Ninguém pode imaginar como foi. Não é possível se colocar no lugar de quem vivenciou tamanha tragédia. Foge à nossa capacidade compreender o que foi sofrido na Segunda Guerra Mundial. Com os 80 anos do lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, vale uma reflexão, ainda que breve, sobre o que aconteceu e o que ainda pode acontecer.
Cresci nos anos 80 e 90, vendo os clássicos filmes de guerra de Hollywood, onde claramente havia um mocinho e um vilão. Mas foi na minha juventude, na primeira década deste século, que o destino me mostrou o verdadeiro roteiro da tragédia humana. Tive a oportunidade de visitar dois lugares emblemáticos, que rememoram, em detalhes, o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial: o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e o Museu do Memorial da Paz, em Hiroshima, no Japão. Nesses lugares, pude ver as faces da morte e da crueldade contada pelos dois lados da batalha. Ao final das visitas, a vida me segurou pelos ombros e disse: acorda!
O roteiro hollywoodiano de mocinhos e vilões se sustenta apenas nas telas do cinema. Em uma guerra, não existem mocinhos nem vilões, só existem exércitos. Para conseguir a vitória, eles propagam a morte e a crueldade, com o objetivo de submeter o adversário e conquistar hegemonia total, tanto de territórios quanto de narrativas.
Talvez minha juventude tenha terminado naqueles dias. Talvez a visita àqueles lugares tenha me ensinado mil vezes mais que os tantos livros que li e conversas que tive. Imaginei como seria o mundo se todos os jovens tivessem a oportunidade de passar pela mesma experiência, de conhecer o terror infligido pelos dois lados, ver as máscaras de mocinho e vilão serem fundidas, substituídas por capacetes de soldados e fardas de generais. Entender o que é uma guerra, seus objetivos e suas consequências deveria ser conteúdo obrigatório em todas as escolas. Então, acordei.
Quando vejo, nos jornais, a guerra e a morte sendo tratadas como coisas normais e justificáveis, o uso de armas nucleares sendo exaltado e pessoas vistas como inimigas sendo submetidas à máxima degradação humana, aquelas imagens voltam à minha frente, como uma pintura. Se não é possível levar todos os jovens para visitar esses lugares, pelo menos temos, como sociedade, a obrigação de alertar sobre o que já passou e o que pode voltar a acontecer. É preciso anunciar aos prodígios das redes sociais que tudo o que essas pessoas declaram, projetam e almejam já foi feito no passado. O resultado, já sabemos, pois tudo irá se repetir, como um ciclo.
Depois da rosa, de um lado teremos vencedores, mocinhos contando a verdade. Do outro, um povo submetido, sem voz. Porém, se nossos jovens forem adequadamente educados, não enxergarão vencedores. Verão a guerra como episódio trágico, e não como aventura heroica. Suas mentes estarão blindadas contra os discursos alienadores de massa. Seus corações estarão cheios de empatia. E, se tivermos sorte, serão eternos defensores da paz.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp
Renato Falcão Dantas é professor titular da Faculdade de Tecnologia da Unicamp e líder do grupo de pesquisa Processos avançados de tratamento de água e efluentes, com ênfase em ozonização e processos oxidativos avançados. Também atua como assessor do Gabinete do Reitor.
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