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Atualidades

Ivan Vilela abre residência artística no IdEA com aula-espetáculo sobre a história da viola

Com auditório do IA lotado, atividade reuniu música e reflexão sobre a trajetória do instrumento e seu papel na formação cultural brasileira

A viola não esteve apenas no centro do palco. Foi também o fio condutor de uma viagem pela história e pela formação cultural brasileira na noite de quinta-feira (17), quando o violeiro, compositor e pesquisador Ivan Vilela abriu sua residência artística no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA). Com o Auditório do Instituto de Artes (IA) lotado, a aula-espetáculo “História e cultura no som da viola” combinou performance musical e narrativa histórica para apresentar diferentes contextos nos quais o instrumento se desenvolveu no país.

Professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Vilela é o novo convidado do Programa Hilda Hilst do Artista Residente. A atividade marcou o início de A horta e o mato, projeto que será desenvolvido até dezembro e propõe aproximar o conhecimento sistematizado pela academia dos saberes preservados pela oralidade e pelas práticas da cultura popular.

No palco, Vilela teve a companhia da flautista Luísa Carvalho e dos violeiros João Paulo Amaral, professor da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) e diretor da Orquestra Filarmônica de Violas, de Campinas, e Giorgio Gianelli. A abertura contou com a presença do reitor em exercício e coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, do diretor do Instituto de Artes, Fernando Hashimoto, e do coordenador do IdEA, Marco Aurélio Cremasco.

Uma história que também se ouve

Ao alternar exposição e execução musical, Vilela percorreu diferentes momentos da trajetória da viola e de sua presença nas manifestações populares brasileiras. O instrumento serviu como ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre as formas pelas quais conhecimentos, experiências e memórias foram transmitidos em uma sociedade marcada durante séculos pela predominância da oralidade entre grandes parcelas da população.

É nesse contexto que Vilela atribui à música popular uma função que ultrapassa a dimensão artística. Canções, modos de tocar e repertórios transmitidos entre gerações também conservaram narrativas de grupos que tiveram pouco acesso aos meios formais de registro.

Ao recuperar registros históricos da presença da música no país desde o período colonial, Vilela destacou que parte dessas manifestações permite conhecer experiências e perspectivas de grupos pobres e iletrados que nem sempre aparecem nos documentos produzidos pelas classes dominantes. Para o pesquisador, a música constitui, nesse sentido, uma fonte importante para compreender diferentes perspectivas sobre a história brasileira.

A discussão dialoga diretamente com a proposta da residência. Em A horta e o mato, Vilela utiliza a imagem da horta para representar aquilo que foi identificado, organizado e sistematizado pelo conhecimento formal. O “mato” representa aquilo que permaneceu fora dessas classificações — conhecimentos transmitidos pela oralidade, pelo corpo, pela memória e pelas práticas comunitárias.

Para Vilela, considerar esses conhecimentos é particularmente importante para compreender a formação brasileira, marcada por uma extensa tradição oral. A proposta da residência parte justamente da aproximação entre esses saberes e as formas de conhecimento sistematizadas pela universidade.

Três fotografias em sequência mostrando pessoas em pé ao lado de pódios de madeira clara com microfone, em um palco com cortinas pretas ao fundo, sendo que na primeira imagem uma pessoa usa óculos e blazer bege, na segunda imagem uma pessoa com óculos e blazer marrom claro segura um papel, e na terceira imagem uma pessoa com óculos e camiseta cinza segura um microfone, com uma jaqueta preta visível parcialmente no canto inferior direito.
O coordenador-geral da Universidade, Fernando Coelho (à esquerda), o coordenador do Idea, Marco Aurélio Cremasco (ao centro) e o diretor do IA, Fernando Hashimoto (à direita)

A viola como ponto de encontro

A trajetória histórica do instrumento também permitiu ao pesquisador discutir sua presença na sociedade contemporânea. Para Vilela, a associação da viola com populações historicamente afastadas dos espaços formais contribuiu para que o instrumento preservasse características próprias e permanecesse ligado às comunidades que mantiveram suas práticas musicais.

Na interpretação apresentada pelo residente do IdEA, a circulação da viola entre estratos populares foi também um dos fatores que contribuíram para sua permanência ao longo do tempo. Inserido nas comunidades e nas práticas culturais das quais fazia parte, o instrumento encontrou formas de se renovar sem perder sua vinculação com esses contextos sociais.

Hoje, segundo o pesquisador, essa capacidade de circulação pode ser observada também nas orquestras de viola, que aproximam pessoas de diferentes gerações e contextos sociais em torno da prática musical.

Vilela destacou que esses conjuntos criam espaços de convivência entre pessoas de diferentes segmentos sociais, faixas etárias e trajetórias. Nesse ambiente, a prática compartilhada da viola funciona como elemento de aproximação entre indivíduos que, em outras circunstâncias, dificilmente se encontrariam.

A própria configuração da aula-espetáculo tornou visível parte dessa ideia. Ao lado de Luísa Carvalho e com as participações de João Paulo Amaral e Giorgio Gianelli, Vilela articulou diferentes instrumentos, experiências e gerações no palco enquanto apresentava ao público os caminhos percorridos pela viola.

Auditório com aproximadamente cem pessoas sentadas em cadeiras de madeira organizadas em fileiras, vestindo roupas de cores variadas incluindo azul, preto, branco, amarelo, marrom e rosa, com paredes azuis de tijolos aparentes, teto cinzento com luminárias e ventilação, e portas cinzas ao fundo, onde algumas pessoas estão em pé observando o ambiente.
Para um auditório lotado, Vilela apresentou alguns que deverão acompanhar Vilela durante os três meses de residência no IdEA

Da aula-espetáculo à residência

A noite no Instituto de Artes apresentou alguns dos temas que deverão acompanhar Vilela durante os três meses de residência no IdEA. Além da relação entre oralidade e conhecimento acadêmico, o projeto prevê atividades sobre viola caipira, música popular e o Clube da Esquina, movimento musical mineiro que representa outra frente de pesquisa desenvolvida pelo músico.

A programação inclui oficinas, encontros e debates, além de uma edição especial do “Café com IdEA” e da mesa “Música popular em pauta: dilemas e perspectivas”. O projeto prevê ainda interlocuções com pesquisadores e atividades em diferentes espaços da Universidade.

Mais do que servir como apresentação da programação, porém, a aula-espetáculo colocou em prática a questão que orienta A horta e o mato”. Durante a noite, história e música não apareceram separadas entre aquilo que se explica e aquilo que se toca. A própria viola funcionou como documento: um instrumento por meio do qual experiências, encontros e conhecimentos atravessaram gerações.

Foto de capa:

Pessoa sentada em cadeira preta, usando camisa rosa claro e calça verde-oliva, segurando microfone na mão direita em frente a um pódio de madeira com microfone fixo, contra fundo preto.
Professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Ivan Vilela é o novo convidado do Programa Hilda Hilst do Artista Residente.
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