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Vamos conversar sobre a “tríplice monotonia” do sistema agroalimentar?

Um dilema entre abundância e fragilidades

Oriundo que sou de uma família de classe média — embora, sob critérios objetivos de renda, sempre tenha pertencido ao grupo do 1% de maior rendimento —, criado em uma cultura árabe-nordestina que coloca a mesa no centro das relações familiares e sociais, frequentador assíduo de feiras livres, sempre me pareceu estranha a ideia de monotonia alimentar. Minha experiência cotidiana é justamente a oposta: variedade de grãos, carnes, frutas, legumes, preparações, temperos, modos de cozinhar e de comer. A comida, no meu contexto, nunca foi monótona — foi linguagem, afeto, identidade. E, ao longo dos anos, vi essa variedade não apenas se manter, mas aumentar e se tornar mais acessível. Daí minha estranheza quando ouvi falar em monotonia alimentar — mais ainda quando ela passou a ser qualificada como “tríplice”.

O que a tríplice monotonia revela

A noção de “tríplice monotonia” do sistema agroalimentar, tema do instigante livro organizado por Ricardo Abramovay e Arilson Favaretto, não se refere apenas às dietas, nem se limita à constatação de que comemos poucas coisas.[1] Trata-se de uma leitura sistêmica do agroalimentar contemporâneo, que identifica três processos convergentes de homogeneização. O primeiro é produtivo: um número cada vez menor de culturas vegetais responde por parcela crescente da produção agrícola global. O segundo é zootécnico: poucas espécies e linhagens animais concentram a produção de proteína animal. O terceiro é alimentar: dietas cada vez mais baseadas em um conjunto reduzido de ingredientes, muitas vezes mediados por alimentos ultraprocessados. O argumento central é que essas três dimensões se reforçam mutuamente, produzindo um sistema altamente eficiente em termos de volume, mas estruturalmente frágil do ponto de vista ambiental, nutricional, econômico, social e cultural — fragilidades que tendem a ser subestimadas quando o debate se concentra apenas em produtividade, preços relativos e abundância aparente.

O livro, que entra nessa nossa conversa apenas como provocação intelectual — um ponto de partida para uma reflexão própria sobre os dilemas contemporâneos do sistema agroalimentar —, e não como objeto de resenha, levou-me a indagar até que ponto a lente da tríplice monotonia é suficiente para orientar escolhas difíceis no presente, especialmente quando se trata de conciliar fome, segurança alimentar, sustentabilidade ambiental e transformações produtivas em um mundo urbano, desigual e pressionado por restrições múltiplas.

O dilema real: escolhas sob restrições simultâneas

Minha resposta, ainda provisória, é negativa. Não porque a ideia esteja errada ou mal formulada, mas porque o problema que temos diante de nós se assemelha a um sistema de equações simultâneas para o qual não dispomos de soluções simples e, aparentemente, nem mesmo de soluções conhecidas. Como ampliar a diversidade produtiva e alimentar, melhorar a nutrição e contribuir para a saúde pública sem elevar preços, aumentar riscos, comprometer a renda dos produtores ou reduzir a previsibilidade da oferta e o acesso aos alimentos? É possível enfrentar a fome e a insegurança alimentar em escala global prescindindo dos chamados “blockbusters” — poucas culturas e cadeias altamente eficientes de soja, milho, trigo, arroz, frango e carne suína, que hoje respondem por parcela decisiva da oferta calórica e proteica mundial? Talvez seja justamente o contrário, e parte da solução produtiva/nutricional de curto e médio prazo passe, paradoxalmente, pela intensificação funcional dessa monotonia básica — como base energética e proteica — combinada, no melhor dos cenários, com camadas adicionais de diversidade de acordo com o nível de renda, tempo e disponibilidade de infraestrutura. É uma hipótese incômoda, mas não irrealista.

Levado ao limite, esse raciocínio sugere algo ainda mais desconcertante. Talvez a alimentação tal como a concebemos hoje — diversa, identitária, territorializada — venha a ocupar, no futuro, um espaço análogo ao que o artesanato ocupa em relação à indústria. Não como norma universal, mas como valor cultural, simbólico e distintivo, socialmente importante, mas sem função de atender às necessidades básicas de sobrevivência. Essa hipótese não é uma defesa da monotonia, nem uma negação da agenda da diversidade. É, antes, o reconhecimento de que, em um mundo pressionado por restrições e demandas simultâneas, a diversidade alimentar é desejável e relevante, mas não universalizável no curto e médio prazo. O desconforto dessa ideia talvez diga menos sobre sua impropriedade e mais sobre o quanto ainda resistimos a admitir a dureza real dos dilemas que estruturam a transição agroalimentar.

