Cinco décadas após o golpe militar que instaurou uma das ditaduras mais violentas da história da Argentina, em março de 1976, palavras e imagens se tornam, cada vez mais, um espaço de memória e testemunho, um movimento “ainda estamos aqui”. Para a escritora argentina Nora Strejilevich, 74 anos, sobrevivente do período, as artes são instrumentos decisivos nesse trabalho de permanência: “Cabe a nós ativar a memória.”
Em 1977, Strejilevich foi presa e torturada no centro clandestino de detenção Club Atlético, em Buenos Aires. Após a libertação, viveu um longo exílio em diferentes países, experiência que se tornou matéria central de sua produção literária e acadêmica. Atualmente professora emérita da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia (EUA), a autora construiu uma obra dedicada à reflexão sobre a violência de Estado. “Para mim, a escrita é uma forma de resistência ao apagamento histórico.”
Seu romance-testemunho “Uma Só Morte Numerosa”, publicado originalmente em 1996, está sendo lançado pela primeira vez em português, pela Balaio Editorial. A autora esteve na Unicamp a convite do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) para participar da Jornada Internacional “A literatura de Nora Strejilevich aos 50 anos do golpe militar na Argentina”. Para ela, o lançamento no Brasil adquire um significado ainda mais forte por ocorrer em um momento de reativação dos debates públicos sobre memória democrática. “Demorou muito tempo, mas chegou no momento certo.”
Mais do que narrar uma experiência pessoal, o livro é construído por fragmentos, imagens, vozes e sobreposições. Memórias da infância, o desaparecimento do irmão, a prisão, a tortura e o exílio reaparecem como flashes de uma lembrança que nunca se fecha por completo. Strejilevich destaca que essa escolha formal não foi apenas estética e que responde diretamente à natureza da memória e à dificuldade de elaborar a experiência do trauma. “A estrutura do livro tenta imitar o funcionamento da memória, em que uma palavra leva a uma lembrança e essa lembrança puxa outra”, explica.

A autora ressalta que a lógica do texto se aproxima da montagem cinematográfica, em que imagens, palavras e tempos distintos se sobrepõem. “O livro tem uma construção quase visual, como acontece na montagem do cinema. Nós escrevemos livros que contam a história de uma forma diferente, mas a literatura não chega a públicos tão amplos. O cinema alcança muito mais pessoas do que a literatura”, afirma.
O cinema argentino, destaca, já tem uma tradição consolidada na abordagem da ditadura e de suas reverberações sociais. Filmes como “A História Oficial”, que rendeu o primeiro Oscar para o país, em 1986, e mais recentemente títulos como “O Segredo dos seus Olhos”, também premiado com o Oscar de filme internacional em 2009, e Argentina, 1985, entre outros, trouxeram para o centro da narrativa os dramas e as feridas de um passado doloroso. Para a escritora, esse conjunto de obras não apenas narra acontecimentos históricos, mas amplia a transmissão da memória entre gerações. “Se a história chega ao cinema, ela pode alcançar muitas vidas, um público muito maior, algo que a literatura, lamentavelmente, não consegue sozinha”, diz.
Em um tempo marcado pela circulação veloz de conteúdos e pelo predomínio das plataformas de streaming, Strejilevich vê no audiovisual “uma potência”. Cita o impacto recente do filme “Ainda Estou Aqui”, premiado com o Oscar no ano passado, que reforça o papel do cinema como catalisador do debate público sobre a violência de Estado, o trauma familiar e os silêncios históricos. “É uma forma de fazer essas histórias seguirem vivas”, ressalta.
Após ser libertada, a escritora viveu em diferentes países, como Canadá e Estados Unidos, e mais recentemente retornou à Argentina. “Meu coração e minha imaginação vivem na Argentina. É lindo pertencer a um lugar e viver ali, eu gosto disso, mas quando as circunstâncias políticas mudam e cercam a própria vida, isso é doloroso”, afirma. “Hoje, prefiro ir e voltar, não ficar de forma fixa.”
Depois do Brasil, seu próximo destino é a Itália. “Uma Só Morte Numerosa”, que já foi adaptada para o teatro nos Estados Unidos, em 2001, com o nome “A Single, Numberless Death”, será encenada em Roma. “A adaptação em inglês me impressionou muito. Agora, vai acontecer na Itália, em uma parceria com a dramaturga Ita Scaramuzza”, adianta.

