A memória não é apenas um registro do passado. Ela também é uma construção permanente, moldada pelas escolhas que a sociedade faz sobre o que preservar, pesquisar e transmitir às próximas gerações. Mais do que recordar acontecimentos, lembrar é também decidir quais histórias permanecem vivas e quais serão apagadas. Essa reflexão do sociólogo Mário Medeiros, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), norteou a conferência de abertura do 12º Seminário Nacional do Centro de Memória da Unicamp (CMU), nesta quarta-feira (22), no Centro de Convenções.
Ao discutir a relação entre memória e poder, Medeiros destacou que a recordação coletiva não é neutra. “A memória social não é inocente; ela é uma forma, um exercício de poder e soberania de grupos sociais sobre outros, que determinam inclusive quem tem direito à memória ou não”, afirmou. Segundo o professor, a memória coletiva “não diz respeito ao passado”, mas constitui uma ação realizada continuamente no presente.

Com o tema “Diálogos com o Futuro: Democracia, Equidade, História e Memória”, o 12º Seminário Nacional do Centro de Memória da Unicamp (CMU) promove, até sexta-feira, reflexões sobre história, patrimônio, educação, saúde pública, cidades, cultura material e inteligência artificial. Pesquisadores de diferentes instituições participam da programação, que inclui conferências, mesas-redondas, grupos de trabalho e apresentações de pesquisas. O evento ocorre em um momento simbólico para a Universidade, em que o CMU completa 40 anos e a Unicamp celebra seis décadas de existência.
Na abertura do encontro, o reitor em exercício, Fernando Coelho, afirmou que discutir memória e democracia tornou-se ainda mais necessário diante do cenário atual. Segundo Coelho, compreender processos históricos é essencial para fortalecer valores democráticos e evitar que a sociedade repita erros do passado. “As pessoas precisam, por meio da memória e da história, entender o que acontece quando se esquecem os processos democráticos”, destacou.
A coordenadora do CMU, Maria Silvia Duarte Hadler, ressaltou que o seminário reflete a própria missão do Centro de Memória, que vai além da preservação de documentos e atua como um espaço de produção de conhecimento e de diálogo com a sociedade. “Somos um centro de documentação, mas também um centro de pesquisa. Nos propomos a ser um espaço público, aberto tanto a pesquisadores quanto à população em geral, sempre atentos às questões que afetam a sociedade brasileira.”
Para Hadler, a escolha do tema desta edição expressa a necessidade de refletir sobre os rumos da sociedade brasileira. “Quando falamos em diálogos com o futuro, estamos perguntando que futuro queremos construir e qual é o papel da memória nesse processo”, completou.


O assessor de pesquisa do CMU, André Luiz Paulino, apontou que a 12ª edição do seminário reafirma o compromisso do Centro de Memória da Unicamp com a pesquisa, a preservação do patrimônio cultural e a produção de conhecimento. “É um evento que ousou pensar o futuro a partir da história e da memória, sempre a partir de uma perspectiva democrática e plural.” Segundo Paulino, o encontro também “reitera os compromissos do CMU com a pesquisa e a preservação do patrimônio cultural”.
Representando a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), o coordenador-adjunto Marcus Corat destacou que a discussão proposta pelo seminário ganha ainda mais relevância em um contexto marcado pela rápida circulação de informações, pela desinformação e pelo apagamento histórico. “Nunca produzimos tantos registros sobre a realidade e, ao mesmo tempo, convivemos com formas cada vez mais sofisticadas de desinformação, manipulação de conteúdos e apagamento histórico.”
Esse compromisso com a produção de conhecimento também aparece na formação de novos pesquisadores, que ganharam espaço no evento. Uma exposição reúne 28 pôsteres desenvolvidos por graduandos, com pesquisas de iniciação científica que abordam temas diversos, como escravidão, urbanização, patrimônio documental e interpretação de fontes históricas.


Entre os trabalhos apresentados, está o da estudante de Filosofia do IFCH Natália Yumi Okino, orientada por Hadler, que investigou a representação das mulheres em revistas publicadas entre as décadas de 1950 e 1970, pertencentes ao acervo do CMU. O estudo analisou exemplares das publicações A Cigarra, O Cruzeiro e Manchete e identificou mudanças graduais na forma como o universo feminino passou a ser retratado ao longo do período.
“Nas primeiras décadas predominavam imagens associadas ao ambiente doméstico, aos cuidados com a família e ao papel da dona de casa. Já no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 surgem representações mais ligadas à autonomia feminina e à valorização do corpo”, explica a estudante.
Ao transformar documentos em objetos de investigação e aproximar estudantes, pesquisadores e a sociedade, o CMU quer preservar o passado sem perder de vista o futuro. A memória, nesse sentido, deixa de ser compreendida como um conjunto estático de documentos e passa a ser um campo vivo de pesquisa e reflexão. “Esse seminário é um convite a pensarmos com maior profundidade os desafios que nos são colocados e em como podemos costurar articulações possíveis”, completou Hadler.
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