“Um tapa na cara de Trump e Infantino”, estampou em manchete o influente jornal belga De Standaar desta terça-feira (7), ao noticiar a derrota da seleção norte-americana por 4 a 1 para a Bélgica e sua consequente eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo. Aparentemente deslocado do universo esportivo, o título sinaliza o grau de contaminação da interferência política de Donald Trump no mundial de futebol, considerado o de maior repercussão global da história.
Depois de barrar a seleção do Irã e criar restrições para delegações e torcedores de países que considera indesejáveis, o presidente estadunidense chegou ao extremo de pressionar a Fifa para que suspendesse a aplicação de uma punição a um jogador norte-americano, expulso na partida anterior pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. O governo americano chegou a produzir um documento no qual afirma, sem provas, que Claus estaria envolvido em esquemas de corrupção no futebol e, por conta disso, a punição deveria ser suspensa.

Apesar da fragilidade de seus argumentos, Trump foi atendido. A situação levantou discussões no mundo todo sobre a integridade da competição, violações de regras esportivas e éticas e a preocupação da comunidade mundial com demonstrações cada vez mais claras de autoritarismo por parte dos Estados Unidos.
“Esse tipo de atitude revela desprezo pelas regras e por quem as aplica”, sintetiza o professor de Direito Internacional Público e docente da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp Luís Renato Vedovato. Segundo ele, episódios como esse lembram táticas de países em período de exceção, como se viu na Copa de 1978 – uma das mais politizadas e controversas da história –, que ocorreu durante a ditadura militar na Argentina. O país-sede venceu a competição, e o governo ditatorial, liderado pelo general Jorge Videla, foi envolvido em denúncias de corrupção, pressão geopolítica e uso do esporte como propaganda estatal.
Vedovato chama a atenção para a gravidade do momento atual. “Um movimento contra a aplicação do Direito – contra as regras. Trata-se de uma ação capaz de formar uma tendência de simplesmente desconsiderar quaisquer estrutura de aplicação das normas – seja ela de um árbitro de uma competição esportiva; de um juiz na 1ª instância ou do próprio judiciário”, acrescenta Vedovato.
Para o professor, esse tipo de artifício poderá transbordar para outras estruturas, como resultados das urnas ou eventuais condenações judiciais. “É preciso lembrar que muitos dos apoiadores de Trump foram condenados judicialmente [pela invasão ao Capitólio em 2021] e acabaram anistiados. O próprio Trump se autoanistiou”, ressalta.
Em teoria, o episódio viola frontalmente os princípios da própria Fifa, que se diz contrária a qualquer tipo de interferência governamental no futebol. Vedovato aponta, no entanto, inconsistências na atuação da entidade. “A médio e longo prazo, isso certamente vai diminuir a importância da Fifa como organismo internacional. Essa história de que não aceita interferência política é só uma frase de efeito”, diz o docente, recordando outras circunstâncias em que a Fifa abriu exceções. Foi assim em 2014, por exemplo, quando a Rússia invadiu a Criméia, mas foi mantida como organizadora da Copa de 2018.

O cenário mudou em fevereiro de 2022, quando a Rússia iniciou uma invasão total ao território ucraniano. À época, foi desclassificada das Eliminatórias e ficou de fora da Copa do Mundo de 2022, no Catar. Contudo, Vedovato lembra que, nesse momento, os Estados Unidos foram mantidos como um dos organizadores do torneio, embora estivessem em guerra contra o Irã. “Ou seja, esse princípio de neutralidade política não é um princípio seguido de fato”, reafirma.
Repercute
A atitude de Trump gerou uma onda de protestos de entidades ao redor do mundo. A União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) expressou forte preocupação com a quebra de isonomia do torneio. Nos bastidores, Uefa viu a atitude da Fifa como uma fraqueza institucional inaceitável.
A Federação Belga de Futebol emitiu uma nota oficial criticando a “falta de critérios esportivos” e afirmando que o regulamento da Copa do Mundo deveria ser soberano, independentemente de pressões externas de chefes de Estado.
A Associação de Técnicos Europeus classificou a decisão como “um circo” e um “insulto ao trabalho dos árbitros”, argumentando que, a partir dela, qualquer país com peso político poderia tentar reverter decisões de campo no tapetão.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) repudiou os ataques verbais de Donald Trump (que chamou o juiz de “horrível” e “suspeito”). A CBF enviou uma queixa formal à Fifa exigindo respeito aos árbitros sul-americanos e proteção contra difamações políticas.
Grandes consórcios de mídia esportiva global (como a Sky Sports, L’Équipe e a ESPN) demonstraram descontentamento e foram unânimes ao concluir que a Fifa sofreu um “apagão de autoridade” e que Infantino transformou o Código Disciplinar da entidade em uma peça de negociação geopolítica.
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