A política, hoje
Ao comentar sua relação com a Argentina de hoje, Strejilevich diz que tem dificuldades diante das atuais circunstâncias políticas. Para a escritora, a eleição de Javier Milei evidenciou transformações profundas na circulação das ideias e no debate público, especialmente entre as novas gerações. “Foi uma surpresa muito grande que um personagem como Milei ganhasse. Parecia uma piada.”
Segundo ela, parte desse fenômeno pode estar relacionada à forma como as redes sociais passaram a moldar o debate político e a recepção da informação. “Passamos a um mundo de comunicação virtual, fragmentado, onde já não há espaço para o debate de ideias. Circulam imagens breves, frases curtas, e isso começa a organizar a maneira como as pessoas pensam”, disse.
A autora observa que esse ambiente favorece discursos simplificadores. “O diálogo, o debate e a conversa desapareceram”, lamenta. Para ela, o ambiente digital enfraqueceu os espaços de elaboração crítica e de escuta e essa lógica afeta, inclusive, a linguagem política e a capacidade de transmissão da experiência histórica.
Para Strejilevich, o empobrecimento da linguagem tem como consequência mais grave o enfraquecimento do diálogo como prática democrática. “O debate era justamente o que permitia avançar o pensamento”, destaca.
Ao comentar a circulação de discursos violentos nas plataformas digitais, ela é enfática ao afirmar que não é possível enfrentar esse cenário reproduzindo a mesma lógica. “Não podemos imitá-los. Não podemos entrar por essa via.” A escritora, porém, não defende um afastamento das redes, mas a necessidade de ocupar criticamente esse espaço. “Esse mundo já existe, não podemos negá-lo. O que precisamos é criar outras formas de circulação dentro desse mesmo espaço.”
Mas Strejilevich ressalta que, apesar das ameaças, o trabalho construído em torno da memória, da verdade e da justiça permanece como um patrimônio coletivo difícil de ser apagado. ““Pensávamos que memória, verdade e justiça eram intocáveis, que jamais seriam colocadas em questão e, de repente, temos um governo que questiona diretamente esse piso”, diz. Ainda assim, avalia que a força social construída ao longo das últimas décadas continua atuando como resistência. “Ele pode querer barrar, mas isso volta. Não terminará, porque a memória está muito viva na sociedade.”

Memória e presente
Ao reunir reflexão acadêmica, testemunho literário e memória histórica, a passagem de Strejilevich pela Unicamp reafirma o papel da Universidade como espaço de elaboração crítica do passado e de defesa da memória democrática. Para a organizadora do evento, Amanda Lacerda, doutoranda em Teoria e História Literária pelo IEL, o debate sobre as ditaduras latino-americanas está longe de se restringir ao campo da história. “Falar de memória é falar do presente”, destaca.
Lacerda pesquisa livros contemporâneos sobre as ditaduras do Brasil, Chile e Argentina, com ênfase nas narrativas da chamada “geração dos filhos” — autores que herdaram os traumas, os silêncios e as perguntas deixadas por aquele período.
A reflexão, segundo ela, torna-se ainda mais urgente em um momento em que discursos autoritários voltam a circular com força no debate público, muitas vezes esvaziando a complexidade histórica em slogans e revisionismos.
O evento, que marcou o cinquentenário do golpe argentino de 1976, reuniu pesquisadores da Unicamp, da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além da participação especial da escritora argentina.
No encerramento houve o lançamento do livro de Strejilevich em português, projeto que nasceu de uma rede acadêmica construída entre pesquisadores brasileiros e argentinos, em especial a partir do trabalho de Lacerda e do historiador Leonardo Claudiano, da PUC-SP.
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