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Atualidades Cultura e Sociedade

Ópera criada por compositor da Unicamp revisita Camões

Espetáculo de Jônatas Manzolli que estreia em Coimbra, Portugal, une música, poesia, tecnologia e teatro

Cinco séculos depois do nascimento de Luís Vaz de Camões, um compositor brasileiro decidiu devolver o poeta português ao palco, não como monumento histórico, mas como presença viva, atravessada por dúvidas, conflitos humanos e questões contemporâneas. Professor sênior da Unicamp, Jônatas Manzolli, vinculado ao Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (NICS), estreia nesta quinta-feira, 21 de maio, em Coimbra, Portugal, a ópera Camões e Cassandra: canto(s) da condição humana.

A obra reúne música, teatro, poesia, vídeo, paisagens sonoras e tecnologia em uma experiência cênica construída como uma passagem entre passado e presente. “A ideia não era fazer uma homenagem estática”, afirma Manzolli.“Eu queria trazer Camões para a universidade e para o hoje, fazer com que ele dialogasse com questões contemporâneas.”

Apresentado no Teatro Gil Vicente, o espetáculo de uma hora e 45 minutos de duração tem direção geral de Artur Pinho Maria. A ópera encerra a sétima edição do Ciclo de Teatro e Artes Performativas da Universidade de Coimbra e mobiliza mais de cem participantes entre coro, orquestra, elenco e equipe técnica. Em cena estarão quatro solistas, o Coro Sinfônico Inês de Castro, a Orquestra Inês de Castro e a Cooperativa Bonifrates, com a presença virtual dos seus atores.

A semente do projeto surgiu depois de um trabalho anterior realizado por Manzolli em Coimbra, que envolveu poesia e paisagens sonoras. Após a apresentação, pesquisadores ligados ao Centro de Estudos Camonianos comentaram que as comemorações dos 500 anos do poeta começariam sem que ninguém tivesse criado uma ópera dedicada a ele. “Fiquei com aquilo na cabeça”, relembra. “Eu já tinha escrito óperas antes, uma para os 50 anos da Unicamp e outra baseada em Macunaíma. Sempre achei a ópera uma linguagem muito poderosa”, conta.

“Em Coimbra, há toda uma tradição em torno de Camões. O Centro de Estudos Camonianos guarda, inclusive, uma das primeiras cópias de Os Lusíadas (1572). Quando fui a Lisboa, passei pelo Mosteiro dos Jerónimos e veio a ideia: ‘E se os restos mortais de Camões não estiverem mesmo aqui?’. Essa questão, que atravessa séculos, foi o ponto de partida dramático.”

Grupo de pessoas em pé segurando partituras e pastas pretas durante o que aparenta ser um ensaio ou apresentação coral em um ambiente interno amplo com iluminação natural.
Ensaio do coral; espetáculo tem uma hora e 45 minutos de duração com direção geral de Artur Pinho Maria

Palavras e música

A protagonista do espetáculo é Cassandra Tágides, interpretada pela soprano Ana Freitas, uma pesquisadora universitária que decide investigar novos indícios sobre o paradeiro dos restos mortais do poeta. À medida que insiste na hipótese, passa a enfrentar resistência acadêmica e isolamento. “Não quer dizer que esteja certa ou errada, ela quer respostas. Hoje existe muita pressão contra o método científico, e eu quis trazer essa questão para a obra”, conta o compositor.

Do lado oposto está o personagem António Atento, interpretado pelo tenor Pedro Rodrigues, um especialista em Camões, que a questiona: por que mexer nisso agora? Para que investigar?

Inspirada na estrutura da ópera barroca e do drama grego, a obra incorpora um coro acadêmico com 12 cantores que comenta os acontecimentos, ironiza conflitos e acompanha a jornada da protagonista. “O coro ora é irônico, ora funciona como narrador. Em certos momentos pergunta: por que ela está sozinha? O que está procurando? Em outros, debate quem tem razão”, destaca Manzolli.

Na abertura de cada um dos quatro atos, Cassandra começa a receber cartas imaginárias enviadas por personagens do universo camoniano. O coro chega a questionar a pesquisadora por “consultar os mortos”, reforçando o jogo entre imaginação, pesquisa histórica e fabulação presente em toda a obra.

A primeira carta vem de Calíope, musa da filosofia e da inspiração artística. Depois aparecem Leonor, personagem da lírica camoniana, e Dinamene, figura amorosa associada a uma jovem chinesa ou macaense por quem o poeta teria se apaixonado no século 16. Segundo a tradição, ela morreu em um naufrágio enquanto Camões salvava o manuscrito de Os Lusíadas.

Também marcam presença Vasco da Gama, imortalizado em Os Lusíadas, obra que celebra a expedição do capitão que descobriu o caminho para a Índia, e Inês de Castro, figura histórica, interpretada pela mezzo-soprano Gisela Sachse, que ocupa papel importante na narrativa e tem um solo chamado O canto da minha solidão, criando um paralelo entre personagens separadas por séculos, mas atravessadas por inquietações.

