O plástico é o material industrial que mais rapidamente se proliferou no último século. Sua produção passou de cerca de 2 milhões de toneladas em 1950 para 475 Mt em 2022 e se projeta uma produção de 1.200 Mt (1,2 bilhão de toneladas) em 2060, com consequente aumento da poluição por plástico, como mostra a Figura 1.¹
Figura 1 – Tendências globais anuais entre 2000 e 2100 em milhões de toneladas: (A) na produção de plástico; (B) na geração de resíduos plásticos e (C) no estoque de plástico em uso, com discriminação por setores, de cima para baixo: (a) embalagens; (b) transporte; (c) construção; (d) uso em eletricidade e na indústria eletrônica; (e) produtos de consumo individual e institucional; (f) têxteis e (g) outros. Obs: em 2025, dados de fevereiro a 2 de dezembro.

O plástico já é responsável por cerca de 4,5% das emissões globais de gases de efeito estufa e se projeta que sua demanda duplique até 2050 e mais que triplique até 2100, com um aumento quase equivalente nas emissões de CO₂.² Hoje, já oito bilhões de toneladas de lixo plástico se acumulam no planeta, enquanto os países europeus e os Estados Unidos continuam exportando seu lixo. Em 2025, sob a falsa rubrica “material para reciclagem”, a Alemanha enviou 810 mil toneladas de lixo plástico ao exterior; o Reino Unido, 675 mil toneladas e os Estados Unidos 375 mil toneladas. A Turquia, a Malásia e a Indonésia estão entre os países destinatários. Na Malásia, Pua Lay Peng não cessa de denunciar esse “colonialismo do lixo”.³
O plástico polui a atmosfera não apenas com gases de efeito estufa, mas também com substâncias tóxicas, pois globalmente cerca de 17% de seus resíduos é incinerado, processo que libera “algumas das substâncias químicas mais tóxicas conhecidas”.⁴ O mar é outro dos destinos do lixo plástico. “A cada minuto, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de plástico é lançado no oceano”.⁵ Malgrado essas evidências, os lobbies do petróleo e da química industrial impuseram em 2025, em Genebra, mais um fracasso às tentativas diplomáticas de se estabelecer um Tratado internacional legalmente vinculante para conter a poluição dos oceanos por plástico. O Brasil associou-se aos países negacionistas que sabotaram essa iniciativa:⁶
“Oitavo maior produtor mundial de lixo plástico, o Brasil despeja anualmente cerca de 1,3 milhão de toneladas desses resíduos no mar, o que representa 8% do volume global, segundo um estudo da ONG Oceana Brasil de 2020. No entanto, pressionado por sua própria indústria, especialmente a química e a do plástico, o país deixou de apoiar um documento final mais ambicioso”.
O plástico, incluindo microplásticos (até 5 mm) e nanoplásticos (1 a 1.000 nanômetros, i.e., de 1 bilionésimo a 1 milionésimo de metro), é onipresente no planeta.⁷ As 16.235 substâncias químicas presentes em sua composição, segundo um inventário de 2025,⁸ representam uma ameaça crescente não apenas aos ecossistemas, mas também aos organismos que elas invadem. Centenas de milhares ou milhões de animais marinhos morrem enredados em redes ou por terem seus organismos invadidos por microplásticos e mesmo por fragmentos maiores de plástico, que eles confundem com alimentos. As estimativas são de que cerca de 100 mil mamíferos marinhos morrem por ano, por ingestão ou aprisionados nas 640 mil toneladas de redes de pesca que entram nos oceanos anualmente; de 81 a 123 espécies desses mamíferos ingeriram ou foram enredados em plástico.⁹
Laura Monclús e colegas, já citados, identificaram 4.219 substâncias químicas presentes nos plásticos que representam ameaças crescentes também à saúde humana, segundo quatro critérios de classificação: persistência, bioacumulação, mobilidade e toxicidade. Como lembram Landrigan e colegas, “partículas de microplástico e nanoplástico (MNPs) são cada vez mais relatadas em amostras biológicas humanas, incluindo sangue, leite materno, fígado, rim, cólon, placenta, pulmão, baço, cérebro e coração em populações de todo o mundo”.¹⁰ Talvez a mais assustadora dessas ameaças é o aumento de microplásticos e nanoplásticos no córtex frontal em amostras de 2024 em relação às de 2016:¹¹
“Amostras de cérebro, todas derivadas do córtex frontal, exibiram concentrações substancialmente mais altas de microplástico e nanoplástico do que no fígado ou no rim (…), com uma mediana de 3.345 µg por grama (…) em amostras de 2016 e 4.917 µg por grama (…) em amostras de 2024. (…) A concentração total de massa de plásticos nos cérebros analisados neste estudo aumentou em aproximadamente 50% nos últimos 8 anos”.
