China pula etapas e lidera políticas de transição energética
China pula etapas e lidera políticas de transição energética
Capacidade de inovação e investimento em tecnologias de ponta fazem país superar EUA

Maior emissora de CO2 do mundo e frequentemente acusada de desrespeitar acordos internacionais sobre o clima, a China pulou etapas nas duas primeiras décadas do século XXI e hoje é considerada a maior produtora global de tecnologias e de políticas públicas de estímulo à transição energética.
Em um curto período de 20 anos, o país reescreveu também sua reputação. A imagem de mero “copiador”, que acompanhou o Estado chinês por muito tempo, está sendo gradualmente substituída pelo reconhecimento de sua capacidade de inovação e de desenvolvimento de tecnologias de ponta, superando inclusive os Estados Unidos – a maior potência econômica do planeta.
Essas conclusões constam da tese de doutorado, apresentada no Instituto de Economia (IE) da Unicamp no final de 2024, pelo pesquisador Lucas Corrêa, sob a orientação do professor Antonio Diegues e a coorientação do também professor Renato Garcia.
Corrêa lembra que a China e os Estados Unidos são, respectivamente, o primeiro e o segundo maiores consumidores de energia e maiores emissores de CO2 e de gases de efeito estufa do mundo. Juntos, emitiram 44,3% do CO2 resultante da queima de combustíveis fósseis em 2020 – 30,7% desse montante veio da China e 13,6%, dos Estados Unidos. Esses dados, diz Corrêa, fazem dos dois países elementos centrais de qualquer tentativa de transformação do setor energético para enfrentar a crise das mudanças climáticas.
A tese, segundo o pesquisador, pretendeu analisar as estratégias dos Estados Unidos e da China para o desenvolvimento de tecnologias-chave capazes de promover a transição para as fontes de energia sustentáveis. Corrêa comparou a evolução das políticas para o setor nos dois países e concluiu que, em duas décadas, os chineses passaram da posição de retardatários para a de líderes globais.

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Diferenças
O estudo aponta as diferenças de estratégia entre as duas potências: enquanto nos Estados Unidos o papel do governo é limitado, na China o planejamento feito pelo poder central figura como componente essencial.
Mesmo respeitando as características regionais (há Estados chineses, por exemplo, que ainda dependem fortemente do carvão), o governo central da China estabeleceu políticas públicas claras na direção do desenvolvimento de tecnologias visando à transição energética.
De acordo com o estudo, desde o início do século, o governo chinês tem utilizado um amplo arsenal de instrumentos para a promoção dessas políticas, como, por exemplo, programas de concessões, medidas regulatórias e subsídios e incentivos fiscais, além da implementação de programas de ciência e tecnologia e do financiamento direto para a área de pesquisa e desenvolvimento (P&D).
A China adotou, ainda, medidas como programas de tarifas especiais, leilões e uma grande diversidade de metas de médio e longo prazo – metas referentes à capacidade instalada, à geração de energia, à redução das emissões e a melhorias nas especificações técnicas das novas tecnologias.
Houve também estímulo para o desenvolvimento de veículos elétricos – no setor privado e no sistema público de transporte. No caso dos veículos elétricos, além dos investimentos em pesquisa, implementou-se uma ampla infraestrutura voltada para a área, como os postos de abastecimento.
O governo chinês aumentou, ainda, as taxas incidentes sobre os combustíveis fósseis.
Os estadunidenses, ao contrário, apostaram em diversas iniciativas de alguns de seus Estados. “Ao invés de um plano coordenado a nível nacional para realizar a transição energética, há, nos Estados Unidos, diversas inconsistências de Estado para Estado, com diferentes tradições políticas na promoção das tecnologias verdes”, explica o pesquisador. Corrêa lembrou, também, que há no país regiões ainda muito dependentes do petróleo.
O estudo verificou que nos Estados Unidos deu-se uma atuação voltada mais ao curto prazo, com políticas temporárias ou choques pontuais. Os créditos fiscais, por exemplo, vigoram por curtos períodos e devem ser reautorizados periodicamente, explica. As incertezas a respeito desses créditos, sempre estabelecidos em caráter temporário e, por muitas vezes, expirando antes de sua renovação, dificultaram o desenvolvimento do setor renovável e reduziram o estímulo ao investimento privado em P&D. Além disso, mostra o estudo, o horizonte de tempo imposto pelas inovações no setor energético mostra-se, frequentemente, muito mais longo do que pode ser sustentado pelas empresas.
Cinco áreas
A tese comparou as tecnologias e as políticas desenvolvidas nos dois países em cinco áreas: baterias, energia solar fotovoltaica, energia eólica, eletromobilidade e smart grid (uma rede que funciona de forma inteligente, otimizando a geração, a transmissão e a distribuição de energia).
Segundo Corrêa, a partir da intensificação das políticas públicas, verificou-se um avanço progressivo da participação da China na criação de novas tecnologias.
O crescimento mais acelerado deu-se a partir da segunda década do século XXI, especialmente no caso das tecnologias relacionadas com a energia solar fotovoltaica, as baterias e a eletromobilidade.
No final de 2020, mais de um quarto de todas as patentes de energia solar fotovoltaica era chinês (primeiro lugar no mundo), contra cerca de 12% dos estadunidenses (quarto lugar). Entre os outros líderes do setor, figuram o Japão (com 16% do total de patentes) e a Coreia do Sul (14%).
No caso das baterias, mostra o estudo, a China alcançou uma participação de 17% na área de patentes transnacionais (terceira colocada do mundo), bastante atrás do Japão, com 30%, e da Coreia do Sul, com 27%, porém significativamente à frente dos Estados Unidos, com 9%.