Camões só aparece no final, mas, durante o espetáculo, seus poemas, interpretados por atores, são revividos em paisagens sonoras. No desfecho, o poeta entra em cena interpretado pelo barítono Rui Silva.

Um regente conduz um grupo de cantores durante um ensaio de coral em ambiente interno, com os músicos vestidos de preto segurando partituras enquanto observam as orientações gestuais do maestro.
Ensaio da Ópera que estreia em Coimbra, Portugal, no próximo dia 21 (quinta-feira)

Legado

Ao longo da narrativa, a obsessão inicial pelos restos mortais perde força diante da dimensão simbólica de Camões. Um dos momentos decisivos ocorre quando Vasco da Gama sugere à protagonista que talvez o mais importante não esteja na materialidade dos ossos, mas na permanência humana e cultural do poeta. “A ópera começa com a questão dos restos mortais, mas tenta caminhar para aquilo que realmente importa”, resume Manzolli. “Camões não está nos ossos. Está na obra, no legado, no que representa para todos nós.”

Segundo o compositor, a leitura proposta pela montagem procura se afastar da imagem monumental frequentemente associada ao autor de Os Lusíadas. Em vez da grandiosidade épica, a obra enfatiza a dimensão lírica e existencial da poesia camoniana. “Camões escreveu sobre o desconcerto do mundo, sobre poder, sofrimento, transformação. Isso continua extremamente atual”, afirma.

Manzolli optou por não musicar diretamente os poemas de Camões. Os textos são declamados e acompanhados por paisagens sonoras eletroacústicas, vídeos e projeções visuais desenvolvidos em parceria com Amílcar Cardoso, do Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra. “Quis preservar a força da palavra.”

Na trilha sonora, o compositor buscou diálogos entre tradição e contemporaneidade. A instrumentação combina guitarra portuguesa e harpa, cravo barroco e vibrafone, além de incorporar instrumentos típicos e orquestra de cordas. “A proposta foi trazer o passado para conversar com o presente”, destaca. “Para a percussão, pesquisei em Coimbra as tunas, grupos de estudantes que tocam e dançam nas ruas. Fui até eles, vi quais instrumentos utilizavam e incorporei essas sonoridades.”

A obra foi criada a partir de um libreto original em colaboração com Paula Santos, da Cooperativa Bonifrates. Manzolli conta que escreveu texto e música simultaneamente. “Ficou muito amarrado, foi quase um trabalho de tapeçaria. Levei cerca de um ano e meio nesse processo. No final do ano passado a ópera já estava pronta e depois passamos a trabalhar mais a questão do financiamento e da produção”, completa.

Depois da estreia em Coimbra, o compositor gostaria de encenar o espetáculo na Unicamp, aproximando ainda mais os diálogos entre Brasil, Portugal e a tradição da língua portuguesa. “Camões pertence à lusofonia inteira”, afirma. “Ele é universal.”

Quatro pessoas em pé, lado a lado, segurando papéis e aparentemente lendo ou ensaiando em um ambiente interno com paredes escuras e elementos cenográficos ao fundo.
Os atores durante a gravação dos poemas; a leitura proposta pela montagem procura se afastar da imagem monumental frequentemente associada ao autor de Os Lusíadas

Os ossos de Camões: um mistério histórico

A dúvida em torno dos restos mortais de Luís de Camões (1524–1580) atravessa séculos e ajuda a alimentar a trama da ópera criada por Jônatas Manzolli. Oficialmente, o autor de Os Lusíadas está sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde um túmulo monumental homenageia o poeta desde o século 19. No entanto, historiadores e pesquisadores questionam se os ossos depositados ali pertencem realmente a Camões.

Segundo registros históricos, o poeta teria sido enterrado inicialmente na Igreja de Sant’Ana, em Lisboa, em uma sepultura simples. O local foi destruído durante o terremoto de 1755, que devastou a capital portuguesa. A transferência dos supostos restos mortais para o Mosteiro dos Jerónimos ocorreu apenas em 1880, nas celebrações pelos 300 anos da morte do escritor. Na época, a própria comissão responsável pela trasladação admitiu incertezas sobre a autenticidade das ossadas encontradas.

Apesar das dúvidas, pesquisadores destacam que o valor simbólico do túmulo permanece intacto. Mais do que os restos mortais, afirmam estudiosos da obra camoniana, o legado de Camões está na permanência de sua poesia e na influência que exerceu sobre a língua portuguesa.

Foto de capa:

Pessoa de óculos e camisa clara posando em frente a um banner promocional de um espetáculo agendado para 21 de maio de 2026 no Teatro Académico Gil Vicente.
O compositor Jônatas Manzolli: a ideia não era fazer uma homenagem estática
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