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Atualidades Cultura e Sociedade

A representação nipo-brasileira na cultura vista pela literatura de Oscar Nakasato

Novo artista residente do IdEA reflete sobre poucos espaços para personagens e narrativas de descendentes japoneses na televisão e cinema

Quem conta o Brasil – e, sobretudo, quais histórias permanecem à margem das narrativas mais difundidas no país – é uma das questões que atravessam as reflexões do escritor e professor Oscar Nakasato. Ao iniciar, em maio, uma residência artística no Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp, o autor retoma um tema recorrente em sua obra: a presença ainda restrita de experiências nipo-brasileiras na literatura e em outras formas de produção cultural. Para ele, essa ausência não é casual, mas sintoma de um processo mais amplo de construção do imaginário nacional.

Segundo Nakasato, embora haja sinais de mudança nos últimos anos, a incorporação desse universo permanece limitada e desigual, especialmente quando se observa sua circulação em diferentes linguagens. A literatura, o cinema e a televisão ainda oferecem poucos espaços consistentes para personagens e narrativas nipo-brasileiras, o que contribui para uma visibilidade fragmentada. “Que o universo nipo-brasileiro faça parte do audiovisual, do cinema, da televisão, enfim, isso ainda é bastante incipiente”, afirma, ao destacar que essa lacuna atravessa não apenas a produção artística, mas também os circuitos de difusão cultural.

Fotografia de uma pessoa usando óculos de armação preta e camisa social preta, posicionada em ambiente interno com elementos decorativos ao fundo, incluindo estruturas de madeira e objetos desfocados.
Oscar Nakasato: presença ainda restrita de experiências nipo-brasileiras na literatura e em outras formas de produção cultural

Essa condição, para o autor, evidencia os limites históricos da representação no Brasil, onde determinadas experiências permanecem sub-representadas mesmo quando possuem relevância social e histórica. A presença japonesa no país, iniciada no início do século XX e profundamente enraizada em diferentes regiões, nem sempre se traduz em protagonismo narrativo. Nesse sentido, a escassez de personagens nipo-brasileiros aponta para uma seleção implícita do que merece ser contado — e do que tende a ser silenciado ou secundarizado.

Ao mesmo tempo, Nakasato reconhece que há um movimento gradual de ampliação dessas narrativas, impulsionado por novas produções e por uma maior diversidade de vozes no campo cultural. Ainda que esse avanço seja desigual, ele indica uma abertura crescente para histórias que antes encontravam pouca ressonância nos espaços mais visíveis. Trata-se, segundo o escritor, de um processo em construção, que depende tanto da produção de novas obras quanto da transformação dos critérios de legitimação no campo artístico.

A discussão sobre representação se articula diretamente com a questão da identidade, especialmente quando se observam as mudanças nas novas gerações de descendentes de japoneses no Brasil. Para Nakasato, a relação com a cultura de origem tornou-se mais difusa, marcada por distanciamentos e reinterpretações. “Grande parte dos nipo-brasileiros hoje se reconhece absolutamente como brasileira”, afirma, ao indicar que elementos da cultura japonesa persistem, mas de forma mais fragmentada e menos central na vida cotidiana.

Essa reconfiguração não implica o desaparecimento da identidade nipo-brasileira, mas sua transformação ao longo do tempo, em diálogo com processos históricos, sociais e culturais mais amplos. A identidade, nesse sentido, deixa de ser compreendida como uma herança estática e passa a ser vista como um campo dinâmico, atravessado por deslocamentos, negociações e ressignificações. Essa perspectiva permite compreender a experiência nipo-brasileira para além de estereótipos, reconhecendo sua complexidade e suas múltiplas camadas.

Essas questões estão no centro de Nihonjin, romance publicado há mais de uma década e responsável por projetar nacionalmente a obra de Nakasato. Ao revisitar o livro, o autor observa que os dilemas de pertencimento que estruturam a narrativa permanecem atuais, ainda que se manifestem de maneiras distintas no presente. A obra, que acompanha a trajetória de uma família de imigrantes japoneses no Brasil, articula memória individual e experiência coletiva para explorar os conflitos e as tensões envolvidos na construção da identidade.

Memória e ficção em Nihonjin

Desde sua publicação, Nihonjin tem sido lido não apenas como um relato sobre a imigração japonesa, mas como uma reflexão mais ampla sobre deslocamento, adaptação e pertencimento. Nesse sentido, o romance dialoga com outras experiências migratórias e com os desafios de inserção em contextos culturais distintos. Para Nakasato, essa dimensão mais ampla contribui para a permanência da obra, que continua a suscitar interpretações à medida que novas gerações se deparam com questões semelhantes sob outras circunstâncias.

O interesse do autor por essas temáticas se estende a seus projetos mais recentes, entre eles um novo romance centrado na experiência dos chamados decasséguis (brasileiros descendentes de japoneses que migraram para o Japão em busca de trabalho). Nesse caso, a narrativa se volta para o retorno ao Brasil e para o sentimento de deslocamento que acompanha esse movimento. “O protagonista é alguém que passa décadas no Japão e, ao voltar, sente-se perdido. É a questão da identidade mesmo”, explica, ao indicar a persistência do desenraizamento.

