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Um museu moderno para uma arte em transformação

Obras antigas e de vanguarda se complementam no Masp; para historiadora, instituição inova ao expor, lado a lado, obras clássicas e contemporâneas

Obra de Agostinho Batista de Freitas retrata o Masp: para Nelson Aguilar, Pietro Maria Bardi deu a obras da cultura popular “o mesmo estatuto daquelas produzidas pelo mundo ocidental hegemônico”
Obra de Agostinho Batista de Freitas retrata o Masp: para Nelson Aguilar, Pietro Maria Bardi deu a obras da cultura popular “o mesmo estatuto daquelas produzidas pelo mundo ocidental hegemônico”

Sobre a movimentada Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, as obras de arte parecem flutuar. Para quem vê de fora, o próprio edifício do Museu de Arte de São Paulo (Masp) desafia a gravidade, com seu icônico prédio suspenso, sustentado por quatro pilares vermelhos. Em seu interior, os quadros do rico acervo ficam em placas de vidro individuais, apoiadas em blocos de concreto – os chamados Cavaletes de Cristal, uma criação da arquiteta Lina Bo Bardi, responsável também pelo projeto do prédio –, o que permite ao público vê-los de diferentes ângulos, em um roteiro sem pré-determinação, construído pelo percurso escolhido por quem os visita.

A suspensão das obras no espaço não implica uma suspensão no tempo. Pelo contrário: hoje composto por mais de 11 mil itens, o dinâmico acervo planejado pelo crítico e marchand italiano – naturalizado brasileiro em 1951 – Pietro Maria Bardi conta com pinturas, esculturas, objetos de design, fotografias e outras obras abrangendo desde a arte antiga e medieval até as vanguardas que revolucionaram a estética no século 20 e artistas contemporâneos. Pietro também se preocupou com garantir que o acervo representasse a diversidade brasileira e mundial, adicionando-lhe obras pertencentes tanto ao cânone europeu quanto obras da África, da Ásia e das Américas. Em um mesmo ambiente, por exemplo, uma tela de Pierre-Auguste Renoir pode estar próxima às de modernistas brasileiros, a cerâmicas indígenas e a fotografias contemporâneas, em um diálogo que transcende linguagens, períodos e nacionalidades.

A história da concepção do Masp e os caminhos que proporcionaram ao museu a capacidade única de abrir as portas para o tradicional e o moderno são temas estudados por Luna Lobão em sua tese de doutorado em história pela Unicamp, com orientação do professor Nelson Alfredo Aguilar. Para a pesquisadora, a ambivalência do Masp, ao abranger o moderno e o antigo e ao promover diálogos entre os dois, representa uma de suas principais forças enquanto instituição e permite ao museu figurar na vanguarda das discussões sobre a democratização das artes e sobre sua promoção de forma decolonial. “O Masp sai na frente em soluções que já possuímos para tornarmos as artes mais justas e decoloniais”, aponta Lobão.

O crítico Pietro Maria Bardi acreditava que o acervo do Masp devia contemplar a diversidade de correntes artísticas brasileiras e internacionais
O crítico Pietro Maria Bardi acreditava que o acervo do Masp devia contemplar a diversidade de correntes artísticas brasileiras e internacionais
O crítico Pietro Maria Bardi acreditava que o acervo do Masp devia contemplar a diversidade de correntes artísticas brasileiras e internacionais
O crítico Pietro Maria Bardi acreditava que o acervo do Masp devia contemplar a diversidade de correntes artísticas brasileiras e internacionais
A arquiteta Lina Lo Bardi, autora do projeto do Masp: dando concretude às idealizações de Pietro, seu companheiro
A arquiteta Lina Lo Bardi, autora do projeto do Masp: dando concretude às idealizações de Pietro, seu companheiro
O crítico Pietro Maria Bardi acreditava que o acervo do Masp devia contemplar a diversidade de correntes artísticas brasileiras e internacionais
O crítico Pietro Maria Bardi acreditava que o acervo do Masp devia contemplar a diversidade de correntes artísticas brasileiras e internacionais
A arquiteta Lina Lo Bardi, autora do projeto do Masp: dando concretude às idealizações de Pietro, seu companheiro
A arquiteta Lina Lo Bardi, autora do projeto do Masp: dando concretude às idealizações de Pietro, seu companheiro
A arquiteta Lina Lo Bardi, autora do projeto do Masp: dando concretude às idealizações de Pietro, seu companheiro
A arquiteta Lina Lo Bardi, autora do projeto do Masp: dando concretude às idealizações de Pietro, seu companheiro

Um museu para São Paulo

O Masp nasceu em 1947 como fruto da união de três agentes fundamentais em sua concepção: Pietro e Lina, responsáveis pela formulação de seu propósito cultural e configuração artística, e o jornalista Assis Chateaubriand, fundador do grupo Diários Associados, conglomerado de mídia que reuniu, entre outros veículos, a revista O Cruzeiro e a TV Tupi. Foi Chateaubriand quem tomou a iniciativa de instalar na capital paulista um grande museu, capaz de colocar o Brasil no mapa-múndi das artes, e quem convidou Pietro para conduzir essa missão. O empresário também utilizou seu poder econômico e de influência junto à elite da época para formar o acervo inicial do Masp.

