoriza sua ciência dificilmente encontrará um caminho sustentável.

Vamos conversando.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


Foto de capa:

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