A importância do Mediterrâneo transcende seus limites geográficos. Ele está na origem de grande parte das formas sociais, alimentares, plásticas, linguísticas e mentais que compõem as sociedades fora do Mediterrâneo, a começar pela língua deste texto. Matriz das civilizações de três continentes em profunda interação e referência primordial de uma população de mais de 540 milhões de pessoas, o Mediterrâneo está morrendo diante de nossos olhos. Sua forma quase completamente fechada, sua menor extensão e a intensidade de pressão antrópica exercida pelas sociedades que ele banha tornam-no particularmente vulnerável. Trata-se, em suma, de um dos mais típicos exemplos de um colapso indissociavelmente socioambiental.
A agonia do Mediterrâneo começa pelo aquecimento de suas águas. Entre 1982 e 2022, o Mediterrâneo sofreu um aquecimento a taxas entre 0,37 oC e 0,41 oC por década.[1] Trata-se do mar que mais rapidamente se aquece e se saliniza no planeta, com uma taxa de aquecimento 20% maior do que a da média oceânica global.[2] As ondas de calor marítimo aumentaram 40% em frequência e 15% em duração ao longo dos últimos dois decênios, ocasionando mortandades de corais, moluscos e equinodermos, como as estrelas do mar.[3] Em 2022, o Mediterrâneo sofreu temperaturas em torno de 30 oC na costa da Córsega e novamente em 2023 na costa italiana.[4] Em 2025, Ernesto Napolitano e colegas afirmaram que “desde 2022 essa tendência se acelerou marcadamente, culminando em 2024, o ano mais quente e mais dinamicamente energético das últimas quatro décadas. Recordes de suas temperaturas superficiais foram observados nas porções oeste e leste desse mar”.[5] A plataforma continental de Israel já se aqueceu em média cerca de 3 oC entre 1980 e 2013 e atingiu uma temperatura superficial de 32 °C no verão de 2020.[6] Segundo dados reportados pelo Sea Shepherd:[7]
“Em meados de agosto de 2024, a temperatura das águas na costa do Egito atingiu o recorde de 31,96 °C, o valor mais alto já registrado. Além disso, a temperatura mediana diária em todo o Mediterrâneo subiu para 28,9 °C, superando o recorde de 28,71 °C estabelecido em 2023”.
Em 1º de julho de 2025, a temperatura marítima atingiu 30,99 oC em torno das ilhas Baleares.[8] “O Mediterrâneo não é mais o mesmo mar que costumava ser”, concluem os autores de um relatório do WWF.[9] Além disso, como acima evocado, o Mediterrâneo sofre pressões antrópicas crescentes, que incluem poluição, acidificação (pH -0,1 em relação ao período pré-industrial) e eutrofização por excesso de fertilizantes. A sobrepesca é outro fator primordial da agonia do Mediterrâneo. Ela está dizimando três quartos de seus estoques de peixes, inclusive o tubarão branco, já em fase terminal de extinção. No oceano e nos mares que circundam a Europa, apenas 28% dos estoques avaliados de peixes são explorados de forma sustentável e encontram-se em boas condições biológicas, segundo critérios propugnados pela Agência Ambiental Europeia. Mas no Mediterrâneo e no mar Negro, apenas 9% desses estoques correspondem a esses critérios. Um relatório dessa agência mostra que a tendência à desertificação de vida nesse mar está longe de se reverter:[10]
“Não há sinais claros de melhora no Mediterrâneo e no mar Negro. Embora os níveis de mortalidade por pesca tenham diminuído nos últimos anos, a maioria dos estoques continua sendo explorada em níveis insustentáveis, e a capacidade reprodutiva não apresenta melhoras em relação aos níveis de referência de 2003. Para esses estoques, poucos limiares de ‘bom estado ecológico’ (BEE) para a capacidade reprodutiva foram definidos, e é provável que a capacidade reprodutiva estivesse abaixo de um nível saudável já em 2003”.