Não é demais lembrar que a concentração produtiva e a padronização que hoje associamos à monotonia do sistema agroalimentar surgiram como respostas históricas bem-sucedidas a desafios muito concretos: alimentar populações urbanas crescentes, reduzir custos, estabilizar preços, diminuir riscos produtivos e garantir previsibilidade em cadeias cada vez mais longas e complexas. As monotonias, nesse sentido, foram uma condição que tornou possível a própria expansão do acesso aos alimentos. Esse arranjo viabilizou ganhos expressivos de produtividade, sustentou o barateamento relativo dos alimentos e contribuiu de forma decisiva para o enfrentamento da fome em escala global. Ao mesmo tempo, produziu efeitos colaterais relevantes — ambientais, sanitários e nutricionais — cuja gravidade e importância são justamente ressaltadas pela tese da tríplice monotonia.

Diversidade para quem? A que custo?

Em muitos momentos, o debate público sobre a monotonia do sistema agroalimentar é organizado como se estivéssemos diante de uma escolha relativamente simples: mais diversidade versus menos diversidade. Esse enquadramento é enganoso. Nesse complexo arcabouço de variáveis interdependentes, a monotonia não se configura como uma escolha isolada, mas sim como a resultante histórica de um emaranhado de restrições e demandas que persistem — demandas por alimentos baratos, estáveis, padronizados e disponíveis em larga escala; restrições associadas à urbanização, à organização do trabalho, à logística, à desigualdade de renda e à necessidade de previsibilidade do abastecimento. Os problemas e restrições reais não apenas persistem como se intensificaram nas últimas décadas, e o risco é que as respostas baseadas exclusivamente na crítica e na demonização do sistema agroalimentar atendam a nichos sociais, mas sejam pouco capazes de lidar com as restrições e demandas concretas que o sistema precisa atender.

A monotonia alimentar não pode ser tratada como uma experiência uniforme ou socialmente homogênea. Ela se manifesta de maneiras radicalmente distintas conforme renda, território, tempo disponível e acesso a mercados. Para grupos de renda mais alta, conectados a circuitos diversificados de oferta, feiras, restaurantes e informação nutricional, a monotonia tende a ser reversível — algo que pode ser corrigido com escolhas individuais, ainda que a um custo. Para parcelas expressivas da população, no entanto, a monotonia não é escolha, mas restrição estrutural, e, em muitos casos, uma ”solução funcional”. Ela resulta de renda insuficiente, de jornadas extensas, de infraestrutura urbana precária e de uma oferta alimentar limitada nos territórios onde se vive. Nesse contexto, a diversidade não é uma decisão individual frustrada, mas uma possibilidade material ausente.

É a partir daí que emerge um problema ainda mais delicado. A crítica à monotonia tende a carregar, muitas vezes de forma implícita, uma noção normativa de diversidade desejável que raramente explicita seus custos, escalas e conflitos. Diversidade para quem? Em que territórios? A que preços — e pagos por quem? Ampliar a diversidade produtiva e alimentar envolve riscos, exige coordenação, financiamento, políticas públicas e escolhas distributivas difíceis. Não se trata apenas de desejar mais diversidade, mas de decidir quem assume os custos da transição, quem ganha, quem perde e em que horizonte temporal. Nesse sentido, a diversidade, assim como a produtividade, não é um valor autoevidente: é uma escolha política, atravessada por conflitos que precisam ser trazidos explicitamente ao debate.

A ideia da tríplice monotonia funciona, sem dúvida, como um alerta poderoso. Ela ilumina fragilidades reais e expõe custos econômicos, ambientais e para a saúde que, durante muito tempo, permaneceram escondidos e naturalizados no funcionamento do sistema agroalimentar. A verdade é que a tese me tirou da zona de conforto e aprofundou meu desconforto. Talvez porque me fez ver que o problema é muito maior, mais duro e mais conflitivo do que eu — com meu viés produtivista, minha formação e minha trajetória — estava disposto a admitir. Ou porque tenha me ajudado a enxergar melhor o problema, mas não as soluções.

O risco da romantização das soluções

A crítica à monotonia, embora válida, carrega o risco da romantização das soluções ao ignorar que o sistema agroalimentar é estruturado por restrições simultâneas e por demandas persistentes, crescentes e variadas, atravessadas por conflitos distributivos complexos. Entre a denúncia das fragilidades e a construção de caminhos viáveis existe um campo vasto de mediações — técnicas, políticas, institucionais e sociais — que não pode ser preenchido apenas com apelos à diversidade. Sem realismo quanto a custos, escalas, conflitos, benefícios, urgências e tempos da transição, o debate corre o risco de produzir boas intenções, mas poucas respostas efetivas para os dilemas que pretende enfrentar.

Recomendo a leitura do livro como alimento para essa — e outras — conversas difíceis, mas necessárias.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


[1] ABRAMOVAY, Ricardo; FAVARETO, Arilson (orgs.). Caminhos para a transição do sistema agroalimentar: desafios para o Brasil. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2025.

Foto de capa:

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