Projeto mapeia protagonismo de articulações geopolíticas em exposições de arte no Brasil
Projeto mapeia protagonismo de articulações geopolíticas em exposições de arte no Brasil
Pesquisas revelam que mostras internacionais foram instrumento de soft power no país entre 1948 e 1978

Até meados dos anos 2000, pouco se ouviu falar sobre os produtos culturais da Coreia do Sul. Hoje em dia, a cultura do país asiático transformou-se em um item de exportação presente em plataformas de streaming, nas prateleiras de lojas de cosméticos, nos centros de ensino de línguas e nos hábitos de crianças, jovens e adultos que os consomem à exaustão. A chamada hallyu, “onda coreana”, não surgiu de forma espontânea. A presença da Coreia do Sul na vida e no imaginário mundial ganhou impulso por meio de um trabalho sistemático do governo do país, auxiliado por órgãos cuja função é, justamente, promover as artes e a cultura coreana no exterior.
O uso das artes como ferramentas de soft power não representa uma novidade nem se limita à disseminação de produtos da cultura pop. Um grupo formado por pesquisadores do Brasil e do exterior investiga as implicações geopolíticas envolvidas na organização de exposições internacionais de artes visuais no Brasil. Coordenado pelas professoras Maria de Fátima Morethy Couto, do Instituto de Artes (IA) da Unicamp, Dária Jaremtchuk, da Universidade de São Paulo (USP), e Michiko Okano, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o projeto Geopolíticas Institucionais: Arte em Disputa a Partir das Mostras Internacionais Circulantes no Brasil (1948-1978) propõe mapear as exposições internacionais de arte moderna que passaram, naqueles anos, por museus e instituições brasileiros e identificar de que forma o planejamento desses eventos e a presença de organismos binacionais no processo revelam aspirações de países pela divulgação de sua cultura na América Latina.
“Pouco se estuda no Brasil esse trânsito das artes e, sobretudo, o que move essa circulação”, explica Couto. “Nosso interesse é descobrir por que essas exposições vieram ao Brasil e quem as organizou.” O projeto, que surgiu a partir de um edital universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concentrado nas exposições realizadas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), conta agora com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na modalidade Projeto Temático.

Artes em trânsito
Criado pelo cientista político norte-americano Joseph Nye, o conceito de soft power diz respeito à capacidade de países ou instituições de exercerem influência com base em fatores culturais, em contraposição ao uso da força militar ou do poder econômico. Na perspectiva do projeto, a circulação das artes visuais no Brasil por meio das exposições internacionais desempenhou o papel não somente de fomentar debates estéticos, mas também de oferecer palcos para importantes articulações sociais e políticas.
O período abordado pelo projeto também se mostrou favorável para avaliar o trânsito artístico como elemento de ambições diplomáticas mais amplas. O pós-guerra fundou uma época de reconstrução das instituições culturais em países europeus e, no Brasil, de criação dos primeiros museus modernos – o Museu de Arte de São Paulo (Masp), fundado em 1947, e o MAM Rio, em 1948. No caso do museu carioca, o Rio de Janeiro era a capital federal da época, o que fazia da cidade um cenário de intensas articulações entre embaixadas e outras instituições.
Segundo a pesquisadora da Unicamp, o grupo faz o levantamento de exposições internacionais de arte que ocorreram em museus modernos brasileiros – inicialmente, o MAM Rio, o Masp, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM SP) e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) – e identifica quais circularam por entre as instituições durante o período e também por outros espaços do país e da América Latina. “Não é o sucesso das exposições que determina nosso interesse em analisar os trânsitos ocorridos”, aponta. O levantamento preliminar feito pelo grupo mostrou a ocorrência de 280 exposições, das quais 25 passaram pelos museus. Outras mostras, porém, ocuparam espaços diferentes, explicitando questões relevantes para a pesquisa.
Um exemplo é a exposição Ben Nicholson e Outros 10 Artistas Britânicos, que ocorreu no MAM Rio em 1958 em comemoração à inauguração da atual sede do museu, no Aterro do Flamengo. “Essa foi uma exposição que esteve antes na Bienal de São Paulo, depois foi para o Rio de Janeiro inaugurar o Bloco Escola do MAM e, em seguida, circulou pela América Latina por dois anos”, detalha Couto. Chama a atenção a presença de órgãos binacionais, como o British Council, do Reino Unido, e o Instituto Goethe, da Alemanha, na articulação dessas mostras. A exposição com as obras de Nicholson, por exemplo, contou com a colaboração direta do órgão britânico.
Outros episódios evidenciam o quanto vários países investiram, nas mostras de arte, recursos de articulação política. Em 1968, o MAM Rio recebeu The New Vein – Tendências Novas (1963-1968), com um acervo de obras vindas dos Estados Unidos. Em seus estudos sobre o tema, Jaremtchuk assinala que, além de contar com uma grande participação da embaixada do país e do corpo diplomático em sua organização, a mostra, que depois seguiu para outras seis cidades da América Latina, exibiu filmes e ofereceu cursos e conferências – além, ressalte-se, do evidente cuidado dos organizadores do evento com a redação de catálogos e press releases. “A atuação das organizações diplomáticas revela a preocupação com a diplomacia cultural entre os países”, pontua Couto.
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Narrativas em disputa
A análise dos trânsitos artísticos ocorridos por meio das exposições revela um aspecto importante do período: o deslocamento do centro de produção e difusão de novas estéticas dos países europeus para os Estados Unidos, em especial para a cidade de Nova York. Some-se a isso o contexto da Guerra Fria, quando o alinhamento da América Latina ao bloco capitalista também se fazia garantir por meio dos debates artísticos.
Apesar do predomínio das potências capitalistas, outras regiões tentaram abrir espaço no tabuleiro global por meio das artes. “É visível o quanto os países do Leste Europeu exploraram o soft power e começaram, de forma estratégica, a enviar representações para bienais de artes que, muitas vezes, circularam pelos países-sede e seus vizinhos”, lembra Couto ao mencionar exposições vindas de países como a antiga Iugoslávia e a Polônia. Entretanto, mesmo em um campo de discussões que transcendem a materialidade econômica, no fim do dia – e das mostras –, tudo tem um custo. “Países como a França e o Reino Unido fizeram isso de forma muito articulada, até porque é preciso dinheiro. Por isso, vemos uma prática que se concentrou nos países hegemônicos”, conclui a pesquisadora.