A experiência dos decasséguis, segundo o escritor, evidencia uma forma particular de deslocamento, marcada por uma dupla pertença que nem sempre se resolve de maneira harmoniosa. Ao retornar ao Brasil, esses indivíduos frequentemente se veem entre dois mundos, sem se reconhecer plenamente em nenhum deles. Essa condição liminar reforça a ideia de que a identidade é um processo em constante construção, influenciado por trajetórias individuais e por contextos históricos mais amplos.

Na elaboração de suas narrativas, Nakasato recorre a uma combinação de memória pessoal, experiência familiar e pesquisa histórica, articulando diferentes níveis de realidade na construção ficcional. “É uma história que inventei, mas com base na memória da minha família e na memória coletiva”, afirma. Esse procedimento permite ao autor criar personagens e situações que, embora fictícios, dialogam diretamente com experiências compartilhadas por diferentes grupos.

Entre memória e história

O trabalho com a memória envolve também a recuperação de episódios históricos pouco difundidos, como momentos de preconceito e exclusão enfrentados por imigrantes japoneses no Brasil, especialmente durante períodos de tensão internacional. Ao trazer esses elementos para a ficção, o autor contribui para ampliar o conhecimento sobre aspectos menos visíveis da história nacional, ao mesmo tempo em que problematiza como esses episódios são lembrados — ou esquecidos.

A circulação dessas narrativas por outras linguagens amplia ainda mais seu alcance e potencial de impacto. A adaptação de Nihonjin para o audiovisual, por meio da animação Eu e meu avô japonês, exemplifica esse processo. Para Nakasato,  não se trata de reproduzir a obra original, mas abrir espaço para transformações que respondem às especificidades de cada linguagem. “Mais do que uma adaptação, foi uma inspiração”, afirma.

Esse trânsito entre literatura e audiovisual possibilita atingir públicos distintos e explorar novas formas de narrar experiências já abordadas em outros contextos. Ao mesmo tempo, reforça a ideia de que a representação da identidade nipo-brasileira não se esgota em um único formato, podendo se expandir por diferentes meios e linguagens. Essa multiplicidade contribui para diversificar as formas de percepção e interpretação dessas narrativas.

Ao abordar a presença ainda incipiente de personagens nipo-brasileiros na produção cultural, Nakasato chama a atenção para um problema que ultrapassa o campo literário e se insere em uma discussão mais ampla sobre representação no Brasil. A ampliação dessas narrativas, segundo ele, depende não apenas da produção de novas obras, mas também da disposição do público e das instituições em reconhecer e valorizar essas histórias.

Nesse contexto, a literatura surge como um espaço privilegiado para tensionar as formas estabelecidas de representação e para abrir caminho a outras perspectivas. Ao colocar em circulação experiências historicamente menos visíveis, ela contribui para ampliar o repertório simbólico do país e para complexificar a compreensão sobre sua diversidade. Mais do que preencher lacunas, trata-se de reconfigurar os modos de narrar e de perceber a realidade brasileira.

Ilustração digital mostrando duas pessoas em um ambiente interno com janela ao fundo exibindo vegetação verde, onde uma pessoa mais jovem com cabelos escuros e vestimenta verde segura um objeto pequeno nas mãos, enquanto uma pessoa mais velha com cabelos grisalhos nas laterais da cabeça, vestindo roupa marrom e azul clara, segura palitos e aparenta estar em uma refeição.
Cena da animação da adaptação de Nihonjin para o audiovisual

Confira a programação completa:

13 de maio, 19h

Palestra de abertura: A incipiência de personagens nipo-brasileiros na produção ficcional

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

14 de maio a 01 de julho, diversos horários

Oficina de criação literária (ficção) com Oscar Nakasato | turma A

Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) | Av. Oswaldo Cruz, 301, Cidade Universitária

14 de maio a 01 de julho, diversos horários

Oficina de criação literária (ficção) com Oscar Nakasato | turma B

Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) | Av. Oswaldo Cruz, 301, Cidade Universitária

15 de maio, 14h

Conversa com Lúcia Hiratsuka: O que se diz com palavras e traços

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

02 de junho, 09h

Debate e exibição da animação “Eu e meu avô japonês”

Espaço Cultural Casa do Lago da Unicamp | Avenida Érico Veríssimo, 1011, Cidade Universitária Zeferino Vaz

03 de junho, 19h

Oscar Nakasato conversa com Carla Kinzo: Identidade nipo-brasileira no diálogo entre literatura e teatro

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

02 de julho, 19h

Mesa redonda: identidade nipo-brasileira na cultura

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

Foto de capa:

Pessoa usando óculos e camiseta verde oliva em ambiente interno, com parede ao fundo contendo arte visual e texto parcialmente visível em português que menciona "desdobramentos da Guerra na vida" e "japoneses".
Escritor e professor Oscar Nakasato inicia, em maio, uma residência artística no IdEA (Foto: Cristiano Martinez)
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