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Empresa-filha é criada para levar ao mercado solução que melhora o tratamento do câncer

A invenção denominada ImmunoClor sana os problemas dos tratamentos convencionais do câncer de bexiga

Logo do Prêmio Inventores Unicamp composto por duas silhuetas de perfil de cabeças humanas em cores degradê (verde-limão à esquerda e azul-petróleo à direita) unidas por uma lâmpada estilizada no centro em tons de verde e azul, com texto em cor cinza-azulado abaixo lendo "PRÊMIO INVENTORES UNICAMP" em três linhas.

Os tratamentos convencionais do câncer de bexiga enfrentam crise de desabastecimento do insumo BCG (Bacilo de Calmette e Guérin), bem como podem comprometer a qualidade de vida dos pacientes por causa dos efeitos colaterais. Com o propósito de criar melhores condições de tratamento, pesquisadores da Unicamp avançaram no desenvolvimento de conhecimentos capazes de “destravar” o sistema imunológico do paciente com câncer para que ele volte a combater o tumor. A solução tecnológica é mais acessível, sendo produzida 100% com tecnologia brasileira, gera menos efeitos colaterais para o paciente epossui processo de fabricação sintético e escalável. A tecnologia em questão foi licenciada por intermédio da Inova Unicamp para a Aeter Biotech, empresa-filha cadastrada e spin-off acadêmica da Unicamp.

O desenvolvimento da invenção foi liderado pelo professor e pesquisador Wagner Fávaro, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, em conjunto com João Carlos Cardoso Alonso, médico urologista e pesquisador do IB, André da Silva Santos, médico e doutorando na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), e Lucas Felipe de Lima, pesquisador do Instituto de Química (IQ). A pesquisa culminou na fundação da startup Aeter Biotech, que tem Cardoso Alonso e Silva Santos como sócios-administradores e Fávaro como sócio-consultor.

A transição do laboratório de pesquisa para o mercado foi viabilizada pela Inova, responsável por toda a gestão do fornecimento não exclusivo de know-how para a spin-off.

“O papel da Inova Unicamp foi um divisor de águas. Todo o suporte oferecido na proteção da propriedade intelectual, na negociação do licenciamento e no direcionamento para a fundação da spin-off acadêmica nos deu a segurança jurídica e estratégica necessária para transformar a pesquisa desenvolvida na Universidade em uma solução concreta para a sociedade”, ressalta Fávaro sobre a relevância estratégica da Inova Unicamp em todo o percurso.

A Aeter Biotech é classificada como spin-off acadêmica por ser fruto de anos de pesquisas no IB e no IQ Unicamp. Ela também é empresa-filha por ter sido fundada por docentes e pesquisadores da Universidade e estar cadastrada na base de dados gerida pela Inova Unicamp, integrando a rede de relacionamento Unicamp Ventures.

Quatro profissionais em jaleco branco posicionados lado a lado em um laboratório equipado com filtro de água azul, geladeira branca, prateleiras, quadro de cortiça com anotações e materiais diversos na parede ao fundo, sendo três pessoas de estatura mediana à esquerda e uma pessoa de estatura maior à direita usando crachá com logotipo institucional visível no peito.
O professor Wagner Fávaro, do Instituto de Biologia, sócio-consultor da Aeter Biotech com equipe em seu laboratório;

Gargalo na saúde pública

Segundo Fávaro, o câncer de bexiga requer um dos tratamentos mais caros para os sistemas de saúde globais e atinge cerca de 11 mil novos pacientes por ano no Brasil, com mais de 90% dos casos associados ao tabagismo e a hábitos ocupacionais. O pesquisador explica que cerca de 75% dos diagnósticos são tumores que não invadem a camada muscular da bexiga. E, em casos assim, o tratamento padrão consiste na raspagem cirúrgica do tumor seguida da aplicação de BCG, um insumo que estimula o sistema de defesa do corpo, no órgão.

Mas esse tratamento tradicional falha em aproximadamente 50% dos pacientes, enquanto a quimioterapia chega a falhar em até 80% dos casos, detalha o professor do IB. Quando a terapia falha, a alternativa restante é a remoção cirúrgica total da bexiga com a reconstrução do trajeto urinário em uma alça do intestino. O paciente, então, passa a urinar por uma bolsa acoplada ao abdômen.

“Enfrentamos hoje, tanto no Brasil quanto no mundo, o que chamamos de uma necessidade médica não atendida no câncer de bexiga. Quando o tratamento convencional com a BCG falha, a opção que resta ao paciente é a cistectomia radical. Trata-se de uma cirurgia de grande porte associada a taxas de 60% a 90% de comorbidades e complicações, e muitos idosos nem sequer possuem condições clínicas de suportá-la”, diz Fávaro sobre a gravidade da situação enfrentada por médicos e pacientes.

