Nem toda pesquisa é feita somente de palavras. Algumas se desenham em imagens, outras se desdobram em mapas, filmes ou cadernos visuais. Há investigações que pedem voz, gesto, superfície e movimento. É nesse território em que a antropologia se aproxima da arte, da literatura e do cinema que o Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem (La’grima), vinculado ao Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), construiu um caminho marcado pela experimentação.
Criado em 2015, o grupo realiza, de 15 a 17 de abril, o “Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas”, que vai reunir pesquisadores, docentes, estudantes e convidados em torno de uma pergunta que atravessa toda a história do laboratório: de quantas formas o conhecimento pode ser produzido, narrado e compartilhado?

Ao longo de sua primeira década, o La’grima dedicou-se à investigação das grafias e das imagens. Para Fabiana Bruno, pesquisadora e uma das coordenadoras do grupo, o laboratório se consolidou como um ponto de experimentação sobre as formas de produzir conhecimento. “As grafias funcionam menos como um tema e mais como uma forma de pensar a pesquisa”, afirma. “A antropologia é uma disciplina historicamente muito pautada pela escrita e pela descrição e o laboratório ajudou a ampliar essa perspectiva.”
A pesquisadora conta que sua linha de pesquisa, por exemplo, são as fotografias de família. “Entendendo a fotografia não apenas como superfície imagética, mas em relação à oralidade, à memória e a outras formas de grafia. A escrita antropológica também é central e não é vista em oposição às imagens, mas sempre em relação com elas”, explica.
Com programação híbrida, o evento será realizado no Auditório Fausto Castilho, no prédio de graduação do IFCH, com transmissão online pelo canal do Instituto no YouTube. A programação reúne debates e uma mostra das produções do La’grima, que podem ser conhecidas no arquivo digital “Grafia em Linha”
A abertura do simpósio será conduzida pela professora e pesquisadora Suely Kofes, coordenadora do laboratório desde sua criação, com a mesa “A gente pintava nas pedras a voz e o que dava santidades às nossas palavras era a canção do ver: grafias e linhas, dez anos depois”.

Formas de narrar
Para a pesquisadora Daniela Feriani, integrante do grupo desde sua fundação, uma das marcas mais fortes dessa trajetória é justamente a abertura a formas não convencionais de escrita e pesquisa. Ela destaca que essa experimentação aparece não apenas no conteúdo das pesquisas, mas também em sua forma material, com trabalhos que extrapolam a estrutura linear da página, incorporando superfícies, imagens, desenhos e dispositivos visuais como parte do próprio processo de pensamento.
Feriani, pesquisadora dos temas demência e neurodivergência, ressalta que cada vez mais teses e dissertações vêm experimentando com as grafias. “Sem perder o rigor científico, buscamos uma linguagem que possa alcançar públicos mais amplos, seja por meio de uma escrita mais poética, ensaística, visual ou audiovisual”, afirma. “Um filme, por exemplo, é muito mais acessível do que um artigo acadêmico.”
“Durante o meu pós-doutorado, eu mesma criei um site com materiais de pesquisa, justamente pensando em como apresentar esses materiais imagéticos para além de uma escrita meramente acadêmica. É uma forma de fazer com que a pesquisa chegue a outros lugares”, completa a pesquisadora.
Feriani cita exemplos do que é desenvolvido no La’grima, como o projeto “Sala de Cinema”, com exibição de filmes com teor etnográfico. “Escolhemos um filme para debater. Assistimos à obra, promovemos a discussão e, quando possível, convidamos o autor ou diretor para participar”, conta. Ela também destaca os seminários de leitura, em que uma obra ou um tema é escolhido para debate. “Neste semestre, por exemplo, estamos trabalhando com o tema dos sonhos”, conta.
Já a professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) Mariana Petroni, também da equipe de pesquisadoras do La’grima, destaca a abertura permanente ao novo como uma das principais conquistas do laboratório. “O fato de ser um laboratório de experimentação nos permite incorporar novas linguagens e mudanças sem perder o compromisso com o rigor científico e antropológico”, observa. “Se deixarmos de experimentar, perdemos a nossa essência.”
Atualmente em Salvador, Petroni mantém projetos em diálogo com o grupo e ressalta a força da rede construída ao longo da década. Segundo ela, a experiência do La’grima tem possibilitado intercâmbios entre universidades e novas formas de produção de conhecimento, especialmente em pesquisas ligadas à fotografia, imagem e antropologia visual.
“Minha pesquisa trabalha com fotografias indígenas feitas por indígenas e sobre indígenas, nesse diálogo das grafias, no sentido de compreender tanto a produção quanto a imagem em si, sempre com uma perspectiva antropológica”, completa.

Novas gerações
A equipe do La’grima tem observado um interesse crescente das novas gerações pelo laboratório. “Estudantes de graduação têm buscado o grupo para pensar pesquisas que dialoguem com cinema, imagem, desenho e outros modos de escrita. Também tem sido muito interessante perceber o interesse crescente dos estudantes mais jovens, especialmente da graduação”, conta Bruno.
A coordenadora ressalta que, além dos bolsistas, muitos estudantes colaboradores procuram o laboratório pelo interesse nas questões das grafias. “Eles querem pensar pesquisas de iniciação científica a partir das imagens, de outros modos de escrita e até da produção de filmes. Sentimos uma força muito grande nesse interesse das novas gerações.”
Bruno destaca ainda que a trajetória do La’grima foi marcada por uma ampla rede de interlocução com outros centros de pesquisa, no Brasil e no exterior. Entre os chamados “laboratórios primos”, com os quais o grupo mantém diálogo constante, estão o Sensolab, da Universidad Javeriana, em Bogotá, na Colômbia, o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa), da Universidade de São Paulo (USP), o Núcleo de Antropologia Visual (Navisual), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e o Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos, da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Essas parcerias são fundamentais para a troca de produções e para a circulação de pesquisadoras e pesquisadores entre instituições”, afirma.
Para ela, a experimentação “é, sobretudo, carregar perguntas” e refletir sobre o modo de compartilhar informação para torná-la mais acessível. “Não somos um laboratório de respostas prontas. O La’grima reflete teórica e epistemologicamente sobre o fazer antropológico, e aí reside também um futuro. Temos um chão sólido de questões e, ao mesmo tempo, um horizonte aberto”, completa.
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