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Estudo revela alta incidência de dor na colocação de DIU e expõe falhas em políticas de planejamento familiar no Brasil

Ministério da Saúde aponta que 5% das usuárias teriam desconforto moderado a severo, mas pesquisa eleva marca para 81%

Uma pesquisa realizada no Ambulatório de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti (Caism), da Unicamp, revelou que a dor durante a inserção do dispositivo intrauterino (DIU) – método contraceptivo de longa duração – é mais frequente e intensa do que apresentam as diretrizes do Ministério da Saúde. De acordo com a pasta, menos de 5% das usuárias teriam dor moderada a severa. O estudo acadêmico, por sua vez, eleva essa marca para 81%.

Foram analisadas mais de 7 mil inserções, entre 2022 e 2024. O objetivo foi compreender como ocorre a dor durante o procedimento, quantas pessoas a experimentam e em quais níveis. Mais que a discrepância de resultados, a pesquisa ainda aponta duas questões negligenciadas no Brasil: a política de planejamento familiar e o respeito aos direitos da mulher.

Pessoa de cabelos grisalhos e bigode, vestindo camisa polo preta, está sentada à mesa gesticulando com as mãos durante uma conversa, com documentos à sua frente e uma estante com objetos decorativos ao fundo.
O co-orientador da pesquisa, Luis Bahamondes: algo que foi ignorado

O artigo “Dor na inserção de DIU em um centro brasileiro”, publicado no jornal científico International Journal of Gynecology and Obstetrics, surgiu a partir da tese de mestrado da psicóloga e terapeuta sexual Ana Luiza Savi, mestra em Saúde Reprodutiva e Sexual pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido. Todas as etapas foram co-orientadas pelos professores Luis Bahamondes, emérito da Unicamp desde 2003, com quatro décadas de experiência no Caism; e Cássia Juliato, titular do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade. Em Londres, a orientadora foi a professora Judith Lieber.

“O artigo mostra que as mulheres se queixam de dor na colocação do DIU, algo que historicamente já sabíamos, mas que foi ignorado. Essa dor já é apontada desde a década de 1960. Quando comecei a colocar DIU, em 1971, isso já era conhecido. O que havia era muito menos respeito pelas pacientes. A resposta à dor era: ‘aguente um pouco’. Ao longo dos últimos 50 anos, as mulheres passaram a entender que têm direitos e que precisam reivindicar um melhor atendimento”, afirma Bahamondes.

Ainda de acordo com o professor, o problema é que a maioria das estratégias para reduzir essa dor não funciona de forma eficaz e isso precisa ficar claro para a paciente. “Por outro lado, há grande variabilidade. Há mulheres que não sentem absolutamente nada e outras que sentem muita dor. Assim, o limiar é diferente para cada pessoa. O artigo mostra que a maioria das mulheres relata dor. E as estratégias para tratá-la, em sua maioria, não funcionam. Portanto, devemos manter o foco em encontrar uma estratégia válida”, acrescenta o professor.

Pessoa sorridente vestindo blazer vermelho e blusa preta, posicionada em frente a uma estante de livros coloridos em um ambiente interno bem iluminado.
A pesquisadora Ana Luiza Savi: dor não é um evento raro

Dia a dia

A pesquisa foi realizada a partir de dados clínicos coletados no dia a dia do Caism, referência internacional em planejamento familiar. A dor foi medida imediatamente após o procedimento, com base em uma escala de zero a dez, e posteriormente classificada em leve, moderada ou severa. Apesar de ser um método contraceptivo altamente eficaz — com taxas de falha de duas em cada mil usuárias — o DIU ainda é pouco utilizado no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde indicam que apenas 4% das pessoas recorrem ao método, enquanto aproximadamente 40% utilizam pílulas anticoncepcionais. Entre os fatores que ajudam a explicar essa baixa adesão estão dificuldades de acesso, falta de informação, de capacitação dos médicos, dificuldades para que enfermeiros também possam realizar a aplicação dos DIUs e, principalmente, o medo da dor.

“A dor na inserção é uma barreira real e já documentada na literatura científica. Muitas pessoas não recebem informações adequadas sobre o que esperar, e há evidências de que profissionais de saúde podem subestimar essa experiência”, explica a pesquisadora Ana Luiza Savi.

Outro ponto levantado pelo estudo é a possível ausência de estratégias adequadas para o manejo da dor. Embora existam opções como analgésicos, anti-inflamatórios e antiespasmódicos, nem sempre essas medidas são adotadas de forma sistemática. Para a pesquisadora, os resultados reforçam a necessidade de revisão das recomendações e de ampliação do debate sobre a experiência das usuárias.

“A dor não é um evento raro, como muitas vezes se apresenta oficialmente, mas sim algo comum. Reconhecer isso é fundamental para melhorar o acolhimento e o cuidado oferecido”, diz, ressaltando que o objetivo do estudo não é desencorajar o uso do DIU, mas contribuir para uma experiência mais consciente e confortável. “É um método muito eficaz e seguro, mas precisamos considerar a experiência das pessoas. Melhorar essa experiência pode, inclusive, ampliar sua adoção. Compreender o processo de decisão das usuárias é essencial para o sucesso de políticas públicas”, acredita Savi.