Os anos que sucederam à Segunda Guerra Mundial testemunharam um aquecimento do mercado de obras de arte. Com suas economias destruídas pelo conflito, muitos países europeus colocaram à venda uma grande quantidade de peças, reduzindo seu preço e abrindo espaço para empresários como Chateaubriand adquirirem coleções. O fim da guerra também trouxe o casal Bardi da Itália ao Brasil. Nascido em 1900, Pietro atuava como jornalista, marchand e crítico de arte, tendo sido diretor de publicações como as revistas Belvedere e Quadrante, que traziam discussões sobre a modernidade na arquitetura e no design. Já Lina nasceu em 1914 e se formou em arquitetura na Universidade de Roma (Itália).

Pietro já havia passado por São Paulo durante a organização de uma exposição sobre arquitetura italiana em Buenos Aires (Argentina), em 1933. O cenário do pós-guerra e as possibilidades abertas no Novo Mundo estimularam o casal a mudar-se para o Brasil em 1946, logo após haver selado sua união. Outro gosto comum ao casal era a arquitetura, sobretudo no caso das obras alinhadas ao racionalismo italiano e à influência do arquiteto francês Le Corbusier. “[Pietro] Bardi foi um grande defensor dessa arquitetura, a ponto de levar Le Corbusier para a Itália”, lembra Aguilar. Segundo o professor, as bases para que o casal construísse no país uma instituição com a relevância e o impacto do Masp encontravam-se bastante sedimentadas. “Imagine dar a uma jovem arquiteta, como Lina Bo na época, uma obra como a Casa de Vidro?”, comenta o orientador ao se referir à residência modernista do casal no bairro do Morumbi, projetada pela arquiteta.

A historiadora Luna Lobão, autora da tese: diálogo entre o antigo e o moderno é uma das principais forças do Masp
A historiadora Luna Lobão, autora da tese: diálogo entre o antigo e o moderno é uma das principais forças do Masp
A historiadora Luna Lobão, autora da tese: diálogo entre o antigo e o moderno é uma das principais forças do Masp
A historiadora Luna Lobão, autora da tese: diálogo entre o antigo e o moderno é uma das principais forças do Masp

No princípio, o Masp ficou instalado em andares de um edifício da Rua Sete de Abril, no centro de São Paulo. Desde o início, os responsáveis pelo projeto pretendiam criar uma instituição que ultrapassasse os moldes tradicionais dos museus, de caráter apenas expositivo, acrescentando-lhe também as funções de um centro cultural. Essa primeira versão do museu contava com espaços para a realização de cursos sobre a história da arte e oficinas artísticas e um auditório para debates e a exibição de filmes. “O Masp tem uma escola de formação em artes, trazendo para o museu música, teatro, moda, fotografia, cinema. Esse é um acontecimento que não tem semelhantes no mundo”, descreve Lobão.

Para que essa missão ganhasse as formas atuais do museu, Lina deu concretude ao pensamento moderno do companheiro. A historiadora explica que materiais novos de construção e de design, como metais e vidro, já eram utilizados e valorizados por Pietro. Coube à arquiteta transformá-los em recursos que permitiram às exposições oferecer novas formas de ver a arte, como no caso dos Cavaletes de Cristal. As estruturas de vidro também estiveram presentes nas exposições didáticas promovidas pelo museu, nas quais obras de diferentes períodos conviveram lado a lado. Por conta da transparência do vidro dos cavaletes, criando uma sobreposição de obras, criavam-se diálogos responsáveis por contar a história das artes. “O Masp foi um espaço de criação e concretização de teorias e ações de ambos”, sintetiza. O uso desses novos materiais por Lina atingiu seu ponto máximo no projeto do atual prédio do museu. Inaugurado em 1968, o edifício conta com cerca de 10 mil metros quadrados e representa um dos grandes símbolos brasileiros da arquitetura moderna.

Outra grande inovação do museu deu-se quando a instituição incorporou a seu acervo itens representativos das artes indígenas do país, das artes africanas e afro-brasileiras e de obras da cultura popular, como peças de artesania, entre outras. “Pietro Bardi deu cidadania a coisas que estavam completamente apartadas em tipificações folclóricas”, explica Aguilar. “Isso mudou completamente com seu trabalho. Essas artes passaram a ter o mesmo estatuto daquelas produzidas pelo mundo ocidental hegemônico.” A valorização das artes de tradição brasileira culminou na organização de exposições emblemáticas, como A Mão do Povo Brasileiro, a mostra temporária inaugural do Masp na Avenida Paulista, realizada em 1969.

Primeiro museu moderno do país, o Masp se distingue não só pela riqueza e importância de seu acervo e por sua arquitetura arrojada. O conceito por trás de sua criação rompe com a dinâmica dos museus tradicionais, que categorizam as artes e conduzem o público por seus espaços como se abrissem grandes enciclopédias. Por outro lado, a instituição paulista também subverte a proposta dos museus modernos, que rejeitam a tradição dos cânones e abrem espaço apenas às artes consideradas inovadoras.

