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Comissão internacional da The Lancet busca ampliar acesso à medicina de precisão

Íscia Cendes integra grupo que vai propor diretrizes para equidade de diagnósticos, tratamentos e estratégias de prevenção

Frequentemente associada a exames sofisticados e tratamentos de alto custo, a medicina de precisão ainda é vista como uma realidade restrita a centros altamente especializados. Uma nova comissão internacional criada pela revista científica The Lancet, intitulada “The Lancet Commission on Precision Health”, pretende mudar essa percepção. O grupo reúne mais de 20 especialistas de diversos países, entre eles Iscia Lopes-Cendes, docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Neurociências e Neurotecnologia (Cepid-Brainn), sediado na Unicamp.

Lopes-Cendes, especialista em medicina genômica e em tecnologias aplicadas às neurociências, é uma das duas representantes da América Latina no grupo, que conta também com o psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo ela, o objetivo da comissão é formular recomendações para que estratégias de saúde de precisão possam ser incorporadas de forma equitativa a sistemas de saúde em todo o mundo.

Nesse processo, destaca, o Brasil pode desempenhar um papel importante. “Vejo o Brasil como tendo uma grande responsabilidade de fazer a coisa certa, porque somos uma vitrine para os outros países da América Latina e para os países do Sul Global.”

De acordo com Lopes-Cendes, o país ocupa uma posição estratégica por reunir características que podem transformá-lo em referência. “Podemos fazer essa implementação com equidade porque, desde que isso ocorra no Sistema Único de Saúde (SUS), que tem uma capilaridade enorme, isso vai chegar para todos os brasileiros.”

Rack laboratorial branco contendo frascos de vidro transparente com tampas azuis, dispostos em fileiras sobre uma superfície perfurada, em ambiente de laboratório com fundo desfocado.
O avanço da medicina de precisão depende não apenas de novas tecnologias, mas também da qualidade das pesquisas produzidas na área

A pesquisadora ressalta que a combinação entre um sistema público universal, a crescente integração de bases de dados em saúde e a experiência acumulada em políticas de prevenção coloca o Brasil em posição privilegiada para testar modelos que posteriormente possam ser reproduzidos em outras regiões do mundo.

“Pelas características do Brasil, um país que produz muita estatística e está nesse momento de transição para um patamar mais elevado de desenvolvimento, existe um grande interesse internacional no que acontece aqui. Pode ser que estudos de caso brasileiros sejam publicados no âmbito da comissão. Nosso sistema de saúde é muito organizado do ponto de vista dos registros e da produção de dados, e isso permite desenvolver trabalhos muito interessantes”, completa.

A comissão foi criada para enfrentar um desafio crescente dos sistemas de saúde. Embora avanços científicos tenham demonstrado que fatores genéticos, ambientais, comportamentais e sociais influenciam o surgimento das doenças e a resposta aos tratamentos, a maior parte da assistência médica ainda é baseada em médias populacionais e protocolos padronizados. A chamada saúde de precisão busca justamente incorporar essa diversidade. “Decidimos justamente não chamar a comissão de medicina de precisão, mas de saúde de precisão, porque podemos recomendar ações relacionadas ao estilo de vida, ao comportamento e até a políticas públicas”, explica.

Segundo Lopes-Cendes, a abordagem só poderá cumprir seu potencial se for adaptada a diferentes realidades econômicas e sociais. “Essa é outra área em que o Brasil pode contribuir muito. Temos estratégias de prevenção muito bem estabelecidas no SUS. Um exemplo são as equipes de Saúde da Família, que vão às casas, fazem diagnóstico, acompanham as pessoas e atuam antes que elas precisem procurar uma unidade de saúde. Quando a equipe vai à casa da pessoa, ela vê o que a pessoa come, observa as condições do ambiente, entende o contexto social. Tudo isso é informação importante.”

Ao longo dos próximos anos, o grupo realizará revisões sistemáticas da literatura científica e analisará experiências já implementadas em diferentes países. O objetivo não é produzir pesquisas originais, mas identificar as estratégias que funcionaram e as que fracassaram para elaborar recomendações destinadas a governos, gestores de saúde e pesquisadores. “Queremos evitar que governos e sistemas de saúde precisem reinventar a roda. Vamos mostrar até onde o conhecimento chegou e propor recomendações.”

Duas mãos seguram um pequeno frasco transparente com tampa branca, do qual são retirados comprimidos vermelhos de pequeno porte.
Os resultados deverão ser divulgados ao longo dos próximos três anos em uma série de artigos científicos, abordando áreas como câncer, doenças cardiometabólicas, saúde mental e doenças neurológicas

Lopes-Cendes destaca ainda que a comissão busca preservar sua independência em relação a interesses econômicos. Segundo a pesquisadora, a The Lancet adota critérios rigorosos tanto para a seleção dos integrantes quanto para a captação de recursos. “O objetivo é evitar ao máximo a impressão de que grupos com interesses econômicos específicos estejam influenciando o trabalho”, ressalta.

Os resultados deverão ser divulgados ao longo dos próximos três anos em uma série de documentos e artigos científicos publicados pela The Lancet, abordando áreas como câncer, doenças cardiometabólicas, saúde mental e doenças neurológicas.

Diretrizes fortalecem pesquisa

O avanço da medicina de precisão depende não apenas de novas tecnologias, mas também da qualidade das pesquisas produzidas na área. Com esse objetivo, um grupo internacional de especialistas publicou, em 2024, um conjunto de diretrizes voltadas à padronização de estudos sobre medicina de precisão.

Batizado de BePRECISE, o documento foi elaborado por 23 pesquisadores e publicado na revista científica Nature Medicine. A iniciativa surgiu após uma análise de centenas de estudos que identificou falhas frequentes na forma como resultados científicos são apresentados, dificultando a comparação entre pesquisas e a aplicação prática das descobertas.

As recomendações propõem critérios mais rigorosos para a descrição de métodos, resultados e impactos clínicos, além de enfatizar a necessidade de incluir populações historicamente sub-representadas na pesquisa científica. O objetivo é garantir que os benefícios da medicina de precisão alcancem diferentes grupos sociais e não apenas populações de países mais ricos.

Segundo os autores, a medicina de precisão tem potencial para tornar diagnósticos, tratamentos e estratégias de prevenção mais eficazes ao considerar características biológicas, ambientais e comportamentais dos pacientes. Para que esse potencial se traduza em benefícios concretos para a população, porém, é necessário produzir evidências científicas mais consistentes, transparentes e representativas da diversidade populacional.

Saiba mais no site oficial.

Foto de capa:

Três pessoas sentadas em uma mesa de conferência com microfones e laptops abertos, participando de um evento, sendo que a pessoa em primeiro plano, vestindo blazer bege e óculos, está com a boca aberta em posição de fala.
A professora Íscia Cendes (à direita), uma das representantes da América Latina no grupo, durante reunião da comissão internacional
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