O uso de um método contraceptivo não depende apenas de sua eficácia, mas de como ele se encaixa na vida das pessoas. A decisão, vale lembrar, envolve crenças, rotina, acesso à informação e experiências anteriores, reforça a pesquisadora.

Profissional de saúde paramentado com vestimenta cirúrgica, touca e máscara, posicionado em pé ao lado de mesa cirúrgica coberta com campo estéril azul, em sala de cirurgia equipada com foco cirúrgico suspenso no teto, monitores médicos, suportes de soro e instrumentais hospitalares dispostos em superfícies ao redor do ambiente.
Profissional de saúde ao lado de mesa cirúrgica no Caism; apenas 4% das pessoas recorrem ao DIU, enquanto aproximadamente 40% utilizam pílulas anticoncepcionais

Negligenciada

Para Bahamondes, o grande problema é que o Brasil não possui uma política robusta de planejamento familiar. Historicamente, essa área tem sido negligenciada. De acordo com o professor, o país não tem uma direção nacional estruturada, ao contrário de outros países com grandes populações. “Isso reflete em falhas de gestão, logística e distribuição de insumos, além da falta de capacitação de profissionais. Há situações em que os DIUs estão prestes a vencer em depósitos de diversas cidades e acabam sendo enviados às pressas para nós. Centros, como a Unicamp, assumem grande parte dessa demanda”, conta o professor. “Tudo isso indica que não há uma política consistente para ampliar o acesso ao DIU e outros métodos. Falta capacitação, planejamento e monitoramento”, reforça.

Por fim, a pesquisa abre caminho para novos estudos em diferentes regiões e contextos. Os resultados apontam claramente para a necessidade de maior atenção à dor e ao acolhimento nos serviços de saúde.

Ministério da Saúde

Sobre a diferença de percepção entre a pesquisa acadêmica e as diretrizes governamentais, o Ministério da Saúde afirma que “a experiência de dor durante a inserção do dispositivo intrauterino é variável entre as usuárias e não deve ser minimizada, reafirmando o compromisso com a atualização contínua de suas diretrizes e a qualificação da assistência no SUS pautada nas evidências científicas”. A pasta ainda garante priorizar a adoção de práticas centradas na usuária, que incluem o manejo adequado da dor, capacitação profissional e a garantia de um cuidado respeitoso e seguro, fundamentado na escuta qualificada, oferta de informações claras e no estrito respeito à autonomia das mulheres.

Unicamp tem papel histórico no planejamento reprodutivo e saúde da mulher 

A despeito dos resultados apresentados na dissertação da psicóloga e terapeuta sexual Ana Luiza Savi, o professor emérito da Unicamp e ex-chefe do Ambulatório de Planejamento Familiar do Caism, da Unicamp, Luis Bahamondes, ressalta que é importante reconhecer o trabalho sério, ético e pioneiro desenvolvido há décadas pelos profissionais envolvidos na promoção do planejamento reprodutivo e dos direitos das mulheres na Universidade.

Segundo ele, o debate sobre a dor na inserção do DIU é legítimo, necessário e deve estimular avanços na assistência, no acolhimento e nas estratégias de manejo da dor. “Contudo, a intensidade dessa experiência varia amplamente. Aspectos como paridade, idade, histórico obstétrico, presença ou ausência de cesarianas, ansiedade, medo, experiências ginecológicas prévias e fatores individuais relacionados à sensibilidade à dor podem influenciar significativamente a percepção do procedimento”, explica. “É importante ressaltar que, em nenhum momento, se nega que a inserção de um DIU possa causar dor. No Caism, diferentes estratégias vêm sendo estudadas e aplicadas na tentativa de minimizar o desconforto durante a inserção do DIU. Os resultados demonstram que, embora algumas intervenções apresentem significância estatística, isso nem sempre se traduz em benefício clínico relevante para as pacientes. Há a sedação, porém, para isso há todo um processo de avaliação anestésica, disponibilidade de centro cirúrgico, custos e riscos inerentes à sedação, tornando a inserção de DIU mais burocrática e arriscada”, acrescenta o professor.

Pioneiro

Bahamondes ressalta que os atendimentos no Caism têm burocracia mínima, visto que o Ambulatório de Planejamento Familiar é o único porta aberta da instituição (não necessitando de agendamento pelo sistema CROSS). “A Unicamp desempenha um papel histórico e fundamental na assistência à saúde da mulher. O Ambulatório de Planejamento Familiar é pioneiro no país desde 1976 e oferece métodos contraceptivos de alta eficácia, incluindo DIU de cobre, DIU hormonal e implantes contraceptivos. Atualmente, mais de 40 mil mulheres são atendidas anualmente, sendo que a grande maioria relata satisfação com o atendimento recebido e com os métodos utilizados”, completa o professor.

(Texto atualizado em 19/5/2026)

Foto de capa:

Fachada de edifício público identificado como CAISM, com arquitetura em tons de laranja e detalhes em relevo nas paredes laterais, entrada central com marquise, pessoas aguardando sentadas em bancos próximos a palmeiras decorativas, e veículos estacionados na via em frente ao estabelecimento.
Fachada do Hospital da Mulher; maioria das estratégias para reduzir a dor não funciona de forma eficaz
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