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Cepagri desenvolve ferramenta que calcula emissões de carbono nas lavouras de café

Com os dados disponíveis, o produtor poderá promover um manejo sustentável sem reduzir níveis de produtividade e rentabilidade

Depois de aproximadamente três anos de trabalho, pesquisadores  do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, concluíram o desenvolvimento de uma ferramenta capaz de calcular o balanço de emissões de carbono na cultura de café.

Acesse a ferramenta.

Num projeto em parceria com a Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), no sul de Minas Gerais, o recurso permite contabilizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o sequestro de carbono em todas as etapas da produção.

A partir da aplicação de insumos – fertilizantes usados no cultivo, queima de combustível para funcionamento de maquinário, processos de beneficiamento e outras atividades da cadeia produtiva – a solução faz a quantificação das emissões e do sequestro de GEE. Com esses dados disponíveis, o produtor poderá promover um manejo sustentável sem reduzir níveis de produtividade e rentabilidade, além de disputar o mercado interno e externo em melhores condições.

A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura
A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura

A pesquisadora do Cepagri e coordenadora do projeto Renata Gonçalves conta que há mais de 20 anos a organização global de pesquisa World Resources Institute (WRI) cria protocolos internacionalmente aceitos para o desenvolvimento de inventários corporativos de GEE. Denominados genericamente de GHG Protocol (“protocolo GEE”, em inglês), esses padrões definem as práticas internacionalmente aceitas para o desenvolvimento de inventários de GEE corporativos, de projetos ou de produtos.

Nos últimos anos, no entanto, tem crescido a demanda por diretrizes técnicas voltadas para o setor agrícola. O modelo elaborado pelo Cepagri é o primeiro destinado especificamente para a cafeicultura.

A Cooxupé é hoje uma das associações mais importantes do setor na América Latina. Conta com aproximadamente 20 mil membros produtores. Segundo a associação, Minas Gerais é responsável por grande parte da safra nacional e, dessa produção, cerca de 50% é entregue pelo Sul de Minas. No total, o estado tem uma área cultivada superior a 1 milhão de hectares. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 99% desse espaço é voltado à produção do café arábica, para o qual a ferramenta do Cepagri foi desenvolvida.

O pesquisador João Paulo da Silva, que integra a equipe de desenvolvedores, diz que a principal preocupação no processo de adaptação da ferramenta para o café foi a busca pela identificação mais precisa dos efeitos da atividade no carbono estocado no solo.

“Isso demandou um trabalho bastante importante de coletas de dados específicos, como a coleta de amostra no campo em diferentes extratos das propriedades de café”, explica Silva.

João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos
João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos

“Depois, tivemos de submeter essas amostras a análises laboratoriais para entendermos a dinâmica desse carbono no solo em diferentes situações; em extratos de um cafezal, pontos relacionados ao relevo e em diferentes idades da planta”, conta ele.

Em seguida, o grupo fez o cruzamento de dados levantados nas propriedades com o banco de dados que a Cooxupé havia construído ao longo dos anos. Segundo Silva, a cooperativa dispõe de grande volume de dados sobre análise de solo e, a partir disso, foi possível estabelecer uma taxa de variação do carbono no solo.

Necessidade

Renata Gonçalves conta que o projeto de desenvolvimento da ferramenta integra o programa da Cooxupé denominado Protocolo de Sustentabilidade Gerações, que visa promover boas práticas agrícolas tendo como metas a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Gonçalves explica que muitos anos atrás, quando o Cepagri e a Embrapa começaram a trabalhar com o tema de mudanças climáticas, os pesquisadores alertaram que o café teria problemas com o aumento da temperatura. “Se a temperatura sobe muito, por exemplo, na época do florescimento, são grandes as chances de abortamento floral”, lembrou a pesquisadora.

Segundo ela, os eventos extremos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas. Com isso, os produtores registraram grandes perdas nos últimos anos. “Foi aí que começaram a pensar em mudanças no manejo”, disse Gonçalves.

Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais
Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais

Além da questão ambiental, os produtores começaram a ter maior preocupação com a produção também pelo viés econômico. “As empresas compradoras, hoje, estão exigindo que a produção seja mais sustentável. Precisam que os produtores promovam mitigação de GEE para que possam continuar comprando e exportando o café”, revela.

Sabor

De acordo com os pesquisadores do Cepagri, o manejo sustentável das plantações de café tem potencial para, inclusive, impactar positivamente o sabor da bebida.

João Paulo da Silva lembra que a matéria orgânica tem uma função muito importante no comportamento do solo. É o elemento que, segundo ele, vai melhorar a capacidade de troca catiônica do solo – aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis no solo para a planta absorver e utilizar em seus processos fisiológicos de crescimento e desenvolvimento de frutos.

Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas
Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas

“Se a gente tiver um solo com mais matéria orgânica, teremos menor necessidade de aplicação de adubo para a obtenção de uma bebida de mais qualidade. Com isso, a gente está reduzindo custo de produção e melhorando a qualidade da bebida”, disse o pesquisador.

“Desta técnica de diminuir a adubação e deixar mais matéria orgânica no solo é que vem a maioria dos cafés premiados deles”, finaliza Renata Gonçalves.

Multiplicadores

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores. Técnicos vão ser treinados pela Associação para disseminar as funcionalidades da ferramenta junto aos produtores rurais.

Também participaram do projeto os pesquisadores do Cepagri, Priscila Coltri, Eduardo Assad, Jurandir Zullo Junior e Maria Leonor Lopes Assad.

Foto de capa:

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores
Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores

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