O professor do IB acrescenta que o cenário é agravado pelo desabastecimento de BCG oncológico e que, no Brasil, a suspensão da produção nacional pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) faz pacientes e hospitais recorrerem à importação.

Solução inédita para o tratamento do câncer

Tudo começou com a equipe de pesquisadores da Unicamp investigando por que alguns casos de câncer resistiam aos tratamentos. A resposta encontrada revelou que as células dos pacientes produziam níveis elevados de monoamina oxidase (MAO), uma substância que acelera e controla as reações do corpo. Em um tumor, ela desativa as células de defesa do organismo, permitindo o crescimento do câncer e a disseminação da doença.

Com base nesse achado, a tecnologia ImmunoClor (CIN-1+IMAO-A) da Unicamp foi desenhada com um mecanismo duplo e integrado:

  • Estrutura nanoinorgânica imunoestimulante para atuar carregando o medicamento e estimulando as células de defesa do organismo.
  • Inibição enzimática da MAO por meio do medicamento que bloqueia a enzima MAO no tumor, revertendo a imunossupressão e fazendo o sistema imunológico voltar a combater o tumor (ação antiimunossupressora).

“Analisamos molecularmente os pacientes que falharam nos tratamentos anteriores e descobrimos que esses tumores expressavam taxas altíssimas de MAO, o que desativava o sistema imune. A nova tecnologia traz uma abordagem inédita: a estrutura nanoinorgânica ativa o sistema de defesa, enquanto o inibidor acoplado bloqueia a enzima tumoral. É um mecanismo duplo que ‘destrava’ a resposta do próprio organismo contra o câncer”, destaca Fávaro.

Nos testes in vivo (em modelos animais), a solução tecnológica demonstrou redução de 84% dos tumores de bexiga. Os pesquisadores também revelaram que os testes apresentaram redução significativa em casos de tumores cerebrais.

Duas pessoas em jaleco branco e luvas azuis em ambiente de laboratório, com a pessoa à esquerda pipetando líquido azul em bandeja de cultivo contendo amostras, enquanto a pessoa ao fundo observa, com equipamentos científicos, bancada cinza e iluminação fluorescente ao fundo.
A tecnologia ImmunoClor (CIN-1+IMAO-A) foi desenhada com um mecanismo duplo e integrado

Os pacientes e o futuro

A tecnologia licenciada pela Inova Unicamp para a Aeter Biotech é constituída por uma nanoestrutura sintética (partícula microscópica criada em laboratório). Portanto, a fabricação é escalável e padronizada.

Outra vantagem do novo método é a eliminação do risco de contaminação biológica e de desabastecimento, garantindo o fornecimento contínuo sem a dependência de importações ou de processos biológicos lentos e suscetíveis a contaminações, como o cultivo bacteriano do insumo BCG. Segundo Wagner, taiscaracterísticas assegurarão a padronização dos lotes e permitirão a produção contínua, capaz de suprir a demanda do SUS.

Em relação à eficácia e ao impacto no paciente, a tecnologia traz uma abordagem imunoestimulante e anti-imunossupressora com aplicação direta na bexiga. Ela também melhora a qualidade de vida do paciente porque não demanda a remoção do órgão. “O maior ganho para o paciente é a manutenção da sua dignidade e da sua rotina. Quando conseguimos combater o tumor preservando o órgão, evitamos uma cirurgia que traz sequelas físicas e emocionais profundas, como o uso definitivo de bolsas de urina”, completa Fávaro. Por ser uma solução de aplicação local, o tratamento se consolida como uma alternativa segura para idosos e pacientes fragilizados.

Embora o foco principal até aqui tenha sido o câncer de bexiga, os pesquisadores veem perspectivas promissoras para o uso da tecnologia no tratamento de outras doenças. Resultados positivos em casos de tumor no sistema nervoso central já foram observados, por exemplo. Outras amostras apontam a viabilidade de uso em quadros de câncer de pulmão, próstata, mama, rim e colorretal.

Matéria na íntegra publicada originalmente no site da Inova Unicamp.

Foto de capa:

Três pessoas em jaleco branco trabalham em laboratório, posicionadas lado a lado diante de bancada com equipamentos, sendo a pessoa à esquerda com cabelo castanho e óculos, a pessoa ao centro com cabelo vermelho, e a pessoa à direita com cabelo preto, todas observando atentamente para frente em ambiente de pesquisa com paredes azuis, armários brancos, janelas ao fundo e equipamentos científicos diversos sobre as superfícies de trabalho.
O câncer de bexiga requer um dos tratamentos mais caros para os sistemas de saúde globais e atinge cerca de 11 mil novos pacientes por ano no Brasil
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