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Atualidades Cultura e Sociedade

Arte, censura e resistência em exposição na Biblioteca de Obras Raras

‘Estado de Edição’, de Élcio Miazaki, apresenta trabalhos e processos de artistas que enfrentaram diferentes formas de silenciamento

exposição censurada élcio miazaki
Obra de Élcio Miazaki, que transformou a censura em material de reflexão e que abre exposição na Unicamp: Foto Divulgação

Quando uma exposição é impedida de abrir, o que resta ao artista? No caso do paulistano Élcio Miazaki, a resposta foi transformar a própria interrupção em matéria de criação. Estado de Edição, que chega nesta quinta-feira (13) à Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho” (Bora), nasceu como um desdobramento da exposição Habeas Corpus, suspensa às vésperas da abertura, em Ouro Preto (MG), e se ampliou para reunir histórias de outros artistas que também enfrentaram censura, violência, ameaças ou tentativas de silenciamento.

Em março deste ano, um dia antes da abertura de Habeas Corpus em uma galeria da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), Miazaki soube, por uma mensagem de uma repórter, que a mostra havia sido suspensa pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult). A justificativa apresentada foi a de que a classificação indicativa, definida como 14 anos, seria inadequada ao conteúdo da exposição.

Segundo o artista, que trabalha com fotografia e performances em vídeo e investiga as relações entre imagem, poder, violência e os legados da ditadura militar brasileira, a suspensão ocorreu sem negociação prévia sobre a classificação indicativa ou sobre possíveis adequações. “Só falaram que não ia poder e pronto”, relata. A mostra foi posteriormente transferida para o Memorial de Direitos Humanos Ocupado, no antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em Belo Horizonte (MG).

Essa experiência deu origem ao projeto Estado de Edição, que reúne estudos, documentos, fotografias, publicações, registros e outros materiais relacionados aos processos de criação de artistas brasileiros que enfrentaram diferentes formas de silenciamento em episódios recentes.

Uma rede de histórias
A experiência vivida em Ouro Preto trouxe repercussão nas redes sociais e aproximou Miazaki de outros artistas que passaram por situações semelhantes. Entre eles está Wagner Schwartz, cuja performance La Bête, apresentada no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em 2017, desencadeou uma onda de acusações e perseguições depois que um trecho da apresentação foi retirado de contexto e disseminado nas redes sociais.

Na performance, Schwartz apresentava uma releitura de Bichos, de Lygia Clark, na qual o público era convidado a interagir com seu corpo nu. Um vídeo que registrava uma criança tocando o corpo do artista durante a apresentação foi usado para acusá-lo de pedofilia. O episódio provocou ameaças e levou o artista a deixar o Brasil. Posteriormente, o Ministério Público Federal (MPF) concluiu que não houve crime de pornografia infantil na performance.

capa do livro Wagner Schwartz, que posteriormente será integrado à biblioteca da Bora
Capa do livro de Wagner Schwartz, que será integrado à biblioteca da Bora

Schwartz está presente em Estado de Edição com seu livro A Nudez da Cópia Imperfeita, no qual conta sua experiência. Para Miazaki, o episódio continua emblemático porque, quase dez anos depois, situações semelhantes voltam a acontecer. “Vivemos realmente em tempos muito difíceis, parece que não andamos”, afirma.

Entre os casos mais recentes, cita, estão as artistas Andrea Eichenberger e Patrícia Paixão, que tiveram exposições individuais impedidas de abrir no Rio de Janeiro (RJ) e em Salvador (BA), respectivamente. No caso de Eichenberger, o mesmo trabalho que enfrentou resistência no Brasil havia sido apresentado na França, onde a fotógrafa catarinense é radicada. “A mostra também apresenta trabalhos de Tales Frey, alguns deles relacionados a uma mesma situação de impedimento em uma mostra em uma instituição ocorrida há mais de uma década”, aponta. 

Para Miazaki, os episódios revelam que a violência contra a produção artística pode assumir diferentes formas. A proposta de Estado de Edição é justamente olhar para o que acontece com uma obra depois que ela é questionada, interrompida ou impedida de ser apresentada. “Apesar de tudo, da censura e do impedimento, acho que, por outro lado, teve esse acolhimento. Trouxe outras pessoas para perto que também passaram pela mesma situação”, afirma.

Ao reunir diferentes histórias, Estado de Edição não apenas recupera episódios de censura e violência contra artistas, mas procura mostrar como essas experiências continuam produzindo memória, reflexão e novas formas de criação. “A arte incomoda mesmo”, resume. A exposição integra um projeto expositivo mais amplo, intitulado Corpo de Prova, concebido por Miazaki como uma exposição expandida. A proposta se desdobra em diferentes cidades e espaços independentes e terá uma etapa em Ribeirão Preto, em outubro.

Obra inédita

A mostra na Bora também traz uma novidade: uma obra que não integrou a montagem de Habeas Corpus em Ouro Preto e que Miazaki decidiu apresentar pela primeira vez em Campinas.

Dispostos em três recipientes, elementos estabelecem relações com estratégias de resistência e símbolos da repressão durante a ditadura militar. Para enfrentar a cavalaria, manifestantes de São Paulo usavam bolas de gude para atrapalhar a passagem das tropas; em outras regiões do país, eram usados caroços de açaí. Completa a obra um par de abotoaduras ligadas ao símbolo do cavalo-marinho, utilizado pelo antigo DOPS de São Paulo. 

bolinhas de gude e abotoaduras: ditadura
Bolinhas de gude e abotoaduras: elementos de resistência

Ao aproximar objetos aparentemente banais de memórias da violência política, o trabalho amplia a investigação sobre os vestígios da ditadura e suas formas de permanência no presente.

Para a coordenadora técnica da Bora, Danielle Thiago Ferreira, a exposição, que integra a programação dos 60 anos da Universidade e poderá ser visitada no Unicamp de Portas Abertas (UPA), no dia 22 de agosto, dialoga diretamente com a história política e cultural do Brasil e da própria instituição. “Conectamos a arte como forma de resistência ao colocar em pauta episódios de censura e as lutas pela redemocratização, em consonância com a exposição, que lança luz sobre o período de fundação da Unicamp, resgatando os episódios de resistência, das lutas contra a repressão ditatorial e o papel ativo da comunidade universitária no processo de redemocratização do país”, destaca.

A exposição conta com a parceria com a Feira [SUB] de Arte Impressa e Publicações Independentes. A aproximação com o evento também permitiu incorporar publicações produzidas pelos artistas participantes. Entre elas está o livro de Wagner Schwartz, que posteriormente será integrado à biblioteca da Bora. “Trazer a público os processos de uma exposição como essa é abrir espaço para o diálogo, preservar a memória e reafirmar o papel da arte como lugar de reflexão”, afirma Marcela Pacola, uma das organizadoras da Feira [SUB].

Serviço

Exposição Estado de Edição, de Élcio Miazaki
Abertura: 13 de agosto, às 12h. Conversa com o artista às 13h
Visitação: até 26 de outubro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h (exceto feriados)
Local: Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho” (Bora) – Rua Sérgio Buarque de Holanda, 441, Cidade Universitária
Entrada: gratuita
Classificação: 14 anos

Foto de Capa:

exposição Estado de Edição, de Élcio Miazaki
Élcio Miazaki durante montagem de exposição na Unicamp
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