O professor Nelson Aguilar, orientador da pesquisa: “Pietro Bardi deu cidadania a coisas que estavam completamente apartadas em tipificações folclóricas”
O professor Nelson Aguilar, orientador da pesquisa: “Pietro Bardi deu cidadania a coisas que estavam completamente apartadas em tipificações folclóricas”
O professor Nelson Aguilar, orientador da pesquisa: “Pietro Bardi deu cidadania a coisas que estavam completamente apartadas em tipificações folclóricas”
O professor Nelson Aguilar, orientador da pesquisa: “Pietro Bardi deu cidadania a coisas que estavam completamente apartadas em tipificações folclóricas”

O que confere modernidade aos museus é a ruptura com a tradição de instituições como o Museu do Louvre, na França, e o Museu Britânico, no Reino Unido. Surgidos no Renascimento, a partir de coleções particulares de famílias ricas, como os Médici, na Itália, e da oferta de acesso a itens de interesse científico e antropológico – os chamados Gabinetes de Curiosidades –, os museus tradicionais consolidam-se com o Iluminismo. Nesses moldes, essas instituições organizam as artes e a história de acordo com seus períodos e origens, guiando a forma como o público entra em contato com as obras e como aprende sobre o mundo.

Entretanto o século 20 vivencia uma série de mudanças nesse cenário. Nas artes plásticas, as vanguardas europeias subverteram a forma de representar a realidade, questionando o próprio conceito tradicional de exposição. Na vida social, os horrores de duas guerras mundiais e as sucessivas crises econômicas puseram em questão os modelos de sociedade vigentes e quais contribuições as artes poderiam oferecer na construção de um mundo melhor.

O primeiro museu que marcou a transição para o formato moderno de exposição foi o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York (Estados Unidos), que rompeu com a hegemonia europeia e se propôs a desempenhar também funções educativas, mas apenas abrindo espaço às obras de arte modernas. Outro marco importante deu-se com a criação do Conselho Internacional de Museus (Icom, na sigla em inglês), em 1946, que estabeleceu parâmetros internacionais para a acessibilidade, a democratização cultural e o papel educativo dessas instituições.

Enquanto centro de formação, a busca pelos grandes mestres também representou uma estratégia de oferecer ao público um referencial, tornando possível apreciar todo tipo de arte. Os pesquisadores comentam que a inexistência de museus tradicionais no Brasil anteriores ao Masp, permitindo o contato com os cânones – uma realidade comum na Europa –, desempenhou também um papel na construção de um museu ambivalente. “Essa foi uma oportunidade de passarmos do virtual ao real, de conhecermos de forma material obras que conhecíamos apenas por ilustrações em livros”, observa Aguilar.

A criação do Masp ocorreu nesse ambiente de revolução do cenário artístico e do papel dos museus – quando Pietro mantinha-se em diálogo constante com museólogos de todo o mundo na busca por um formato moderno e adequado ao contexto brasileiro. “O Masp seguiu nesse caminho, mas depois abriu uma espécie de bifurcação. Um museu moderno não comportaria cânones artísticos e obras antigas. Porém essa é uma marca de Pietro Bardi. Ele sempre reforçou a presença do antigo no museu sem negar o moderno”, afirma Lobão. A pesquisadora destaca que a ambivalência da instituição paulista dá-se, justamente, na forma com que consegue abrigar o antigo e o moderno. “[Pietro] Bardi indicava não ser preciso reproduzir os cânones, mas que eles tinham algo a dizer e a contribuir.”

O futuro está na história

Ao longo dos anos, o Masp se consolidou como o principal museu de artes brasileiro e um dos mais importantes do mundo. Pietro permaneceu à frente da instituição até 1996, período durante o qual se manteve atuante também como crítico e ensaísta, vindo a falecer em 1999. Durante os anos 1990 e 2000, decisões controversas por parte da direção do museu colocaram em xeque o projeto original dos Bardi, como a substituição dos cavaletes de Lina por divisórias tradicionais, reproduzindo paredes. A disposição original das obras, nos cavaletes, foi retomada em 2015, algo comemorado no meio artístico.

No fim de 2024, o Masp expandiu-se, inaugurando uma nova área. Com o nome de Pietro Maria Bardi, o prédio anexo possui 14 andares e ampliará a área útil de exposições e atividades para mais de 21 mil metros quadrados. Segundo os pesquisadores, homenagear Pietro com o nome do anexo representa uma opção interessante. O local, ressaltam, pode causar impacto para além da mera ampliação do espaço físico da instituição. “Isso pode ser apenas mais uma sala de exposições ou realmente ampliar a capacidade do museu de ser um centro cultural”, avalia Lobão, que enfatiza: “Conhecer e explorar mais sua própria história ajudaria o Masp a crescer ainda mais”.

Cartazes de exposições: abrindo as portas para diferentes linguagens artísticas
Cartazes de exposições: abrindo as portas para diferentes linguagens artísticas
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