Dorací Alves Lopes, Elda Rizzo, João Roberto Martins, Márcia Lima, Pedro Rocha Lemos, Rubens Adorno começaram a rolar a bola há pouco mais de um mês. Na semana passada, às vésperas do encontro, já eram quase 40 amigas e amigos no circuito – a maioria aqui perto, alguns bem longe. O grupo foi crescendo, as mensagens se acumulando, cada um tentando completar o que o outro dizia. Mas as palavras transbordavam: o que queríamos mesmo era dizer com o corpo. E aí vieram os abraços. O melhor da festa, como sempre, foi prepará-la. Na vida, caminhar é experiência mais forte do que chegar – e os abraços confirmaram: o caminho foi feliz. Valeu e continua valendo cada passo.
Aquela fase da Unicamp foi marcada por transbordamentos – como não seria? Pouco tempo depois do AI5, entre Médici e os primeiros anos de Geisel, havia muito a extravasar: o desejo de liberdade de expressão, o ódio reverso pelo assassinato de tantos que deram a vida na luta pelo voto e pela voz, a vontade de romper fronteiras disciplinares e as estruturas autoritárias que regulavam o cotidiano. As botinas ditatoriais pisavam cabeças feitas no Paris de 1968, e era preciso contestar “a moral e os bons costumes” burgueses.


Notas e moedas atiradas contra o interventor do IFCH, namoros e paqueras nas escadarias do ciclo básico, excentricidades de docentes – muitos estrangeiros tropeçando no português, como ocorrera na Universidade de São Paulo (USP) nos anos 1930 e 1940 –, manobras para ter acesso a Marx e Engels, esforços para desmascarar informantes da polícia. Guerrilheiros, secundaristas egressas de colégios de freiras ou do cárcere, estudantes impedidos de cursar outras universidades por se encontrarem presos em tempo de matrículas: vidas que encontraram acolhimento e formaram o povo da Unicamp, em sua diversidade.
De algum lugar lá do fundo do peito – ano de 1963, quando eu mesmo era estudante de graduação na USP, há exatos 63 anos, é isto mesmo? –, ressoaram as palavras do Hino da União Nacional dos Estudantes (UNE), de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes:
A UNE reúne futuro e tradição / A UNE, a UNE, a UNE é união / A UNE, a UNE, a UNE somos nós / A UNE, a UNE, a UNE é nossa voz.
E, em contraponto, a Marcha de Quarta-feira de Cinzas – chamada por Carlos Lyra de “canção da premonição”, composta naquele mesmo tempo, rapidamente ressignificada e disseminada pelo show Opinião, em dezembro de 1964, já com os militares no poder: “e, no entanto, é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar.” Porque a memória social não é só celebração – é um modo de narrar que dá sentido à alegria e à tristeza vividas coletivamente.
Esse reencontro já é parte da história que contamos e continuaremos contando, cada um à sua maneira. A Unicamp somos nós. Evoé!
Antonio Arantes é professor emérito Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
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