No que se refere à eletromobilidade, os chineses respondem por 17% das patentes transnacionais (terceiros colocados no mundo), ficando pouco atrás dos japoneses (23%) e dos alemães (19%), porém novamente à frente dos estadunidenses (11%).
O país asiático ultrapassou os Estados Unidos na área de energia solar fotovoltaica no ano de 2016. Em 2017, superou-os na de eletromobilidade e, em 2018, na das baterias.
Nos casos da energia eólica e do smart grid, o crescimento revelou-se mais modesto e insuficiente para ultrapassar os estadunidenses. No final de 2020, a China tinha uma participação de 15% nas patentes em smart grid (terceira colocada do mundo), atrás dos Estados Unidos, com 21%, e do Japão, com 18%.
No caso da energia eólica, os chineses responderam por 9,9% das patentes (quarto lugar no mundo), atrás da Dinamarca, com 30%, e da Alemanha, com 13%, mas pertinho dos Estados Unidos, com 10,2%.
No geral, a participação da China no setor de energia renovável passou de 19% em 2000 para 27,5% em 2020.
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Disruptivas
O estudo também fez a contagem das patentes mais disruptivas entre as 5% mais citadas de cada ano, para cada uma das tecnologias selecionadas e também para o total agregado entre 2001 e 2020.
Nos Estados Unidos, diz a tese, verificou-se um crescimento seguido de queda no número de patentes disruptivas em energia solar fotovoltaica, energia eólica e smart grid. O país apresenta uma relativa estagnação no caso das baterias e um crescimento no caso da eletromobilidade.
Já a China, que teve, no setor, uma participação nula em parte do período analisado, viu seu número de patentes disruptivas crescer rapidamente, especialmente a partir de meados da década de 2010.
A ultrapassagem aconteceu de forma espetacular no caso da energia solar fotovoltaica: em 2010, os estadunidenses possuíam cerca de 19 vezes mais patentes de alto impacto que os chineses. Em 2020, porém, o país asiático possuía quase cinco vezes mais patentes.
No caso das baterias, a ultrapassagem também se deu de forma expressiva: em 2010, os Estados Unidos possuíam cerca de nove vezes mais patentes de alto impacto; em 2020, a China já contava com cerca de quatro vezes mais patentes do tipo.
Nas áreas de energia eólica, eletromobilidade e smart grid, ainda que a mudança tenha ocorrido de forma rápida, verificam-se números mais modestos: em 2010, os estadunidenses possuíam cerca de cinco ou seis vezes mais patentes de alto impacto; em 2020, a China possuía quase 1,5 vez mais.
Quanto ao total agregado, em 2010 os EUA possuíam 13 vezes mais patentes de alto impacto. Já em 2020, a China contava com mais de três vezes mais.
Qualidade
O estudo indica ainda que as patentes chinesas possuem um nível de qualidade já considerado superior.
Entre os critérios adotados para a mensuração da qualidade, está o número de citações. O estudo mostrou que as patentes chinesas receberam mais citações que as não chinesas – indicando uma qualidade superior. Além disso, as patentes mais recentes receberam mais citações – indicando uma melhoria da qualidade das patentes chinesas ao longo dos últimos anos.
A tese revela ainda que as citações recebidas pelas patentes chinesas, que no início do século ficaram abaixo de um (um valor significativamente inferior ao das patentes estadunidenses), apresentaram uma forte tendência de crescimento e alcançaram valores maiores do que um, em particular ao longo da década de 2010. O índice de citações recebidas é um indicador normalizado pela média. Ou seja, se o número de citações de um país for menor do que a média de todos os outros países, então o índice será menor do que um. Alternativamente, se for maior do que a média, ele será maior do que um.
“Tomando as patentes como indicador da inovação nacional, as evidências apresentadas [no estudo] sugerem ser razoável argumentar que, em um período relativamente curto de apenas duas décadas, a China não apenas emparelhou com os líderes anteriores, mas deu início a um processo de ultrapassagem, passando de uma posição de seguidor para uma de liderança no caso das tecnologias energéticas verdes”, conclui Corrêa.
“O trabalho mostra não apenas que a China patenteia mais, mas também que essas patentes são importantes por conta das citações que recebem”, observa o coorientador da tese.
Segundo Garcia, os países já perceberam que as políticas de inovação precisam incorporar elementos ambientalmente responsáveis. “Hoje, a política de inovação precisa ser ambientalmente responsável”, alerta.
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Emissões
O orientador do trabalho acredita que os chineses estão preocupados com a redução das emissões de gases do efeito estufa. Para Diegues, a política ambiental que resultou na expansão do setor de energias sustentáveis prova isso. Mesmo assim, o professor prevê que o volume das emissões vai continuar crescendo.
Diegues explica que a renda per capita chinesa ainda é baixa e que, por isso, o país tem de continuar se expandindo economicamente.
O orientador observa também que a tese desfaz o mito sobre haver um desrespeito da parte da China quanto às metas de redução das emissões de gases do efeito estufa, pois mostra que o país tem caminhado claramente rumo às energias verdes. “Apesar de ser o principal poluidor [do mundo], a China é, hoje, o país que mais investe na transição [energética].”
Diegues chama a atenção para a amplitude da transformação atualmente em curso no país asiático. “Além de ambientalmente corretas, as políticas em desenvolvimento também visam transformar a estrutura, o que pode resultar em uma grande e profunda mudança”, conclui.