Entre os impactos sanitários dessa ubiquidade do plástico em nossos organismos, a acima citada revisão do The Lancet (2025) enumera: distúrbios metabólicos, endócrinos e de desenvolvimento, doenças mentais e neurológicas, doenças cardiovasculares e do aparelho respiratório, do aparelho digestório, problemas cognitivos, de memória e aprendizado, infertilidade, prejuízos imunológicos e câncer.
As curvas de crescimento futuro do plástico mostradas na Figura 1 não devem se realizar em um mundo em processo avançado de colapso socioambiental, já condenado a um empobrecimento brutal da biosfera e a um aquecimento médio global de 2 oC acima do período pré-industrial nos próximos 10 a 15 anos.¹² E esse nível já catastrófico de aquecimento será apenas uma breve etapa em direção a aquecimentos ainda maiores nos anos sucessivos. O plástico é, em suma, uma ameaça existencial à vida planetária. Seu fim deve ocupar uma posição de destaque em todo programa político que pretenda, de fato, propor às sociedades uma chance de sobreviver ao capitalismo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
Referências
¹ Cf. Philip J. Landrigan et al., “The Lancet Countdown on health and plastics”. The Lancet, 1406, 10507, 6 set. 2025, pp. 1044-1062.
² Cf. Paul Stegmann et al., “Plastic futures and their CO2 emission”. Nature, 612, 7939, dez. 2022, pp. 272-276.
³ Cf. Leana Hosea, “Germany was largest exporter of plastic waste in 2025, sending 810,000 tonnes overseas, analysis finds”. The Guardian, 30 abril 2026.
⁴ Cf. Nikola Jelínek et al., Waste Incineration and the Environment, Arnika, CREPD, IPEN, CEJAD, TFA, 2024.
⁵ Cf. Global Waste Management Outlook 2024. ISWA (International Solid Waste Association).
⁶ Cf. Igor Ojeda & Vinícius Konchinski, “Por que governo brasileiro não apoia limite à produção de plástico na ONU”. Reporter Brasil, 19 agosto 2025.
⁷ Cf. Damian Carrington, “Plastic pollution discovered at deepest point of ocean”. The Guardian, 20 dez. 2018; Idem, “Microplastic pollution found near summit of Mount Everest”. The Guardian, 20 nov. 2020.
⁸ Cf. Laura Monclus et al., “Mapping the chemical complexity of plastics”. Nature, 643, 2025, pp. 349–355.
⁹ Cf. “Plastic in our Oceans is Killing Marine Mammals”. WWF-Australia, 26 junho 2025.
¹⁰ Cf. Landrigan et al. (cit), 2025: “Microplastic and nanoplastic particles (MNPs) are increasingly reported in human biological specimens, including blood, breastmilk, liver, kidney, colon, placenta, lung, spleen, brain, and heart in populations worldwide”.
¹¹ Cf. Alexander J. Nihart et al., “Bioaccumulation of microplastics in decedent human brains”. Nature Medicine, 31, 3 fev. 2025, pp. 1114–1119.
¹² Cf. James Hansen et al., “How We Know that Global Warming is Accelerating and that the Goal of the Paris Agreement is Dead”. Earth Institute, 10 nov. 2023; Stefan Rahmstorf & Grant Foster, “Global Warming has Accelerated Signficantly”. Geophysical Research Letters, 6 março 2026.