As espécies invasivas se multiplicam. Quase mil espécies exógenas de peixes migraram para lá, vindas do mar Vermelho e do oceano Índico, via canal de Suez, e essa invasão está provocando perdas catastróficas de biodiversidade. Constata-se, ademais, uma explosão populacional de águas-vivas em suas águas aquecidas e desoxigenadas, onde somente esses organismos conseguem se multiplicar. Com a sobrepesca, diminuem também seus predadores e competidores, e elas devoram mais e mais o zooplâncton e os copépodes, um grupo taxonômico de microcrustáceos (a maioria medindo entre 1 e 5 mm), de grande importância na cadeia alimentar aquática e dos quais os peixes planctívoros se nutrem. Além disso, as águas-vivas comem ovas e larvas de peixes, ameaçando ainda mais a sobrevivência de várias espécies.[11]
A elevação do nível do mar está ameaçando, juntamente com os ecossistemas costeiros, boa parte dos Sítios do Patrimônio Mundial da Unesco (SPMU) localizados à beira-mar. Um estudo de 2018 considera que, nas condições atuais (ano-base 2000), dos 49 SPMUs localizados no Mediterrâneo, 37 estão em risco, haja vista a aceleração da elevação do nível do mar.[12] Já em 2019, um evento de maré alta (“acqua alta”)inundou 70% da área de Veneza.[13]
A sorte das sociedades da Europa meridional, do Oriente Médio e da África do Norte está ligada à sorte do Mediterrâneo como ecossistema. E vice-versa. Seu colapso significará a inviabilização das sociedades mediterrâneas que o têm como referência material e simbólica. A alternância entre secas extremas e chuvas torrenciais, tais como as que destruíram partes de Valência em outubro de 2024, são apenas as primeiras, e as mais amenas, consequências dos crescentes desequilíbrios biofísicos do Mediterrâneo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] Cf. Dimitra Denaxa et al., “Insights into sea surface temperature variability and the impact of long-term warming on marine heatwaves in the Mediterranean Sea”. In, Copernicus Ocean State Report 2025, capítulo 3.3.
[2] Cf. Martine Valo, “Les eaux de la Méditerranée se réchauffent 20% plus vite que la moyenne mondiale”. Le Monde, 23 jun. 2021.
[3] Cf. Martine Valo, “Le bassin de la Méditerranée, une région encore plus exposée aux conséquences du dérèglement climatique”. Le Monde, 19 nov. 2024.
[4] Cf. John Spicer, “The Mediterranean has experienced record sea temperatures this summer: this could devastate marine life”. The Conversation, 18 ago. 2022; “Over 30°C: Marine heatwaves currently hitting the Mediterranean”. Centro Euro-Mediterraneo sui Cambiamenti Climatici (CMTCC), 20.jul.2023.
[5] Cf. Ernesto Napolitano et al., “Unprecedented Mediterranean sea warming in 2024: analysis of the driving mechanisms”. Frontiers in Marine Science, 6 nov. 2025.
[6] Cf. Paolo G. Albano et al., “Native biodiversity collapse in the eastern Mediterranean open access”. Proceedings of the Royal Society B (Biological Sciences), 288, 2021.
[7] Cf. “Crisis in the Med: Record Heat and Mass Die-Offs Threaten Marine Life”, Sea Shepherd, 4 set. 2024.
[8] Cf. Audrey Garric & Léa Sanchez, “La Méditerranée en surchauffe : les scientifiques «effrayés» par une canicule marine à la précocité inédite”. Le Monde, 2 jul. 2025.
[9] Cf. Evan Jeffries & Stefania Campogianni, “The Climate Change Effect in the Mediterranean. Six stories from an overheating sea”. WWF, Mediterraean Marine Initiative, Roma, 2021.
[10] Cf. “Status of Marine Fish and Shellfish Stocks in European Seas”. European Environmental Agency, 18 dez. 2024.
<https://www.eea.europa.eu/en/analysis/indicators/status-of-marine-fish-and>.
[11] Cf. Lisa-ann Gershwin. Stung! On Jellyfish Blooms and the Future of the Ocean. University of Chicago Press, 2013.
[12] Cf. Lena Reimann et al., “Mediterranean UNESCO World Heritage at risk from coastal flooding and erosion due to sea-level rise”. Nature Communications, 9, 4161, 16 out. 2018.
[13] Cf. Alex Horton & Andrew Freedman, “70% of Venice Is Now Submerged, And It’s a Disturbing Preview For Coastal Cities”. The Washington Post, 15 nov, 2019.
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